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Cannabrava | Estaria sendo formado um consenso contra o governo?

Na transição há um perigo real e explicitado nas ameaças do ocupante do Palácio de não entregar o governo. Não se trata de um simples capitão e sim de uma junta de generais
Paulo Cannabrava Filho
Diálogos do Sul
São Paulo (SP)

Tradução:

Na transição há um perigo real e explicitado nas ameaças do ocupante do Palácio de não entregar o governo. Não se trata de um simples capitão e sim de uma junta de generais, seis mil militares no Executivo, nove mil em todo aparato governamental, incluindo autarquias, empresas estatais e mistas. Esse é o grande problema.

Agora, tem outro pouco percebido, implícito no comportamento histórico das oligarquias, as chamadas classes dominantes que desde a proclamação da República vem conduzindo as transições, seja através de processos institucionais, seja pela força, com o único objetivo de barrar a ascensão das massas, das forças libertadoras que lutam por um país independente, livre e soberano. Pela força das artimanhas depuseram a ex-presidenta Dilma Rousseff e prenderam o ex-mandatário Luiz Inácio Lula da Silva para que não houvesse continuidade de um projeto progressista. Já haviam feito isso em 1964 e não serviu de lição. E agora eles não escondem a intenção de repetir a façanha.

Na transição há um perigo real e explicitado nas ameaças do ocupante do Palácio de não entregar o governo. Não se trata de um simples capitão e sim de uma junta de generais

Reprodução: Facebook
Ato pedindo o Impeachment de Bolsonaro na avenida paulista

No Estadão de domingo (4), Fernando Henrique Cardoso, tucanão da velha guarda, quase que um porta-voz da família Mesquita, proprietária do jornal, diz ter ficado “pasmo de ver quanta incompetência e quanto descaso na administração de coisas tão importantes como sucede com os recursos do Ministério da Saúde. Pior, chega a assustar o pouco caso inicial da autoridade máxima com os eventos que se desenrolam naquela pasta”.

Eco! Para bom entendedor meia palavra basta. Está dada a luz verde para um amplo setor da direita, aquela um pouco mais esclarecida, engajar-se no momento para derrubar o governo. Contudo, filho de general, presidente por dois mandatos, faz um apelo: “ainda há tempo para consertar o rumo”.

Sabe que não há esse tempo nem condições para que essa gente que capturou o poder mude de rumo. Ademais, não tem como consertá-lo. O mal já está feito, mais de meio milhão de mortos, os culpados têm que ser julgados e punidos. A culpa não é singular, é plural, é de todo o governo.

Miguel Reale Júnior, jurista que fez o argumento para derrubar a presidenta Dilma, que não cometera crime algum, agora está argumentando que as condições estão dadas para processar o Bolsonaro por crime comum — o conjunto da obra negacionista é grande, disse o advogado tucano.

O cerca vai se estreitando. O Tribunal de Contas da União (TCU) entra na peleja e cobra explicações sobre essa história de vacina cotada a US$ 10 e contratada por R$ 15. Aí não é um dólar por vacina, são cinco. Se compraram um milhão de vacinas, são cinco milhões de dólares! Se foram 100 milhões de doses significam 500 milhões de dólares para repartir entre os membros da quadrilha. Máfia nenhuma do mundo manejou tanto dinheiro em tão pouco tempo.

Onde está Lula?

A que se deve o prolongado silêncio de Lula? Estará em recuo tático? Estará comendo o mingau pelas bordas, como diria o gaúcho Leonel Brizola? Ou seja, estará articulando com dirigentes, trabalhando nas periferias e grotões para organizar esse povo, dar conteúdo às manifestações? É o que o povo espera de seu líder, que se tornou único nessa conjuntura.

Ele apareceu, na semana passada, em entrevista à TeleSUR. Veja abaixo:

Na conversa, o apresentador faz a pergunta que todo mundo quer saber: “será candidato?”. Lula diz que vai deixar a decisão mais para o final do ano, que o partido está priorizando questões vitais como vacina, auxilio emergencial, financiamento para pequena empresa. 

Diz ainda que o partido quer que ele concorra, afinal, está em primeiro lugar nas pesquisas, pode derrotar o Bolsonaro, mas o quadro político está muito indefinido, ainda. É preciso saber quem serão os candidatos que a direita vai lançar, por isso vai decidir mais para a frente. Mas destacou ter muita vontade, já que está bem de saúde e tem muita vontade de ajudar o povo a recuperar a esperança.

Nós pedimos à assessoria de imprensa de Lula para que conceda uma entrevista coletiva, que seria capitaneada pelo programa Diálogos em Sul Maior, que envolve duas mais importantes universidades do Rio de Janeiro, UERJ e UFRJ, além de um programa de pós graduação da USP e pelo menos dez canais alternativos como o nosso Diálogos do Sul. É uma boa oportunidade para ele se enturmar com a raia miúda dos comunicadores, que é aí onde realmente está circulando a verdade. Sem hipocrisia.

A esquerda tem que estar na vanguarda dos movimentos de massa e também das denúncias. Já reconquistamos as ruas. Não se pode perder isso jamais, tem que seguir ampliando em gente e em abrangência. E tem que mandar recados certos e assertivos. 

Fora, Bolsonaro

Vi com certa emoção o Jornal Nacional, da Globo, com uma ampla e detalhada cobertura sobre as manifestações de rua que ocorreram nas capitais e principais cidades do país no último sábado (3) e, inclusive, em outros países, como Inglaterra, Alemanha e etc. 

Igualmente, os jornalões, reproduzindo inclusive discurso de políticos de esquerda e grafando as palavras de ordem: Vacina e Auxílio Emergencial! Fora Bolsonaro! Impeachment Já! 

Parece que estamos caminhando para uma unanimidade, na imprensa e em um número grande de partidos, de que não dá mais para continuar com esse governo genocida.

Mas, precisamos tomar muito cuidado! Historicamente, todas as transições têm sido conduzidas pela direita. É o povo que se mobiliza e exige, mas é a classe dominante que rege a transição com o cuidado de não alterar o status quo, mantendo seus privilégios. 

Pode não ser a hora para o povo assumir, mas é hora de avançar o máximo, e não se deixar enganar com os cantos de sereias ou de uma Vênus Platinada. A Globo não está desinteressada nesse processo. Nem a Globo, nem os jornalões.

O quadro eleitoral

Vinte mil pessoas tiveram um rendimento de R$ 230 bilhões sem pagar imposto, ou melhor, pagando 1,8% sobre tudo o que ganharam. Rendimento proporcionado por ações de empresas está isento protegido por lei. Este é mais um absurdo no país dos absurdos. É muito dinheiro. 10% disso são 23 bilhões.

Henrique Meirelles e João Amoedo, dois banqueiros, serão candidatos. Amoedo dono do partido Novo, declara apoio ao impeachment de Bolsonaro. É significativo. 

Acompanhando a tendência, o MBL e o Vem pra Rua, movimentos criados por um milionário estadunidense para desestabilizar o governo do PT, agora também anunciaram que se somarão às manifestações que pedem a deposição do governo.

Não se importam em gastar alguns milhões para embaralhar o cenário eleitoral. Que outro sentido faz essas candidaturas? Essa atomização e dispersão de candidatos da direita tem servido para fazer os grandes arranjos no segundo turno. 

O processo eleitoral já iniciado é completamente anormal. Temos um governo militar de ocupação disposto a se perpetuar no poder. O dilema é: militares ou civis. Nesse confronto, só o Lula tem condições de enfrentar.

Eduardo Leite e Henrique Mandeta também são apontados como presidenciáveis. Quem os apontou? Com que critério? O que os qualifica? Eduardo é um tucano bolsonarista que está fazendo um péssimo governo no Rio Grande do Sul. E ainda tem que derrotar o João Doria, governador de São Paulo, nas prévias e provavelmente também o Tasso Jereissati. 

O PSDB inventou Doria e agora quer livrar-se dele? É quem tem mais visibilidade entre todos os quadros presidenciáveis. Pela lógica, eles deveriam concentrar toda força nele, mas o partido e não o quer. 

E esse tal de Mandeta, do DEM… Quem é esse cara? Só porque ganhou mídia por ter sido demitido por Bolsonaro no Ministério da Saúde, se tornou presidenciável. 

Quem não quiser fechar com o Lula deveria fecham com o Ciro Gomes. É o único entre os possíveis tercios com chance. Tem desenvoltura de candidato, tem programa, está fazendo uma boa campanha. Nesse cenário, teríamos um segundo turno entre Lula e Ciro. Segundo declarou o próprio ex-presidente, isso seria o melhor que poderia acontecer no país.

Esqueceram de colocar na pesquisa o partido militar. Bolsonaro está em baixa. Se tiver impeachment, o capitão sai fica o general. Mourão termina o mandato como candidato à reeleição. Mourão também está em baixa? Já estão preparando a candidatura do general Santos Cruz, aquele que saiu do governo por não concordar com o tratamento que o governo vinha dando à corrupção. 

Há ainda o general Edson Pujol, o comandante do Exército que provocou a crise militar em abril do ano passado ao negar-se a cumprir ordem estapafúrdia do presidente que queria que ele ameaçasse o Supremo, como fez o general Heleno, em 2018.

Vai ser divertido ver três candidatos militares. Um para cada perfil de vivandeiras. Vivandeira é aquela que caminha atrás da tropa para oferecer alimentos. Se dizia dos udenistas que viviam atrás dos quartéis a pedir golpe por não ter voto.

Vacinação que não anda

No dia 1º de julho o Brasil alcançou 100 milhões de doses de vacinas aplicadas. Um nada, considerando que cada cidadão tem que tomar duas doses. É menos de 1/4 da população de 220 milhões. Nesse ritmo, têm razão os cientistas de estarem muito preocupados. 

Como disse o neurocientista Miguel Nicolelis, o país não está preparado para enfrentar uma terceira onda. Nesse cenário, os mortos poderão chegar a 800 mil até o fim do ano, um milhão no próximo.

CPI

A CPI do Senado continua sendo um dos programas de maior audiência na TV. Fazendo o dever de casa eram sete, o G-7; agora virou G-6, já que Eduardo Braga passou a defender Bolsonaro. Deve ter ficado doente da cabeça ou doente dos pés, como diz o samba. Quem samba fica, quem não samba vai embora.

Esse negócio de cobrar um dólar por dose de vacina, minha gente, com 20 milhões de doses são 20 milhões de dólares, 100 milhões de dólares teriam sido embolsados até o dia 1º de julho. E de agora em diante terão que adquirir não menos que 300 milhões de doses. O pessoal parece que enlouqueceu com a possibilidade de ganhar tanto dinheiro.

Pode haver escândalo maior que este? O Ministério Público apresentou denúncia de improbidade contra o general Eduardo Pazuello. Ao mesmo tempo, a Procuradoria Geral da República pediu abertura de inquérito contra Bolsonaro por prevaricação no caso da vacina indiana Covaxin. Mas não foi Augusto Aras, que segue em cima do muro. Foi o vice-procurado- geral da República, Humberto Jacques de Medeiros.

A empresa Precisa, já conhecida por fazer rolos com o governo, firmou contrato para compra da vacina a US$ 15 dólares, quando o valor inicial era de US$ 10. O deputado Miranda e seu irmão, funcionário do Ministério da Saúde levaram a denúncia ao capitão que ocupa a presidência e ele simplesmente não tomou providências. 

A compra foi suspensa, mas o dolo está explícito.

E tem mais. A empresa Global, recebeu R$ 19,9 milhões por pagamento de vacinas que nunca foram entregues. De fato, a Câmara precisa fazer uma CPI só para a questão da vacina, pois a CPI do Senado, por forças dos acontecimentos, está com ampla abrangência, devido os casos de corrupção que envolvem todo o governo e as forças armadas.

São casos todos muito graves porque envolvem a saúde, envolvem o SUS. É tão grande a insensibilidade, o descaro dos militares que até o dinheiro do orçamento destinado ao Sus para compra de vacinas, foi desviado para despesas ordinárias das forças armadas. Gosto deste termo. Além de significar gastos correntes, normal, significa também de qualidade ruim, de caráter duvido, de moralidade ou intelectualidade questionável. Não é pouco. Devia receber R$ 715 milhões, recebeu menos R$ 435,5 desviados para os militares.

O que faz o chefe da CIA no Brasil

Jantaram no Palácio o chefe da Casa Civil, general Luís Eduardo Ramos, o chefe do GSI, general Augusto Heleno, e o chefe da Cia, Willian J. Burns, acompanhado do embaixador ianque, Todd Chapman. 

O Burns ficou dois dias em Brasília. Vieram da Colômbia onde permaneceram quase uma semana em companhia do almirante chefe do Comando Sul dos EUA numa missão qualificada de “delicada”.

O que vieram fazer aqui esses dois personagens? 

Quem respondeu foi o presidente da Venezuela em cadeia nacional: Segundo ele, o chefe do Comando Sul e o chefe da CIA vieram para articular o assassinato do presidente Maduro e outras lideranças civis e militares venezuelanos. E pergunta Maduro: “Sabe o presidente Joe Biden o que vieram fazer aqui seus subordinados? Está o presidente Biden de acordo com que se promova o assassinato de um presidente?”. 

A denúncia é muito séria e confiável. A Venezuela desde que iniciou o processo revolucionário bolivariano conta com ótimos serviços de inteligência. Não teria sobrevivido o governo não fosse isso. Estão sempre atentos e já frustraram inúmeras tentativas de golpe, incursões armadas, desestabilização política.

Diante dessa denúncia, valeria a pena a formação de uma CPI na Câmara ou no Senado para inquerir o governo sobre essas reuniões não protocolares com estrangeiros — contumazes conspiradores — presentes como já foi provado, no golpe de 1964 e nesse novo golpe, iniciado em 2016, com a queda de Dilma e que culminou na captura do poder pelos militares em 2018.

O general Hamilton Mourão, que está de vice, está muito frustrado de não ter sido convidado para um evento tão importante. Este, de fracasso em fracasso vai cavando sua sepultura. Ele é o chefe do Conselho do Amazonas, um conselho de gente sua, não de técnicos. 

Sob sua gestão, a situação piora a cada dia. Avança a grilagem de terras, ocupação de terras indígenas, garimpo e madeira ilegais. Mourão disse que mobilizaria o Exército. Em junho, os incêndios bateram todos os recordes desde 2007. Foram 2.300 focos, sendo 66% no Mato Grosso, 18% no Pará, Rondônia 5%. Também aumentou os incêndios no cerrado: quatro mil focos.


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Paulo Cannabrava Filho Iniciou a carreira como repórter no jornal O Tempo, em 1957. Quatro anos depois, integrou a primeira equipe de correspondentes da Agência Prensa Latina. Hoje dirige a revista eletrônica Diálogos do Sul, inspirada no projeto Cadernos do Terceiro Mundo.

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