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Cannabrava | O que é melhor para o desenvolvimento do Brasil: Europa ou Brics?

Seguir a UE é entrar na rota do suicídio a qual eles se autocondenaram; política e economicamente, nada têm a oferecer às necessidades do nosso país
Paulo Cannabrava Filho
Diálogos do Sul Global
São Paulo (SP)

Tradução:

O que é melhor para o desenvolvimento do Brasil, a União Europeia ou os Brics? 

A pergunta é pertinente, suscitada pelas invectivas do embaixador da UE sobre a política exterior do governo brasileiro. Embaixador Ignácio Ibañez, no maior desrespeito à diplomacia e ao direito internacional, descarada ingerência nos assuntos internos do Brasil, ousa criticar as posições do Brasil com relação à Venezuela e à Rússia.

Brasil se mantém fiel aos princípios basilares de direito internacional, como o da Não Intervenção, Respeito à Autodeterminação dos povos e da Solução Pacífica das Controvérsias. Fiel também aos princípios bolivarianos e martinianos que conduzem a construção da Pátria Grande Latino-americana.

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O embaixador, despudoradamente, quer que o Brasil seja crítico e talvez rompa relações com a vizinha Venezuela, com que mantemos quilômetros de fronteira e de interesses comuns. Quer também que o Brasil se posicione contra Moscou, ou seja, contra o significado do R dos BRICS.

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Impressiona como a mídia corporativa e hegemônica defende as posições dos Estados Unidos e da União Europeia e é crítica à posição independente do país. Maior incongruência, defender posições que vão contra o mais elementar conceito de soberania e independência nacionais. 

Não se trata de pretender que a mídia diga amém às ações do governo, não mantenha a independência. Tem nada a ver uma coisa com outra. Ao alinhar-se aos Estados Unidos e à UE em detrimento dos interesses nacionais, se configura como crime de lesa Pátria. Política externa independente é uma questão vital para um Estado independente, não uma questão de governo ou de partido político.

Não se trata de liberdade de expressão quando o que está em jogo são os valores mais altos do Estado soberano. Como a mídia pauta a mídia, a opinião pública tem uma única versão acrítica dos fatos.

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Pibinho

O Brasil está há pelo menos quatro décadas sustentando um pibinho que não cresce. Precisa com urgência de um crescimento vigoroso e sustentável. Uma estratégia de desenvolvimento requer parcerias que contribuam e interajam com o desenvolvimento.

Fazer o PIB crescer, essa é a questão.

Seguir a União Europeia é entrar na rota do suicídio a qual eles se autocondenaram. Política e economicamente, Europa tem nada a oferecer para suprir as necessidades de desenvolvimento de um país como Brasil. 

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A União Europeia escolheu fazer guerra contra a Rússia para servir aos interesses dos Estados Unidos. Decretar bloqueio financeiro, econômico e comercial contra um país é um ato de guerra. Por ironia do destino, um ato de guerra que serve mais aos Estados Unidos e menos à UE, e menos ainda à Rússia.

Um só exemplo é suficiente para ajudar a entender o avesso dessa guerra. 

Altamente dependente do suprimento russo, UE cortou as linhas de fornecimento de gás e petróleo. O gás vinha por dutos, era barato e abundante. Agora vem liquefeito e engarrafado dos Estados Unidos por barcos que exigem adaptação nos portos de desembarque, custando muito mais caro.

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O gás mais caro inflaciona toda a linha de produção, inclusive a de alimentos, afetando a vida de toda cidadania. Combustível, energia, alimentos, tudo está mais caro.

Com as portas da Europa e do Ocidente fechadas, a Rússia se abriu para o resto do mundo e vende hoje mais gás e petróleo que antes do bloqueio. Paralelamente, esse outro mundo se acordou para os riscos que contemplam estar preso à economia que tem o dólar como moeda de referência, e serve à hegemonia do imperialismo.

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Seguir a UE é entrar na rota do suicídio a qual eles se autocondenaram; política e economicamente, nada têm a oferecer às necessidades do nosso país

Foto: Rogério Melo/PR
É preciso escolher: desenvolvimento, com os Brics, ou estagnação e guerra, com a União Europeia e Estados Unidos

Tanto Estados Unidos como UE entraram na onda da globalização que impôs o pensamento único neoliberal como doutrina de Estado. Desestatização, privatização, desindustrialização, desnacionalização, precarização, desemprego, miséria e fome, apanágio do neoliberalismo.

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Enquanto isso, a China tornou-se a fábrica do mundo. Desindustrializada a UE, nem os EUA podem prescindir da China, pelo menos num curto e médio prazo.

O que pode a UE oferecer? Não há vantagem alguma em uma associação com esses países que escolheram a guerra como opção de vida e cuja economia está a se deteriorar a olhos vistos. Europa transformada em colônia dos Estados Unidos.

Desenvolvimento, com os Brics, ou estagnação e guerra, com a União Europeia e Estados Unidos. Subordinação ao dólar, papel impresso que vale nada, ou integração a um mundo de cooperação com as moedas nacionais.

Contradição no seio do governo

Essa contradição se reflete ainda no seio do governo de coalizão. De coalizão, mas que foi eleito para executar um programa contrário ao monetarismo. Não faz sentido ministro defender políticas neoliberais que foram rejeitadas nas urnas.

Jean Paul Prates, do PT, presidente da Petrobras, nesses seis meses de governo conseguiu baixar o preço do gás em 25%. É uma cifra significativa numa matéria prima das mais importantes na produção de energia, fundamental para o funcionamento de grande parte do parque industrial.

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Alexandre Silveira, ministro de Minas e Energia, do PSD, na contramão do pensamento de Lula, quer acabar com o monopólio, entregar tudo para a iniciativa privada. Recordemos que já entregou, entre outras tantas, os dutos de gás e petróleo e agora paga aluguel para a estatal francesa Total.

Tem duas posições antagônicas dentro do governo. Ao aceitar integrar o governo, partidos da coalizão têm que adaptar-se à política que rege o governo de acordo com o programa para o qual foi eleito.

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Não faz sentido um ministro defender posição contrária. Fica difícil governar. Dá insegurança jurídica e afasta os investimentos tão necessários para a retomada da industrialização.

Quer queiram ou não os neoliberais, esse governo foi eleito para acabar com as privatizações.  

Isso ocorre por falta de uma estratégia nacional de desenvolvimento com seus planos setoriais de curto, médio e longo prazo.

Desindustrialização

Levantamento da Confederação Nacional da Indústria, com 1.682 executivos de 672 pequenas empresas, 599 médias e 411 grandes empresas, ademais de 356 indústria da construção, apenas possuem máquinas com até 2,5 anos de uso. 28%, a maioria, têm equipamentos de 10 a 15 anos. Equipamentos velhos reduzem a produtividade e aumentam os custos de produção.

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Além do processo de desindustrialização a que o país foi submetido nas quatro últimas décadas, a indústria que ainda permanece funcionando está defasada, o que é um problema a mais no processo de retomada, que vem sendo chamada de neoindustrialização.

O processo tem que começar com atenção especial para adequar o parque industrial através de linhas de crédito especiais, incompatíveis com a política de juros altos do Banco Central.

Paulo Cannabrava Filho, jornalista editor da Diálogos do Sul e escritor.
É autor de uma vintena de livros em vários idiomas, destacamos as seguintes produções:
• A Nova Roma – Como os Estados Unidos se transformam numa Washington Imperial através da exploração da fé religiosa – Appris Editora
Resistência e Anistia – A História contada por seus protagonistas – Alameda Editorial
• Governabilidade Impossível – Reflexões sobre a partidocracia brasileira – Alameda Editora
No Olho do Furacão, América Latina nos anos 1960-70 – Cortez Editora

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

Paulo Cannabrava Filho Iniciou a carreira como repórter no jornal O Tempo, em 1957. Quatro anos depois, integrou a primeira equipe de correspondentes da Agência Prensa Latina. Hoje dirige a revista eletrônica Diálogos do Sul, inspirada no projeto Cadernos do Terceiro Mundo.

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