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Cannabrava | Queima de livros assegura o pensamento único para os nazistas

O problema maior é ser o livro o único instrumento universal que realmente alfabetiza e faz as pessoas pensarem livremente
Paulo Cannabrava Filho
Diálogos do Sul
São Paulo (SP)

Tradução:

Queima de livros foi o que caracterizou a ação social do nazismo na Alemanha de Hitler. Necessária a queima de livros para que vigore o pensamento único. Queimam-se os livros porque fazem pensar. Aqui ainda não queimaram, mas mandaram retirar 10 milhões de livros que seriam distribuídos aos alunos do fundamental da escola pública.

O secretário de Educação do estado de São Paulo, Renato Feder, rechaçou 10 milhões de exemplares de livros que seriam distribuídos a alunos do ensino fundamental pelo Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) do Ministério da Educação.

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Troca o livro pelo slide, pela televisão e computador ou celular em sala de aula. A medida atinge 5 milhões de alunos da rede estadual, 15% do universo do PNLD.

O problema maior é ser o livro o único instrumento universal que realmente alfabetiza e faz as pessoas pensarem livremente. Quem não lê um livro não é capaz de interpretar um texto ou mesmo uma mensagem oral ou audiovisual.

Leia também: Educação arrasada em todos os sentidos: há que recorrer aos mestres para as soluções

O analfabetismo funcional atinge 70% da população brasileira. Há formados com diploma universitário e generais estrelados que nunca leram um livro. Essa situação facilita a disseminação do discurso dos pastores neopentecostais fundamentalistas de que a vida é um confronto entre o bem e o mal e que o mal tem que ser vencido aqui e agora para ganhar o reino dos céus. 

O que é o bem e o que é o mal está na leitura da Bíblia feita pelos pastores da teologia do domínio e da teologia da prosperidade. Pastores treinados em técnicas altamente sofisticadas de manipulação das mentes desenvolvidas nos Estados Unidos e aperfeiçoadas localmente. Essa conexão com os evangélicos é importante para o que segue.

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O governo do estado de São Paulo está nas mãos do capitão do exército Tarcísio de Freitas, do partido Republicanos, tem que lembrar, partido vinculado à Igreja Universal do Reino de Deus, Iurd do bispo Edir Macedo, que aparece nas listas da revista Forbes como entre os mais ricos do mundo e processado várias vezes por estelionato.

Leia também: Cannabrava | Na pedagogia de quartel das escolas cívico-militares, a educação é inimiga

Tinha que vir de um capitão de exército e adepto ao neopentecostalismo a atitude de excluir da escola pública os livros oferecidos pelo Ministério da Educação através do PNLD. Renato Feder, seu secretário de Educação, tem como mérito ter realizado a façanha, como gestor da Educação no Paraná, de ter entregado 27 escolas públicas para a iniciativa privada.

Feder é sócio da Multilaser, companhia de eletrônicos e informática que presta serviço na área de Educação. O PSOL pediu sua exoneração por improbidade. Feder argumenta que o professor estava diante de duas alternativas: ou o livro do MEC ou o material didático pedagógico da Secretaria da Educação, e então decidiu que só terá o projeto. Ou seja, imponha-se o slide, a televisão e o computador, anula-se o livro!

O problema maior é ser o livro o único instrumento universal que realmente alfabetiza e faz as pessoas pensarem livremente

Montagem (Fotos de engin akyurt e Estado de SP)
Livro, só o livro estimula a visão crítica da realidade, oferece mil alternativas de soluções para os problemas

Feder coloca em dúvida a qualidade do livro e diz que o material é mais assertivo, dinâmico na classe. A utilização das duas coisas – do livro e do computador – não era alternativa.

Não tem argumentos que convençam sobre a não eficiência do livro. Na Suécia estão fazendo um movimento de retorno ao livro, pois o excesso de informática está imbecilizando as pessoas.

Livro, só o livro estimula a visão crítica da realidade, oferece mil alternativas de soluções para os problemas. Antes mesmo de Gutenberg já se sabia ser o livro a melhor forma de transmitir o conhecimento para as gerações futuras. 

Como o estudante vai estudar em casa? Pergunta um professor. Feder responde que se quiser o aluno pode imprimir o material e levar para casa. É mais do mesmo. Não substitui o livro em sua multiplicidade de pensamento.

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A Apeoesp, maior dos sindicatos dos professores, diz que Feder quer impor um pensamento único a professores e alunos, contrariando também a liberdade de cátedra e o princípio da liberdade de ensinar e aprender. Ademais, está comprovado que o aluno que lê tem desempenho melhor em todos os testes.

Chacina no Guarujá

Somam 14 já os mortos pela chacina perpetrada pela Polícia Militar numa comunidade do Guarujá, litoral de São Paulo. Em vingança pela morte de um PM da Rota, entraram arrombando, batendo, torturando, matando, segundo testemunhas. Chegaram a tirar a criança do colo de um cidadão para então fuzilá-lo. É a Lei de Talião, 10 por um, num estado sem Lei, num país em que são executadas anualmente mais de 50 mil pessoas.

É a PM do governo do capitão Tarcísio de Freitas, que se manifesta “extremamente satisfeito com a operação policial” que resultou numa chacina de 14 mortos, não 8 nem 10 como anunciou o governador.

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Sem nenhuma apuração sobre como foi o procedimento, a aprovação a priori dos policiais aponta para conivência e para a impunidade dos responsáveis. É assim que funciona. A mentalidade militar do capitão do exército casada com a vontade de matar da polícia militar e para a mídia são apenas números de mortos, mera estatística sobre número de mortos.

Para o capitão governador, foi atitude exemplar na PM. Não tem o direito de usar suas crenças e ideologia como política de estado. É o que está fazendo com a Educação e com a Segurança, além de pretender privatizar até os parques públicos e a água. É o que está fazendo quando desobedece o governo federal que mandou acabar com as escolas públicas geridas por militares.

Paulo Cannabrava Filho, jornalista editor da Diálogos do Sul e escritor.
É autor de uma vintena de livros em vários idiomas, destacamos as seguintes produções:
• A Nova Roma – Como os Estados Unidos se transformam numa Washington Imperial através da exploração da fé religiosa – Appris Editora
Resistência e Anistia – A História contada por seus protagonistas – Alameda Editorial
• Governabilidade Impossível – Reflexões sobre a partidocracia brasileira – Alameda Editora
No Olho do Furacão, América Latina nos anos 1960-70 – Cortez Editora

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Paulo Cannabrava Filho Iniciou a carreira como repórter no jornal O Tempo, em 1957. Quatro anos depois, integrou a primeira equipe de correspondentes da Agência Prensa Latina. Hoje dirige a revista eletrônica Diálogos do Sul, inspirada no projeto Cadernos do Terceiro Mundo.

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