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Cannabrava | Rede da Legalidade e a necessária resistência contra os golpes no Brasil

Episódio pouco conhecido, a sublevação de Brizola no Rio Grande do Sul foi acompanhada por uma importante mobilização em São Paulo
Paulo Cannabrava Filho
Diálogos do Sul Global
São Paulo (SP)

Tradução:

Em 25 de agosto de 1961, o então presidente Jânio Quadros renunciou com a intenção de dar um golpe. O tiro lhe saiu pela culatra. “Se é para dar golpe, damos nós”, disseram os militares, que ocuparam o poder e impediram a posse do vice-presidente eleito, João Marques Goulart.

Enquanto isso, Leonel de Moura Brizola estava fazendo uma revolução como governador do Rio Grande do Sul. Diante da situação, se subleva, ocupa o Palácio Piratini e também os microfones da rádio Guaíba. Brizola conclama então o povo à resistência em defesa da legalidade. Legalidade era obedecer à Constituição e dar posse ao vice-presidente eleito. Brizola subleva também a Brigada Militar e consegue o apoio do comandante do III Exército.

De imediato, se forma a chamada rede da legalidade. Emissoras de rádio poderosas como a Mayrink Veiga, no Rio de Janeiro, rádios do interior e um trabalho intenso de radioamadores. Com isso, a voz de Brizola e as marchas militares empolgaram a nação. Uma multidão cercou o Palácio Piratini e do Brasil inteiro voluntários se apressaram para organizar a resistência por toda parte.

Um episódio não registrado de nossa história… Em agosto de 1961, Brizola se subleva em Porto Alegre. Aqui em Sampa houve a maior mobilização com o povo e alguns militares se organizando para resistir.

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Vânio José de Matos, tenente da Força Pública e estudante de jornalismo, se subleva e consegue a adesão dos principais quartéis da força pública para a defesa da legalidade. Civis liderados pelo Partido Comunista declaram o palácio da Câmara Municipal, na rua Líbero Badaró, território livre em defesa da legalidade, logo, protegido pelos militares da força estadual.

Importante lembrar esse levante da força pública, protagonizado pelo tenente Vânio de Mattos porque, no pós-1964, as forças públicas passaram a ser auxiliares das forças armadas e hoje são bolsonaristas e neopentecostais. Uma ameaça à segurança nacional.

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Memórias da Resistência
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Aquele foi um episódio bonito, empolgou o Brasil inteiro. Aqui em Sampa, formaram grupos de civis e alguns militares do exército para uma possível resistência. Todo mundo vidrado no rádio, com os discursos inflamados e marchas marciais.

Por que relembro isso? 1961 não foi um mero episódio local e acho que vale a pena resgatar que a São Paulo Arlequinal se mobilizou e muita gente pegou em armas disposto a enfrentar os golpistas.

Nesse agosto, a polícia e os jagunços de Carlos Lacerda fizeram baderna por toda a cidade do Rio de Janeiro. Invadiram e depredaram a sede da Prensa Latina. Com o pessoal da agência no Rio sem comunicação, sobrou para mim, correspondente em São Paulo, cobrir o evento praticamente sozinho, com ajuda solidária de colegas.

Encontrei com o Vânio e ele me levou nas abordagens que fez nos dois principais quartéis da força pública na cidade, na Tiradentes e na Vergueiro. Com esses dois quartéis sublevados, os outros aderiram, praticamente como num jogo de dominó.

Vânio de Matos, tenente na época, já era capitão quando foi praticamente expulso da corporação por ser subversivo. Entrou na luta armada contra a ditadura, escapou de ser morto, foi para o exílio, no Chile. Porém, veio o golpe de Augusto Pinochet, aliado dos militares brasileiros. Vânio foi assassinado no estádio de Santiago do Chile.

Paulo Cannabrava Filho, jornalista latino-americano e editor da Diálogos do Sul.

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

Paulo Cannabrava Filho Iniciou a carreira como repórter no jornal O Tempo, em 1957. Quatro anos depois, integrou a primeira equipe de correspondentes da Agência Prensa Latina. Hoje dirige a revista eletrônica Diálogos do Sul, inspirada no projeto Cadernos do Terceiro Mundo.

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