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Cannabrava: sem aumento há 4 anos, é justa a paralisação de servidores públicos?

Plano é paralisar tudo durante 2 horas. Revolta ocorre após governo conceder reajuste à PF e a militares, num festival de gastança que fere princípio constitucional da isonomia
Paulo Cannabrava Filho
Diálogos do Sul Global
São Paulo (SP)

Tradução:

“Duas coisas há no mundo
que eu não posso entender
uma é padre ir pro inferno
outra é médico morrer”

Versos de canção folclórica recolhida por meu avô, no século 19, vieram-me à memória ao ver as manchetes dos jornais no final da semana passada e início desta (de 15 a 17 de janeiro). Funcionários públicos anunciam paralisação geral no dia 18. Médicos em greve em São Paulo recrutam para ampliar a greve. Médicos do serviço público. É assustador.

No meu entendimento, não se pode negar o direito a greve a nenhuma categoria de trabalhador. A arma mais poderosa da classe operária é a greve. Uma greve geral bem articulada é capaz de derrubar um governo. Mas, neste caso, tem que ser considerada a excepcionalidade. 

Estamos em guerra. Guerra contra o inimigo invisível — a Covid 19 — que já matou 620 mil pessoas e numa guerra cultural-cibernética em que foi transformado o processo eleitoral. 

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Os servidores públicos federais estão há quatro anos com os salários congelados, a maioria sem reajuste desde 2017, com perdas que ultrapassam 50%. Não por acaso que todas as entidades que reúnem funcionários públicos estão mobilizadas. 

Isso com uma inflação acumulada em 2021 de dois dígitos (17,84%) ultrapassando, dependendo dos itens, os 20%, até 40% em produtos vitais, como combustível, transporte, alimentação. 

Eles já estavam mobilizados por conta disso e se revoltaram a partir do aumento que o governo concedeu reajuste à Polícia Federal e aos militares, num festival de gastança que fere o princípio constitucional da isonomia — direitos iguais para todos. Foi destinado R$ 1,7 bilhão do orçamento só para reajuste de carreira dos policiais federais.

Anteriormente, já havia sido concedido aumento para os militares, que vai de 5% para início de carreira, 32% para suboficiais e tenentes e de 35% a 41% para oficiais superiores. No caso dos generais e oficiais superiores no governo, estão embolsando duplo salário e ultrapassando o teto do funcionalismo. Uma estafa com dinheiro público.

O pessoal da Receita Federal já vinha protestando, realizando o que chamam de Operação Padrão, nas fronteiras terrestres e aeroportos, provocando filas enormes de caminhões e de pessoas que necessitam viajar. E esses são parte da elite do funcionalismo, ou seja, são os que ganham mais. Na semana passada, 1.288 servidores da Receita entregaram seus cargos. 

Plano é paralisar tudo durante 2 horas. Revolta ocorre após governo conceder reajuste à PF e a militares, num festival de gastança que fere princípio constitucional da isonomia

FONASEFE
"A arma mais poderosa da classe operária é a greve".

Mobilização é geral

Segundo o Fórum Nacional Permanente de Carreiras Típicas de Estado (Fonacate), que representa os servidores, cerca de 20 categorias já aderiram à paralisação prevista para esta terça (18).

O plano é paralisar tudo, no Brasil inteiro, durante duas horas: das 10 às 12 horas. É simbólico, mas mostra a força e coloca o governo numa sinuca. Já estourou o teto de gastos e os gestores da economia alegam que não têm de onde tirar recurso. Será que não tem? Será que o trilhão de reais do orçamento secreto não daria para pagar essa conta? E o trilhão que foi para os bancos? Certamente pagaria essa conta.

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Prometeram uma Reforma Administrativa e não fizeram. Aliás, não se vê proposta dos candidatos do que fazer com a Administração Pública. Precisa de reforma, todos concordam, porém, que reforma? Como estruturar as carreiras? Quais carreiras? 

Hospitais e postos de saúde lotados

Por conta da pandemia da Covid em sua terceira onda e de um novo surto de influenza, a famosa gripe com novo vírus, os postos de saúde e hospitais não estão dando conta de atender as imensas filas formadas por gente necessitando atendimento. Falta pessoal e faltam insumos. Falta pessoal porque, além do aumento da demanda (gripe mais covid), muitos médicos e demais prestadores de serviço de saúde estão fora do trabalho, contaminados.

Os cientistas preveniram deveríamos estar preparados para uma terceira onda. A onda está aí acompanhada de gripe e tem gente ainda querendo liberar geral.

Estamos em situação de guerra. Guerra contra um inimigo poderoso que já abateu quase 650 mil pessoas. Eles — os médicos — estão certos na reivindicação: mais médicos e mais pessoal auxiliar cuja contratação depende dos governos nos três níveis da Federação — municipal, estadual e federal. O esforço tem que ser conjunto visando o melhor atendimento possível.

Impressiona ver que mesmo em situação de guerra, algumas pessoas conseguem ignorar o que ocorre em seu entorno, não olham além do próprio umbigo. Outras veem em tudo oportunidade para aumentar seus lucros. Basta lembrar que as três empresas que tiveram lucros bilionários nesses dois últimos anos são da área da saúde e ligadas às máfias associadas ao governo militar de ocupação.

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Médicos jovens votaram em Bolsonaro para desabafar a raiva que estavam do governo do PT por ter realizado o programa Mais Médicos. Um programa que cuidou de levar médicos para rincões onde nenhum médico queria ir. E não se pode negar que há diplomados em medicina que se mantêm analfabetos funcionais, mercenários insensíveis à miséria humana. Há que lembrar que as câmaras de tortura contavam e — ainda contam — com a presença de médicos.

Isso ocorre em todas as profissões. Há até padres que perderam a humanidade.

A crise civilizatória só se superará começando com o resgate da humanidade, no seu mais amplo sentido.

Paulo Cannabrava Filho é jornalista e editor da Diálogos do Sul


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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Paulo Cannabrava Filho Iniciou a carreira como repórter no jornal O Tempo, em 1957. Quatro anos depois, integrou a primeira equipe de correspondentes da Agência Prensa Latina. Hoje dirige a revista eletrônica Diálogos do Sul, inspirada no projeto Cadernos do Terceiro Mundo.

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