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Cannabrava | Será que Bolsonaro perdeu a eleição? Que diferença isso faz no Brasil?

Nas eleições municipais, quem ganhou, e substancialmente, foi o "Centrão" e o Bolsonarismo. É o que mostram os números
Paulo Cannabrava Filho
Diálogos do Sul
São Paulo (SP)

Tradução:

Os resultados eleitorais, no contexto geral da nação, projetam uma situação muito difícil para o país daqui pra frente. A esquerda perdeu espaço. 

A direita neoliberal perdeu também, mas pouco, e o MDB continua sendo o maior partido. 

Quem ganhou, e substancialmente, foi o “Centrão” e o Bolsonarismo. É o que mostram os números. 

Lembremos que, em número de eleitores, o Centrão evoluiu de 24,3 milhões para 30,5 milhões e o Bolsonarismo de 6,5 milhões para 12 milhões, aos quais se somam outros 30 milhões da direita neoliberal. E o Bolsonaro ainda tem 40% de gente que o aprova. É muita gente.

O que isso significa? O governo de ocupação se sente a vontade para continuar seu projeto? Que projeto? Esse é que é o problema. Não há outro objetivo do que o de perpetuar-se no poder, legitimados, com forte apoio, porque o que a realidade mostra é mediocridade e fisiologismo.

Dia 29 terminam as eleições, acaba a euforia, vamos cair na realidade.

Avança o coronavírus

Na saúde pública, uma catástrofe. Os hospitais da elite, tipo Sírio Libanês e Einstein, já deram um alerta: estão lotados. 

Esses são hospitais de gente rica e classe média alta. O vírus não discrimina. Segundo cientistas da USP e da Unesp, a incidência do vírus está aumentando. Em outros países, já se fala de uma segunda onda, nós ainda estamos na linha ascendente dessa única onda fora de controle.

São 170 mil mortos. Um genocídio que ficará na conta do governo militar incrustado no Planalto.

Regride a economia

Também a economia está fora de controle. Estava no despenhadeiro antes da chegada da pandemia e está só fez agravar. E isso por conta da extrema incompetência dos gestores da economia. 

A dívida pública, em dezembro, já estará em 100% do PIB, um pibinho, vergonhoso. Dentro da lógica do capital, aumenta o risco e, com isso, encarecem os títulos e aumentam a dívida e o gasto com o juros da dívida. É um círculo vicioso que em outras ocasiões levou países à moratória.

Nas eleições municipais, quem ganhou, e substancialmente, foi o "Centrão" e o Bolsonarismo. É o que mostram os números

Amazonas Atual
É preciso ter em mente que a campanha presidencial para reeleição já está a todo vapor.

Um governo que não tem projeto, mas que é muito gastador. E tem um super-ministro da Economia incompetente absoluto para gerir a crise, que não gasta e ainda corta do lado errado.

A reforma administrativa — tão anunciada nas campanhas eleitorais — deveria estar sendo feita para gerar recursos. Ao contrário, ela está sendo feita para prejudicar os pequenos e favorecer os graúdos. Reduz o número de funcionários que são indispensáveis para tocar a máquina, aumenta do outro lado os comissionados e as regalias daqueles que ganham mais. 

Nenhum super-salário foi até agora cortado; nenhuma mordomia abandonada. 

Quanto se economizaria se cada ministro, se cada parlamentar, ou juiz morasse em sua própria casa ou pagasse aluguel? 

Então, como não tem dinheiro, eles já reduziram a ajuda emergencial de 600 para 300 reais e, a partir de dezembro: zero. 

Desaparece a Amazônia

O desmatamento também bate todos os recordes sob a guarda de um recém-criado Conselho da Amazônia, comandado pelo general vice-presidente.

Com a economia paralisada, o desemprego, que já atingiu 14%, rapidamente chegará a 16%. Na realidade, essa taxa não contabiliza os que já desistiram de voltar para o mercado de trabalho. Somando os que já saíram do mercado de trabalho e a população com trabalho precário, temos metade da população em situação crítica. Seguramente haverá pressão social.

Fome 

A ONU recolocou o Brasil no Mapa da Fome, fato que tinha sido superado em 2014. Desemprego e fome: o retrato da tragédia de um país que bate seguidos recordes de safras agrícolas.

Como reagirá o governo diante da pressão social? Ora, como sempre reagiu: repressão, violência contra a população. Eles não precisaram colocar os tanques nas ruas para tomar o poder, não hesitarão em massacrar o povo para se manterem no poder.

Por isso, que eu insisto no caráter plebiscitário dessas eleições. 

Derrotar o bolsonarismo

Boulos e Erundina, em São Paulo, no lugar de Bruno Covas e o bolsonarista João Doria, faz a diferença. Isso vale para todas as cidades em que a esquerda enfrenta a direita no segundo turno. 

Uma prefeitura bem administrada, com um projeto de inclusão social e de geração de trabalho e renda amenizará o sofrimento do povo e ajudará a enfrentar a crise localmente. 

O fundamental, uma vez no poder na Prefeitura, é iniciar localmente uma revolução cultural, ou seja, através de ações culturais, promover a conscientização e organização do povo.

Tem que ter em mente que a campanha presidencial para reeleição já está a todo vapor. “Bolsonaro 22”, “Bolsonaro presidente 22”, “Fechados com Bolsonaro”, são os mais ativos nas redes, com mais de 100 mil seguidores e com planos de chegar ao milhão. E nesse vale tudo já tem gente dizendo que a urna é chinesa, não vote.

Some-se a isso uma mídia imbecilizada, incapaz de enxergar um palmo adiante do nariz e você verá o quanto é urgente o posicionamento e o ativismo de todas as forças democráticas e anti-imperialistas.

Se não der certo com Bolsonaro, eles já têm os planos B, C, D, e nenhum deles passa por Dória, Moro, ou lá quem seja. A solução será interna corpori. 

Militares na reserva

Eles quem? Ora, os generais e seus colegas da ativa e da reserva.

Já são mais de oito mil os militares no governo. 

No Executivo são 1.54 do Exército, 676 da Aeronáutica e 500 da Marinha.

No Judiciário são 125 do Exército, 81 da Aeronáutica e 7 da Marinha.

Só no Gabinete de Segurança Institucional, sob o comando do general Augusto Heleno, tem 904 do Exército, 139 da Aeronáutica e 99 da Marinha. No Ministério da Defesa, do general Azevedo e Silva, são 367 do Exército, 480 da Aeronáutica e 395 da Marinha. Em outros órgãos os do Exército somam 269, Aeronáutica 57 e Marinha seis.

A realidade é uma Junta Militar no comando no Palácio do Planalto. Já não há mais nenhum civil no Palácio do Planalto, a não ser os serviçais subalternos. Nos ministérios ainda há alguns civis, porém, cercado de militares nos postos de primeiro e segundo escalão.

A maioria do pessoal que manda no núcleo duro do governo, tem em comum ter integrado uma força de paz da ONU, no Haiti, Líbano ou outro lugar, a maioria no Haiti. Destaca-se que o comando real dessas “forças pacificadores” são os Estados Unidos, no caso do Haiti, o Comando Sul com sede em Miami. 

A mentalidade é da Polícia Pacificadora, treinada para para controlar movimentos sociais, experiência que repetiram e aperfeiçoaram ao intervir ocupando o Rio de Janeiro. Basta lembrar o que foi o Rio de Janeiro ocupado por essas tropas pacificadoras. 

Outro fator de união entre o militares que capturaram o poder é pertencerem à maçonaria. O general Hamilton Mourão, que ocupa a vice-presidência, recentemente foi elevado ao mais alto grau da maçonaria, pulando todas as etapas tradicionalmente exigidas.

Dizem combater a corrupção, mas não passam de bando de corruptos cínicos governando em causa própria. Estão ganhando duplo salário, pois têm o soldo de militar como se na ativa estivessem mais o salário correspondente ao cargo que exercem no governo. Burlando a Lei que proíbe receber duas vezes da mesma fonte.

Tranquilos, os militares que compõem o governo de ocupação governam para eles mesmos. O Estado nacional está quebrado. Do ponto de vista fiscal, não tem mais dinheiro. Isso não importa. Há centenas de ativos nacionais que estão a venda, entra um dinheirinho, paga um pouco das contas e ainda sobre um pouco pra repartir… nénão?


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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Paulo Cannabrava Filho Iniciou a carreira como repórter no jornal O Tempo, em 1957. Quatro anos depois, integrou a primeira equipe de correspondentes da Agência Prensa Latina. Hoje dirige a revista eletrônica Diálogos do Sul, inspirada no projeto Cadernos do Terceiro Mundo.

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