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Cargas de profundidade: a tática do Império para arruinar democracias na América Latina

De forma submersa, resistência dos povos aos abusos é debilitada, enquanto governantes títeres são protegidos pelo silêncio da comunidade internacional
Carolina Vásquez Araya
Diálogos do Sul
Cidade da Guatemala

Tradução:

O debilitamento das democracias é uma estratégia de longa data.

Quem tenha sido aficionado aos filmes de guerra, saberá como funcionam as cargas de profundidade utilizadas contra os submarinos inimigos. Utilizadas com profusão durante as batalhas navais da Segunda Guerra Mundial, estas bombas explodiam a certa profundidade, mais do que com o objetivo de destruir, com a intenção de desgastar tanto a couraça do navio como sua tripulação. Algo similar sucede com a política em nosso continente: pouco a pouco e sem pausa, os mecanismos elaborados para proteger as instituições, dedicadas a consolidar os sistemas democráticos, foram perdendo sua força devido aos embates de forças inimigas dificilmente reconhecíveis.

A partir das políticas intervencionistas dos Estados Unidos e seus aliados incondicionais, teceu-se uma malha de proteção, cujos efeitos operam como se, por cima de nossos Estados, existisse um governo supranacional, isento de limites legais e, obviamente, dedicado a proteger interesses alheios ao bem-estar dos povos. Esse colonialismo, cujas características se assemelham às das oligarquias locais e, de passagem, se aliam com elas, previne qualquer tentativa de rebelião por parte das capas menos privilegiadas das sociedades latino-americanas.

Leia também: Poder, corrupção e a “insuportável leveza” da política na América Latina e no mundo

As cargas de profundidade que debilitam nossos alicerces vêm em diferentes cores: desde os tratados comerciais até os golpes de Estado, passando pelas pressões diplomáticas para incidir nos textos constitucionais e na emissão de leis. Além disso, contam com o apoio dos meios de comunicação de alcance massivo, a partir dos quais se propagam um ideário ad hoc, capaz de consolidar movimentos cidadãos opostos às liberdades e aos direitos humanos. A isso se acrescenta, como corolário, uma série de políticas restritivas, mas contraditórias, que converteram nosso continente em um território de produção e tráfico de drogas. 

De forma submersa, resistência dos povos aos abusos é debilitada, enquanto governantes títeres são protegidos pelo silêncio da comunidade internacional

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Estratégias do império se instalaram comodamente para converter os nossos países em provedores de matérias primas e mão de obra barata

Hoje, as cargas de profundidade debilitaram a resistência dos povos aos abusos de governantes títeres suspeitosamente protegidos pelo silêncio da comunidade internacional e, o que é ainda mais tenebroso, aliados a supostos líderes espirituais cuja mensagem gira em torno à submissão. Ao haver-se debilitado o próprio conceito de democracia, nos vemos confrontados a uma situação de debilidade extrema da cidadania na maioria de nossas nações. Privadas de acesso às decisões do governo e diante de legislações elaboradas por assembleias majoritariamente aliadas com a corrupção, o território das democracias é de guerra solapada, na qual a voz do povo é impotente.

As estratégias do império se instalaram comodamente para converter os nossos países em provedores de matérias primas, mão de obra barata, cúpulas políticas obedientes e elites econômicas dispostas a aceitar a fome de seus concidadãos. Nesses termos, as democracias tão apregoadas como utópicas se converteram em parte de um discurso alheio à realidade. Os setores mais castigados perderam não só seu espaço de participação, mas também grande parte de sua energia vital. Assim funcionam as cargas de profundidade lançadas debaixo d’água com tanta profusão como com más intenções. Assim funcionam as colônias e, assim também, os governos capazes de cooptar o Estado com o objetivo de limitar os direitos, sabendo que podem contar com a aquiescência dos donos do poder.

 A cooptação do Estado é o instrumento antidemocrático por excelência. 

Carolina Vásquez Araya | Colaboradora da Diálogos do Sul na Cidade da Guatemala.
Tradução: Beatriz Cannabrava.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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Carolina Vásquez Araya Jornalista e editora com mais de 30 anos de experiência. Tem como temas centrais de suas reflexões cultura e educação, direitos humanos, justiça, meio ambiente, mulheres e infância

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