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Carlos Russo Jr. | Memória: um grito para o passado, nos tempos da ditadura militar

O que dizer a mim mesmo no passado, o que falar?
Carlos Russo Jr
Diálogos do Sul Global
Florianópolis (SC)

Tradução:

O passado não é o elemento e a atmosfera natural do narrador de histórias, a que ele se apega como o musgo nas pedras do caminhar? Mesmo sabendo que o centro da vida é o presente, sinto o sabor da morte e da vida quando me aventuro pelo passado, e venho sôfrego com meus medos, sentindo em cada momento a presença dos diferentes “eus” que fui e que produziram tantos cadáveres insepultos a seguirem meus passos.

Afinal, meio século não é um espaço de tempo, é toda uma vida, a vida mesma, seu âmago, medula.

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Março de 2023 e eu, que desde minha aposentadoria, adquiri o feliz hábito de caminhar pela manhã no Parque da Aclimação, naquele dia de sol oblíquo e temperatura agradável, procurava um banco para sentar-me e estar a ler o jornal do dia.

Quem conhece este belo e centenário parque teve o deleite de deitar seus olhos no pequeno, mas delicioso lago central, em torno do qual a atividade dos seres nele viventes e, também, a dos eventuais pássaros visitantes se organiza. As pessoas aproveitam a sombra amiga de tantas árvores ao seu redor para passearem.

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Aquilo me produzia uma enorme sensação de bem-estar. Lembro de me haver distraído na leitura do jornal, coisa de velho que transforma uma simples página em um corolário de letras que formam palavras, e entre uma piscadela mais curta e outra mais longa, os olhos que voltam sempre ao mesmo local e à página que nunca termina, num entrecortar de cochilos, vigílias.

Tão distraído que quando dei por mim já não estava só no banco. No outro extremo havia se sentado um rapaz muito jovem que, ao perceber que o mirava, virou o rosto, como evitando o contato.

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Sentia que o jovem me atraía muito mais que a leitura. Não sabia porque isso ocorria, mas de toda forma, a presença do desconhecido absorveu-me de tal modo que, como por um encanto, o lago e seus comensais deixaram de existir, o parque se esfumaçou e não restou mais ninguém exceto nós dois.

O que dizer a mim mesmo no passado, o que falar?

jmm kazi – Flickr
Parque da Aclimação, em São Paulo (SP)

Meu companheiro de banco se dera conta de minha agitação e essa também o contaminara. Ele olhava para todas as direções e ao mesmo tempo para nenhuma em particular, como se receasse estabelecer contato.

Foi quando me dei conta daquilo que num primeiro momento me havia passado despercebido. Havia coisas que nele destoavam, a começar pelo vestir-se, uma roupa absolutamente inadequada àquele local de descontração e deleite. Um terno escuro de corte antigo, no colarinho apertado uma gravata muito fina com laço mal feito, que há décadas já não se usa. O cabelo cortado rente e um pequeno bigode. Desde o momento em que se sentara, acendera dois cigarros.

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De repente passou-me pela mente que eu tinha diante de mim um figurino esculpido no passado, num tempo de quase meio século.

Então tive a percepção de já ter vivido aquele momento, algo que os psicólogos chamam de uma sensação de “dejá vue”. Sentia-me a cada instante mais e mais incomodado, talvez receoso. Restavam-me duas alternativas: ou levantava-me do banco e fugia ou forçava o início de uma conversa qualquer.

“Desculpe-me, mas eu tenho a impressão de que já nos conhecemos”. Perante o silêncio, resolvi nova investida. “Você mora neste bairro e vem sempre a este lugar? ”

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A resposta que obtive foi um lacônico não; pelo menos agora o meu vizinho voltara para mim seu rosto e me encarava. “Francamente, desculpe-me se sou inconveniente, mas eu tenho a sensação de conhecê-lo”.

Ora eu me encontrava em uma situação privilegiada em relação ao rapaz. Por maior pasmo que possamos sentir na situação e o meu é dificilmente descritível, é mais fácil reconhecer-se num instantâneo do passado do que o passado desvendar o futuro num rosto marcado pelas rugas do viver envelhecido.

Eu precisava tentar algo, quebrar de alguma forma o gelo. “O teu jeito é que você não é aqui de São Paulo. Estou certo? ”- perguntei-lhe de um só fôlego.

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Penso haver notado no olhar que o jovem me retornou um quê de alívio em sua permanente aflição, mais que qualquer sinal de irritação. “Não sou daqui e isso é fácil de perceber. Sou o único a vestir paletó e gravata e assim, só posso chamar atenção. Para falar a verdade, de repente eu me senti estranho nesse ambiente. Não é a primeira vez que venho a esse parque, mas sinto hoje tudo mudado”.

Como assim mudado, perguntei-lhe, respondeu-me: as pessoas andam mais soltas, usam roupas muito justas, pedalam umas bicicletas estranhas. Não me situo muito bem. Estou em São Paulo procurando emprego e por isso ando assim vestido.

Notei que o rapaz começava a suar. “Olhe-me bem, você não nota a semelhança que possuímos? Será que não tem ideia de o porquê? Tanto você como eu sabemos que você não veio a São Paulo em busca de emprego e o seu nome é Carlos. Acontece que este também é o meu nome”.

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Acredito que o rapaz que eu tinha ao meu lado ainda não atinara com a situação, ou não teria realizado um movimento brusco de buscar junto ao sovaco por sua arma. “Você é algum tipo de polícia? ”, perguntou-me, já se levantando do acento.

Eu lhe pedi calma e que ele olhasse nos meus olhos. “Isso não pode estar acontecendo na realidade, devo estar sonhando” – retorquiu-me o rapaz. “Você é diferente de mim, é muito mais velho, ou melhor, você é um velho! Olhe suas roupas, elas são muito estranhas, ou melhor, a roupa de todas estas pessoas que caminham por aqui é estranha”.

“Veja, retorqui, eu também acho tudo isto estranho, incrível, simplesmente impossível. No entanto, estamos juntos, nós que somos um feito dois, num tempo que não é o seu, mas que me pertence. Para que você se convença de que somos o mesmo e não o somos, experimente soltar o seu olho esquerdo, você ficará tão, mas tão estrábico quanto eu”.

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O jovem Carlos olhou-me profundamente, suspirou e disse-me numa última tentativa de identificação: “Se eu não estou aqui para procurar emprego, o que estou fazendo nesta cidade?”.

“Você está em São Paulo fugindo da repressão política. Ficar em nossa cidade, seria a prisão e a tortura, quem sabe a morte. Não foi por isso que você veio para cá? Esta foi sua opção, foi a forma como você exerceu a sua liberdade. Ao contrário de vir para cá poderia ter fugido para o exterior, seus pais o ajudariam e lá você encontraria muitos de seus companheiros. Nossos pais até que tentaram isto, não é verdade? Amigos seus, isto é, nossos, fizeram isto, mas você não, você veio para São Paulo para seguir lutando, não? E agora, tendo abandonado todo e qualquer conforto ou segurança, deve estar morando numa mais que modesta pensão na Mooca, é ou não é a verdade dos fatos? Quando você recuou no banco, pronto para levantar-se, já tinha empunhado um revólver, não é assim? Aquele 38 que foi a minha arma de defesa pessoal. O que eu estou tentando entender ainda é como tudo isso possa estar ocorrendo. Mas você e seus companheiros de organização, ou melhor, os nossos, acreditam que podem ganhar esta guerra, também não estou certo?”.

“Você está certo, você sabe que está certo. E eu sei que vamos vencer a nossa luta, pois é a luta de todo o povo brasileiro contra a ditadura. Nessa guerra revolucionária é vencer ou morrer, ou já se esqueceu”.

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Comecei a notar certo incômodo no meu outro eu, incômodo por saber que não havíamos morrido, pois encontrava a si mesmo no futuro e eu, em bermudas e camiseta, em nada me assemelhava a um proletário revolucionário.

Resolvi tentar entender um pouco melhor a situação. Mas meu outro teria que se abrir comigo. “Você veio aqui cobrir um ponto de encontro, não? Com quem?”.

“Adiantaria negá-lo? Vim cobrir um ponto de encontro com o Antônio e mais outro companheiro que ele iria me apresentar. Como ninguém cobriu o ponto, dei duas voltas pelo parque e terminei sentando no mesmo banco que você.”

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“Mais uma pergunta, em que dia você está no seu tempo?”.

“Segunda-feira, dia nove de abril”.

“Nesse dia, meu caro, no Parque da Aclimação, morreu o companheiro Antônio quando cobria um ponto de encontro com um cachorro, um desses ex-camaradas que quando preso muda de lado e passa a buscar pessoas para a morte.”

Meu segundo eu perdeu a cor e disse-me: “Isso significa que nós deixamos de morrer num ponto que era uma armadilha, é isso?”.

Eu simplesmente assenti com a cabeça. “Até hoje eu não sabia o porquê do desencontro que nos salvou a vida, mas não a do camarada Antônio”.

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“Agora, diga-me, senhor Carlos, se é que posso chamá-lo assim, em que ano estamos?”.

“Estamos em 2023 e o seu ponto que ocorreu no mesmo dia e mês, foi há quase 50 anos. E não me pergunte mais nada sobre esse mistério que nos sucedeu, parece algo mágico e sobre o qual eu nada entendo”. Levantei-me para poder respirar um pouco.

O jovem Carlos, agora mais calmo, pegou-me pelo braço, “para termos sobrevivido, devemos ter vencido de um modo ou outro, conte-me, é isso?”.

Senti-me realmente confuso. O que dizer a mim mesmo no passado, o que falar? Com que direito poderia destruir os sonhos de um jovem cujo amor desinteressado pelo seu povo, pela sua Pátria, no qual a crença similar a de um cristão novo pelo socialismo o haviam levado a abandonar a perspectiva de uma vida burguesa mais ou menos previsível, colocando em permanente risco o único bem que lhe restara, a própria vida? Eu sabia com a certeza da mãe terra que o passado nunca poderia ser alterado. Que quando o jovem Carlos despertasse de seu sonho de nada se recordaria, já que eu não me lembrava de havê-lo tido. Resolvi tangenciar:

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“Os militares voltaram aos seus quartéis, embora sempre desejem voltar ao poder. Aqueles dentre eles que constituíam o corpo da repressão, hoje ou morreram ou se escondem como assassinos e torturadores. Hoje, enfim, vivemos em um regime de democracia liberal, lutando sempre contra as forças do fascismo.

Ainda complementei: “Mesmo a esquerda armada tendo sido derrotada, nós fizemos parte de um dos momentos especiais na história, um daqueles que assinalam o surgimento dos espíritos livres. Saiba que muitos de nossos companheiros, os melhores, morreram na luta que abraçamos. Nós, em 1970, o seu momento de vida, nos acreditávamos puros, o sal da terra, mas com o tempo você verá que éramos e somos apenas e tão somente humanos”.

O jovem Carlos olhou-me como se procurasse em meus olhos uma resposta mais objetiva à sua pergunta. Talvez tenha sido o olhar mais inquiridor que eu já tenha enfrentado: o olhar dentro da própria alma daquele que fomos, no qual nos transformamos. Não tenho ideia de quanto tempo se passou, mas de repente a magia se desfez e o jovem Carlos, com um movimento de alisar os cabelos com os dedos – trejeito que eu possuía enquanto tinha cabelos, mudou radicalmente de assunto. “Você ainda tem o jornal que estava lendo quando cheguei?.

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“Está aqui comigo. Você poderá lê-lo, mas ou muito me equivoco, ou não conseguirá levá-lo daqui consigo”.

Meu passado pegou o jornal, folheou-o rapidamente e, simplesmente, o devolveu. “Se isto é um sonho para que vou olhar o futuro? Ele, de todo modo, não poderá modificar o meu presente, você não concorda?”.

“Este encontro será importante para mim até a minha morte, eu lhe disse. Para você não terá valor algum, pois quando de alguma maneira dele despertar, de nada se recordará. Uma pena porque eu poderia prepará-lo para viver momentos de extrema dor, abandono, descrédito por si próprio, de desespero e solidão, pois você, digo eu, será preso, torturado, esmagado, exilado de sua própria terra. Depois, já em liberdade, desilusões e também alegrias, muitas alegrias, amores, muitos amores e também tristezas e desilusões, enfim, toda uma nova vida se abrirá para você”.

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Neste momento o jovem Carlos levantou-se e olhando-me novamente nos olhos, com aquele mesmo olhar com que me vejo todos os dias, inquiriu-me: “Diga-me uma coisa: para o Carlos de hoje, valeu a pena a luta armada que estamos travando?”.

Eu desviei os meus olhos e procurei refletir sobre o que diria ao meu eu dos vinte anos: “Valeu sim e, ao mesmo tempo, não valeu; deixe-me ver como eu explico. Vamos começar pelo jornal que temos aqui”. Entretanto, o jovem Carlos já não queria ouvir-me. Interrompeu-me e levantando-se, disse-me: “De qualquer modo, eu vivo e viverei meu tempo. Não me importa a sua resposta, eu a encontrarei, por mim mesmo, no futuro, em você. ”

Como ele se afastasse e um ruído de fundo se fazia ouvir, gritei numa pueril iniciativa de tentar alterar o passado: “Diga para o Toledo não ir ao encontro do traidor cachorro do Pará. Se ele for, será assassinado e tudo irá desmoronar mais cedo!”.

Falei em vão, o jovem Carlos caminhava longe de mim e do alcance de minha voz. Foi, então, que tive a certeza de que eu não estivera a sonhar, mas que fora a minha presença no sonho que era dele, no meu próprio passado distante.

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A minha inspiração para esta crônica devo-a a um verso de Rank:

Sempre ali onde eu quis dormir,

Sempre ali onde eu quis morrer,

Junto de mim veio sentar

Um infeliz de roupa negra

Igual a mim como um irmão.

(Rank, Don Juan)

Carlos Russo Jr. | Colaborador da Diálogos do Sul


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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Carlos Russo Jr Carlos Russo Jr., coordenador e editor do Espaço Literário Marcel Proust, é ensaísta e escritor. Pertence à geração de 1968, quando cursou pela primeira vez a Universidade de São Paulo. Mestre em Humanidades, com Monografia sobre “Helenismo e Religiosidade Grega”, foi discípulo de Jean-Pierre Vernant.

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