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"Carreira estelar e sem manchas" alega García Luna, acusado de apoio a narcotráfico nos EUA

Luna "se tornou a cara da guerra" antinarcóticos lançada por Felipe Calderón e encabeçou combate contra os cartéis, afirma defesa do mexicano
David Brooks
La Jornada
Nova York

Tradução:

Os advogados defensores de Genaro García Luna solicitaram que o juiz recuse evidência “irrelevante” e sem credibilidade de duas testemunhas – um informante na própria prisão e uma jornalista mexicana – que os promotores desejam incluir em um eventual julgamento do ex-secretário de Segurança Pública do México, programado para outubro. 

A equipe de advogados de defesa, encabeçada por César de Castro, argumenta que permitir esta evidência no julgamento teria um “impacto de preconceito” entre os jurados já que “seu único propósito é tentar demonstrar o mau caráter do Sr. García Luna”.

Ao refutar a credibilidade do que os promotores apresentaram como um “informante” dentro da prisão sem identificá-lo, que podia demonstrar que García Luna estava interessado em aceitar a ajuda de integrantes da máfia russa para intimidar possíveis testemunhas contra ele, os advogados defensores revelam que se trata de Ruslan Mirvi, encarcerado na cela adjunta por julgado por pornografia infantil.

Segundo a defesa, Mirvi ofereceu colaborar com os promotores, obtendo evidência de que Garcia Luna era capaz de buscar intimidar testemunhas potenciais, em troca de uma redução da longa condenação que lhe esperava. O governo pôs um microfone oculto que gravou mais de 500 horas de conversa entre os dois réus, mas a defesa argumentou que há apenas dois minutos em que Mirvis parece conseguir que García Luna faça algum comentário com que se incrimine. Além disso, esse fragmento não conteria evidência de que seu cliente tinha a intenção de buscar apoio para intimidar testemunhas, segundo a defesa.

No que se refere a uma segunda testemunha não identificada, que os promotores desejam usar para demonstrar que Garcia Luna tem um histórico de ameaçar jornalistas, a defesa supõe que se trata de Anabel Hernández, cuja acusação de que foi ameaçada por alguém em nome de García Luna “foi investigada e descartada como não crível”.

Na petição ao juiz, a defesa acusa que Hernández começou a escrever sobre García Luna em um livro em 2007 e “continuou sua vingança pessoal na imprensa durante anos”. Os defensores também agregam que Hernández “tem estado acusando os líderes do governo mexicano de trabalhar para os cartéis durante múltiplas administrações” até hoje. 

“Depois que Hernández afirmou que o atual presidente Andrés Manuel López Obrador e seu partido estão apoiando o Cartel de Sinaloa, a senadora mexicana Citlalli Hernández descreveu o trabalho de Anabel Hernández como ‘escrevendo fofocas sem rigor’”, apontou a defesa.

Os advogados também acusam que a integridade do trabalho de Hernandez tem sido questionada múltiplas vezes, inclusive em acusações de difamação (citam uma nota do La Jornada informando sobre a denúncia contra a jornalista por Jorge Carpizo, em 2012) e que a jornalista tem usado a suposta ameaça para promover seus livros tanto no México como no estrangeiro. 

Em conclusão, a defesa afirma que as acusações dos promotores “de intimidação de testemunhas e ameaças contra Hernandez carecem de substância, não são críveis, e são tentativas transparentes do governo para prejudicar o júri contra o Sr. García Luna”. Portanto, devem ser descartadas pelo juiz federal Brian Cogan, encarregado do caso contra García Luna.

Luna "se tornou a cara da guerra" antinarcóticos lançada por Felipe Calderón e encabeçou combate contra os cartéis, afirma defesa do mexicano

Reprodução | Twitter

Garcia Luna recebeu apoio pessoal e elogios de alguns dos mais altos funcionários estadunidenses, afirma defesa do mexicano




Herói e aliado estadunidense

Como parte de sua resposta no documento apresentado perante o tribunal, a defesa incluiu o que seguramente será parte de sua narrativa em um eventual julgamento, oferecendo uma biografia da suposta carreira estelar e sem manchas de seu cliente como funcionário público dedicado à Segurança Pública do México de 1989 a 2012, ressaltando sua relação ampla e alto nível com contrapartes e políticos estadunidenses.

Informaram que, como secretário de Segurança Pública, Garcia Luna recebeu apoio pessoal e elogios de alguns dos mais altos funcionários estadunidenses e também proeminentes legisladores, alguns dos quais foram ao México para reunir-se com ele, entre eles Hillary Clinton, Robert Muller (chefe do FBI), Eric Holder (Procurador General), entre outros.

“O Sr. García Luna se tornou a cara da guerra” antinarcóticos lançada por Felipe Calderón, e com assistência dos Estados Unidos, o acusado encabeçou o combate contra os cartéis, em particular El Chapo, defendem os advogados. Eles também sublinham que foi durante este tempo que foi detido e extraditado aos Estados Unidos Jesus Zambada, que qualificam como a “principal testemunha” dos promotores estadunidenses no caso atual contra García Luna.

Garcia Luna foi preso em Dallas e transferido para Nova York em dezembro de 2019, sob acusações das autoridades americanas de que entre 2001 e 2012 ele forneceu assistência ao Cartel de Sinaloa em troca de subornos no valor de dezenas de milhões de dólares. Seu julgamento está marcado para 24 de outubro no Tribunal Federal Oriental no Brooklyn, em Nova Yorque, EUA – o mesmo local e juiz onde foi realizado o julgamento de El Chapo.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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David Brooks Correspondente do La Jornada nos EUA desde 1992, é autor de vários trabalhos acadêmicos e em 1988 fundou o Programa Diálogos México-EUA, que promoveu um intercâmbio bilateral entre setores sociais nacionais desses países sobre integração econômica. Foi também pesquisador sênior e membro fundador do Centro Latino-americano de Estudos Estratégicos (CLEE), na Cidade do México.

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