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Carta: a prática quase extinta, salvo pelo resgate de alguns poucos nostálgicos

Ao ser perdida a carta, perdeu-se a expressão manuscrita absolutamente individual, transformando o texto em uma peça mecânica e artificial
Carolina Vásquez Araya
Diálogos do Sul
Cidade da Guatemala

Tradução:

Em um afã por escapar de um presente cheio de incertezas e contradições, prefiro dar uma olhada aos passados séculos para resgatar dessas brumas da memória um dos objetos mais queridos: a carta. Herdeira dos antigos manuscritos, em que se plasmava com lindo estilo a História da Humanidade, a carta – esse pedaço de papel carregado de significado – sobreviveu às guerras, aos avanços da indústria, às crises existenciais e aos obstáculos geográficos que retardavam sua trajetória, até que a derrotou o século atual. 

Ao redor do mundo, os sistemas de distribuição do correio representaram uma das instituições mais sólidas e de maior credibilidade, pela importância depositada nessa prática. 

O uso da carta, um inestimável arquivo documental ao longo da história, extinguiu-se. A eficácia dos sistemas instantâneos desenvolvidos mediante um avanço tecnológico vertiginoso, acabaram com a necessidade e, como consequência, com as perspectivas de sobrevivência de um modo de relação que toca as fronteiras da arte.

As gerações educadas na escrita manual desapareceram, para serem substituídas por usuários de computadores e telefones inteligentes a partir dos quais se aprecia mais a rapidez que o conteúdo, perdendo-se irremissivelmente todo o valor implícito em um documento pessoal e íntimo.

Ao ser perdida a carta, perdeu-se a expressão manuscrita absolutamente individual, transformando o texto em uma peça mecânica e artificial

Fortíssima
A autêntica carta era uma peça irrepetível, escrita em um impulso com um estilo coloquial semelhante à linguagem falada




Valores

A carta, entre outros de seus valores, tinha a enorme qualidade de plasmar uma forma de autobiografia resultando assim muito mais reveladora e íntima, o refletir em suas linhas e o fluir do pensamento de maneira espontânea, sem os filtros impostos pela obsessiva revisão literária.

Por essa mesma razão, seus melhores exemplares chegaram a possuir mais intensidade que o romance e mais força que o ensaio, por sua qualidade de fazer menos concessões ao desperdício verbal. Para comprová-lo, nada melhor que cavoucar entre as coleções epistolares dos grandes filósofos, artistas e cientistas.

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Os objetivos e o modo de escrevê-las podem chegar a abarcar uma infinidade de possibilidades: a literária (como no caso de Proust) pode converter-se no objetivo primordial, além da mensagem em si, demonstrando que um escritor dificilmente pode deixar de sê-lo mesmo quando esteja transmitindo seus sentimentos mais íntimos em um pedaço de papel supostamente para ser destruído.

No entanto, também existe a dificuldade intrínseca no fato de utilizar o método epistolar; e é a impossibilidade de manter uma conversação amena, profunda, leve, imprevisível e afetuosa, tudo ao mesmo tempo, fazendo abstração do fato de que entre uma e outra intervenção podem transcorrer semanas ou meses. 

Ao ser perdida a carta, perdeu-se a expressão manuscrita absolutamente individual, transformando o texto em uma peça mecânica, elaborada e moldada de maneira artificial. Já não existem mais os parágrafos torcidos, os sinais individuais nem a possibilidade de cometer erros, os quais são corrigidos de modo automático. Tampouco está o fato de se abrir o envelope e desfrutar do momento de revelar seu conteúdo.

A autêntica carta era uma peça irrepetível, escrita em um impulso com um estilo coloquial semelhante à linguagem falada. Ou seja, uma linguagem única capaz de transmitir pensamentos, sentimentos e atitudes, com a conotação íntima de pessoa para pessoa. Essa prática extinta para as maiorias, talvez permaneça latente para um resgate reservado ao uso exclusivo de alguns poucos nostálgicos.

Receber o correio era a expectativa de obter uma resposta, uma mensagem esperada.

Carolina Vásquez Araya| Colaboradora da Diálogos do Sul na Cidade da Guatemala.
Tradução: Beatriz Cannabrava


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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Carolina Vásquez Araya Jornalista e editora com mais de 30 anos de experiência. Tem como temas centrais de suas reflexões cultura e educação, direitos humanos, justiça, meio ambiente, mulheres e infância

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