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"Casas de pique": centros de tortura e de mutilação de pessoas voltam a assombrar colombianos

Trata-se de dependências localizadas na cidade de Buenaventura, onde grupos irregulares executavam e jogavam suas vítimas no mar para serem devoradas por peixes
Redação Télam
Bogotá

Tradução:

Em meio à repressão policial e militar que já deixou cerca de 60 mortos e um milhar de feridos na atual crise colombiana, o fantasma de uma das realidades mais tenebrosas do conflito armado interno, as chamadas “casas de pique”, onde investigações judiciais calculam que desapareceram cerca de 900 pessoas nos últimos 20 anos, voltou a estar no centro das denúncias.

A justiça que investiga os crimes atrozes na Colômbia após a assinatura da paz em 2016 com a extinta guerrilha das FARC

Nas chamadas “casas de pique” pessoas eram assassinadas e seus restos lançados ao mar para serem devorados pelos peixes.

Essas dependências, situadas no principal porto do país, sobre as águas do Pacífico, na cidade de Buenaventura, foram denunciadas por organismos defensores dos direitos humanos e até pelo falecido bispo Héctor Epalza Quintero como centros clandestinos nos quais diversos grupos irregulares massacravam suas vítimas e lançavam seus restos ao mar, como alimento para os peixes.

Trata-se de dependências localizadas na cidade de Buenaventura, onde grupos irregulares executavam e jogavam suas vítimas no mar para serem devoradas por peixes

Télam
Em Buenaventura, o controle da situação passou de guerrilheiros a paramilitares.

129 desaparecidos

Um informe oficial sobre a crise atual, publicado pela revista Semana, diz que ainda há 129 pessoas desaparecidas em todo o país depois de dezenas de confrontos e depredações policiais em bairros pobres, no contexto das manifestações; assim o fantasma das ”casas de pique” reapareceu publicamente.

Alberto Yepes, da Coordenação de Direitos Humanos, e Julio César Hincapie Betancourth, do Movimento Nacional de Vítimas de Crimes do Estado (Movice), no entanto, disseram à Télam que não têm informações que confirmem que os desaparecimentos atuais tenham relação com esses centros de horror.

Denúncias e investigações

As “casas de pique” foram denunciadas em 2012 por monsenhor Epalza. “Já ultrapassa os limites esquartejarem com motosserras. O que mostra a falta de humanidade destes grupos”, afirmou o religioso à cadeia Caracol.

De acordo com essa denúncia, que se somou a outras, formuladas por organismos de Direitos Humanos, naqueles antros se desmembravam vivas as pessoas e depois seus restos eram lançados ao mar.

A justiça que investiga os crimes atrozes na Colômbia depois da assinatura da paz em 2016 com a extinta guerrilha das FARC calcula que em Buenaventura desapareceram pelo menos 881 pessoas nas últimas duas décadas.

Aqueles que perpetraram semelhantes atrocidades ao longo de pelo menos 20 anos de conflito interno, é assunto de debate. Para as autoridades, vítimas e os que vitimaram pertenciam ao mundo do narcotráfico e outras atividades delituosas englobadas na Colômbia sob o rótulo de “bandos criminosos” (bacrim), mas no pós conflito já situam ali também as dissidências das FARC.

Paramilitares e narcotraficantes 

A comunidade civil, e especialmente os dirigentes defensores dos direitos humanos, asseguram que agiram ali também os bandos paramilitares.

Segundo uma crônica da agência de notícias AFP, em Buenaventura o controle da situação passou das mãos de guerrilheiros a paramilitares e depois a criminosos da gangue La Local, que utiliza o porto para a saída de suas volumosas cargas de drogas.

O narcotráfico soube aproveitar a “rede natural de estuários e bacias”, e “o saber especializado dos navegantes” do porto, observou Juan Manuel Torres, pesquisador do centro de estudos Fundação Paz e Reconciliação, citado pela agência francesa.

Aqui – acrescentou – a segurança não depende tanto das autoridades como “dos acordos entre ilegais, que costumam ser acordos frágeis”. Quando são rompidos, começa um novo ciclo de desaparecimentos, assassinatos e tiroteios. Foi o que aconteceu no começo deste ano de pandemia.    

Tradução: Ana Corbisier


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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