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Caso Corriere della Sera vs Cristina revela misoginia, colonialismo e perseguição política

Na América Latina, grandes grupos empresariais impõem sua visão de mundo e pautam a agenda pública, comprometendo a democracia nos países da região
Rafael Molina Vita
Diálogos do Sul
São Paulo (SP)

Tradução:

As fake news ganharam outra proporção na era digital. A velocidade da difusão de notícias falsas na rede tornou-se uma arma poderosa na luta política, como bem demonstraram as últimas eleições no Brasil. Sistemas de disparos de mensagens financiados por dinheiro não contabilizado na campanha eleitoral alcançaram os celulares de milhões de pessoas, em um esquema sofisticado onde o que vale é manipular as emoções do público-alvo (medo, raiva), sem o mínimo de comprometimento com a realidade dos fatos.

Na América Latina, o problema da distorção das informações tem um agravante: o oligopólio midiático. Grandes grupos empresariais impõem sua visão de mundo e pautam a agenda pública, comprometendo a democracia nos países da região. Nesse sentido, vamos comentar um caso emblemático, anterior à onda das fake news digitais, por combinar elementos como misoginia, colonialismo e perseguição política: O caso Corriere della Sera vs Cristina Kirchner.

Nestor Kirchner acabava de completar seu mandato (2003 a 2007) como presidente da Argentina, e os peronistas indicaram a então Senadora e primeira-dama, Cristina Kirchner, para a sucessão. Tratava-se de uma escolha não aprovada pelo Clarín, grupo de comunicação mais poderoso do país, que não teve como sustentar a hipótese de fraude que havia levantado antes das eleições (Cristina foi eleita no primeiro turno, com uma grande diferença de votos a frente da segunda colocada). 

Em junho de 2008, já na presidência da República, Cristina participou de uma reunião da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), na Itália. Nesta ocasião, o jornal romano Corriere della Sera publicou a nota “Hambre e Dolce Vita”, prontamente reproduzida pelo Clarín, descrevendo um suposto tour da presidenta pela capital italiana fazendo compras de luxo durante a conferência contra a fome. Em apenas uma tarde, ela teria gasto 100 mil euros comprando joias e lençóis de seda.

Um caso grave, já que Cristina foi difamada por um jornal europeu enquanto representava o Estado argentino em um evento oficial. 

A presidenta ingressou com uma ação judicial e o jornal foi condenado a pagar uma indenização no valor de 41.000 euros, revertidos em sua totalidade para instituições de caridade. O Clarín, rápido e eficaz ao publicar, de forma destacada, a nota difamatória do diário italiano, não fez nenhuma menção à decisão judicial. Segundo Cristina:

“A verdade é que pude denunciar uma mídia tão importante na Itália, demonstrar que eles estavam mentindo e que me difamavam, porque não era um problema de desinformação, mas de informações maliciosas. Eu pensei que em outro país, além da Argentina, a justiça poderia provar que estava certa. Eu sabia que no meu país isso não seria possível se o Clarín publicasse algo semelhante. Ninguém assinaria uma sentença contra o Clarín, e se isso não bastasse… favorável a mim”. 

Uma investigação histórica aponta que Eva Perón, ao viajar para Europa no ano de 1947, foi vítima do mesmo expediente, em artigo publicado pelo mesmo Corriere della Sera, que divulgou a falsa notícia de que a mesma teria comprado joias e um carro de luxo no valor de três milhões e setecentas mil liras durante a sua passagem por Milão. 

A guerra entre Cristina e o Clarín teve vários capítulos posteriores, e se intensificou com a aprovação da Ley de Medios (2009), cuja finalidade era democratizar as comunicações e coibir os oligopólios midiáticos na Argentina. 

“À distância, posso afirmar que o ataque do Clarín contra mim foi antes de 2008-o ano do conflito com os empregadores agrícolas-quando eu ainda era senadora. Eles diziam, por exemplo, que eu havia feito cirurgias no rosto, criticavam meu gosto pelas bolsas e saltos, dentre tantas outras coisas. Mas a verdade é que nunca tive nada a esconder (…). Os artigos sobre questões estéticas, roupas e todas as coisas mais misóginas que se pode pensar estiveram a partir dali na ordem do dia. Se tratava, sem dúvida, de uma construção específica que queriam criar em torno da minha imagem”. 

Mulheres como Cristina Kirchner são consideradas traidoras pelas elites latino-americanas por não aceitarem o papel de subalternidade reservado ao sexo feminino e por, mesmo fazendo parte de uma classe privilegiada, assumirem o protagonismo na defesa das classes menos favorecidas. De qualquer forma, assim como no caso de Evita Perón, o julgamento que ficará para a história será o do povo argentino, não o do Clarín ou das correntes de whatsapp.

*mestre em políticas públicas, membro do coletivo estadual de Direitos Humanos do PT/SP e da ABJD.

Referência:

Fernández de Kirchner, Cristina. Sinceramente-7ª. Ed.-Ciudad Autónoma de Buenos Aires: Sudamericana, 2019.


eso no hubiera sido posible si Clarín publicaba algo similar. Nadie firmaria uma sentencia contra Clarín y por si fuera poco…favorable a mí.

 A la distancia, puedo afirmar que la embestida de Clarín hacia mi persona fue incluso antes de 2008-año del conflicto com las patronales agropecuarias- cuando todavia era senadora. Decían, por ejemplo, que me había hecho cirugías em la cara, criticaban mi gusto por las carteras y por los tacos, entre tantas otras cosas. Pero lo certo es que nunca tuve nada que ocultar (…). Los artículos sobre cuestiones estéticas, de ropa y todas las otras cosas más misóginas que se puedan imaginar estuvieron a partir de allí a la orden del día. Se trataba, sin dudas, de una construccíon específica que querían crear en torno de mi imagem.


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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Rafael Molina Vita

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