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Celso Amorim descarta que presença da CIA vise golpe como o de 1964: “a CIA quando aparece não age”

Para ex-chanceler, ao que parece, William Burns, diretor da agência de inteligência dos EUA, veio “tomar o pulso” dos governos do Brasil e da Colômbia

Dri Delorenzo
Revista Fórum
São Paulo (SP)

Tradução:

A visita de William J. Burns, diretor da CIA, a agência de inteligência dos Estados Unidos, ao Brasil causou estranheza. Fora da agenda oficial do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), Burns foi recebido no Palácio do Planalto e teve encontros com membros do governo. 

O “número um” da agência participou de uma audiência com o ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Augusto Heleno, o diretor-geral da Agência Brasileira de Inteligência, Alexandre Ramagem, o ministro da Defesa, Walter Braga Netto. Também jantou com Heleno e com o ministro da Casa Civil, Luiz Eduardo Ramos.

Para Celso Amorim, ex-chanceler, ex-ministro das Relações Exteriores e da Defesa, a visita “realmente chama a atenção”. “O chefe da CIA não viaja quase, só em situações muito especiais. Ele é o que se chama ‘Estado Profundo’, fica parado recebendo as informações. Diretor da CIA costumava ficar na retaguarda, não é alguém que apareça. Isso tudo aumenta a estranheza.” Mas então o que Burns veio fazer no Brasil?

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Amorim descarta a hipótese de que o chefe da CIA teria vindo aqui para ajudar a articular um eventual golpe de Bolsonaro. “Diferentemente do que aconteceu em 1964, Bolsonaro está no governo, está no poder. O golpe do Bolsonaro só poderia ser uma coisa parecida com o que Trump procurou fazer nos Estados Unidos.” Após ser derrotado nas urnas, o ex-presidente Donald Trump incentivou seus apoiadores a invadirem o Capitólio, sede do Legislativo federal dos EUA, para contestar a vitória do democrata Joe Biden, em 6 de janeiro deste ano.

Para ex-chanceler, ao que parece, William Burns, diretor da agência de inteligência dos EUA, veio “tomar o pulso” dos governos do Brasil e da Colômbia

Reprodução
Burns com Bolsonaro, Ramagem e Heleno

“É muito estranho um cara que acabou de ser nomeado pelo Biden, tenha vindo aqui para fazer uma coisa dessas, uma manobra trumpista”, observa Amorim. Ele lembra que Burns “não é nenhum novato, nem nenhuma pessoa que fez carreira só na área de inteligência, tem muita experiência”. Burns foi embaixador em Moscou (2008-2011), foi secretário adjunto de Estado dos EUA (2011-2014) e subsecretário de Estado (2008-2011), entre outros cargos. 

“Não podemos excluir nenhuma hipótese, mas a menos provável é que ele tenha vindo aqui para tramar um golpe tipo 64. A CIA quando aparece não age, quando age não aparece, aparece depois. Fazem ações, mas não anunciam.”

“Tomar o pulso”

Para Celso Amorim, a razão principal da visita estranha teria o objetivo de “tomar o pulso, ver o que está se passando com esses dois países”. Antes de vir ao Brasil, Burns esteve na Colômbia. O que pode ser um quadro geral da explicação, é a obsessão dos EUA hoje com a rivalidade com a China, com a Rússia até certo ponto, mas principalmente com a China. Somado a isso um momento de convulsão na América Latina e na América do Sul. Tivemos mudanças na região. Nessa batalha pela hegemonia com relação à China, eles têm dois grandes aliados na região: Brasil e Colômbia.”

O Brasil vive um momento em que crescem os protestos contra o presidente Jair Bolsonaro. A Colômbia viveu uma onda de protestos com diversas violações aos direitos humanos e violência policial que deixaram mais de 60 mortos.  

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Amorim lista ainda a retomada do poder da esquerda na Bolívia e a vitória de Pedro Castillo no Peru. “É até possível que tenham conversado sobre isso também”, comenta. Em resposta a apoiadores, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que teria falado sobre a retomada da esquerda na região: “Não vou dizer que isso foi tratado com ele, mas a gente analisa na América do Sul como estão as coisas. A Venezuela a gente não aguenta falar mais, mas olha a Argentina. Para onde está indo o Chile? O que aconteceu na Bolívia? Voltou a turma do Evo Morales. E mais ainda: a presidente que estava lá no mandato tampão está presa, acusada de atos antidemocráticos. Estão sentindo alguma semelhança com o Brasil?”

Contradição com governo Biden

Amorim também destaca que os governos do Brasil e da Colômbia são preocupantes para os EUA. “É um problema delicado porque do ponto de vista ideológico são países que estão mais afastados das posições internas que os EUA têm tomado, após a vitória do Biden, com uma política mais social, de direitos humanos. Essa é a contradição, são os dois únicos países da região dos pouquíssimos do mundo que se abstiveram da resolução que condena Cuba. O que fazer? Por um lado tem um país que está apoiando em coisas que eles consideram importantes, por outro são países que estão com um certa convulsão, e que têm regimes que se afastam do discurso interno do Biden.”

Amorim não descarta que possa ter entrado na pauta um acordo de inteligência e também o 5G, mas descarta que estejam tramando algo contra a Venezuela, como suspeita Maduro.

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Medo do Lula

Questionado sobre se os Estados Unidos poderiam estar com medo de uma derrota de Bolsonaro e a volta do ex-presidente Lula, que aparece na liderança das pesquisas, Amorim acredita que podem estar preocupados. “Sempre faço uma distinção entre o governo norte-americano e o Estado Profundo. A CIA é o Estado Profundo, o Brasil forte e autônomo pra eles sempre será um problema, inclusive, foi o Lula que criou os BRICS. Mas também Bolsonaro pode criar problema na maneira que as coisas estão caminhando. Para eles, um acordo ambiental seria muito importante, e é muito difícil fazer com o governo Bolsonaro. Pode ser que ele tenha vindo dar algum recado, só ter uma relação normal, à luz do que o Bolsonaro já fez ao ter apoiado Trump, dito que havia fraude nas eleições. Podem ter vindo pessoalmente olhar se isso é possível.”

O deputado federal Glauber Braga (PSOL-RJ) apresentou neste sábado (3) dois requerimentos à Comissão de Relações Exteriores da Câmara pedindo a convocação dos ministros Augusto Heleno, do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), e Luiz Eduardo Ramos, da Casa Civil. Braga informou à Fórum que a Casa Civil e o GSI devem fornecer informações sobre o que foi tratado no encontro com o diretor da CIA.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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