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Chega de ser subdesenvolvido: em entrevista a TV chinesa, Lula diz que, se eleito presidente, vai reativar o bloco dos BRICS

"O Brasil tem que brigar para ser desenvolvido. E não depende dos americanos; depende de nós. Então se for necessário fazer parceria com a China, temos que fazer parceria estratégica com ela", afirmou
Helena Iono
Diálogos do Sul
Buenos Aires

Tradução:

O enlace realizado pela TVT com o jornal Guancha, de Xangai, através da brilhante entrevista de Lula, no dia 7 de julho,  abre o debate sobre o papel econômico, social, político e militar primordial da China no contexto mundial e nacional, como uma das principais forças antagônicas ao poder hegemônico financeiro, intervencionista e anti-popular dos EUA no Brasil e na América Latina.

As relações Brasil-China a serem resgatadas pelo futuro governo com Lula

Durante o governo Lula as transações comerciais entre o Brasil e a China aumentaram 16 vezes, passando de US$ 6 bilhões (2003) a US$ 76 bilhões no final da primeira década do século 21. Lula diz:

“A China era um país extremamente importante na relação com o Brasil”. “E eu acho que isso incomodou os americanos”. “Incomodou, porque eles não aceitam, em hipótese alguma, que na América Latina tenha algum país com protagonismo. Eles acham que os países da América Latina têm que ficar subordinados à orientação do Departamento de Estado norte-americano.”

“Ao mesmo tempo, a China estava tendo muitos investimentos na América do Sul e na América Latina. A China estava numa parceria muito grande com o Brasil, com a Argentina, a Venezuela, o Equador, e isso incomodava os americanos, como incomoda a entrada do Brasil no continente africano, a entrada da China no continente africano.” “Os Estados Unidos, na verdade, têm medo de perder a primazia de xerifes do mundo. Não querem competidor, nem na área econômica, na área tecnológica, nem na área militar. E o dado concreto é que o Brasil estava crescendo e se tornando protagonista internacional”.

“A China tem crescido e hoje é um dos países que tem um dos PIBs mais altos do mundo, a economia ultrapassou a economia americana e agora eles estão preocupados com a evolução chinesa na questão de armamentos e da conquista espacial. Os americanos estão inquietos porque estão acostumados desde a Segunda Guerra Mundial a serem os donos do mundo. Essa é a explicação que eu tenho sobre o golpe com a presidenta Dilma Rousseff, com a minha prisão e todas as mentiras contadas contra o PT”.

"O Brasil tem que brigar para ser desenvolvido. E não depende dos americanos; depende de nós. Então se for necessário fazer parceria com a China, temos que fazer parceria estratégica com ela", afirmou

EBC
Bandeiras dos BRICs

Lula garantiu que um futuro governo de forças democráticas recuperará as relações com o BRICS

“Eu posso te dizer que se nós voltarmos a construir a democracia no Brasil e voltarmos a eleger um presidente democrático no Brasil comprometido com os interesses soberanos do Brasil, com o povo Brasileiro, você pode ficar tranquilo que vamos a voltar a discutir o BRICS com a força que ele merece.” “Eu tive a participação na criação do BRICS, a nossa presidenta Dilma também, mas depois o Brasil esqueceu o BRICS o que foi um crime contra o Brasil. Porque nós elegemos pessoas que estavam preocupadas com os americanos e não com os brasileiros.”

“Não podemos passar mais 500 anos com a África sendo a parte pobre do mundo. O Brasil não pode passar mais 500 anos sendo o país eternamente em vias de desenvolvimento. O Brasil tem que brigar para ser desenvolvido. E não depende dos americanos; depende de nós. Então se for necessário fazer parceria com a China, temos que fazer parceria estratégica com ela, como eu fiz quando era presidente. Se for necessário fazer com a Rússia, vamos fazer com a Rússia; e os EUA não podem ter ingerência nas relações da China, no desenvolvimento da China. Que história é essa? Que um país pode mais que os outros? Que um país disse o que o outro pode ter ou não pode ter? Eu sinceramente acho que nós vamos reverter o que está acontecendo hoje no mundo. Eu tenho certeza que vamos contar com o governo da China, da Rússia, da África do Sul,  mesmo da Índia sendo um governo mais conservador, acho que temos que mostrar perspectivas para a Índia deixar de ser pobre como é, crescendo e se desenvolvendo internamente, porque tem um povo muito inteligente e muito capaz.”

“Eu sonhava muito com o BRICS. Eu pensava muito grande na minha relação com a China, com a Índia, com a África do Sul, e com a Rússia. Eu achava que devíamos ter construído uma parceria estratégica para que ao ser a metade da humanidade não ficássemos dependendo da política do dólar; que não dependêssemos do dólar para realizarmos nosso comércio exterior; nossa parceria no desenvolvimento tecnológico. Estávamos realizando parcerias com a China para construirmos nossos foguetes para vigiarmos nossos países e o nosso planeta.”

“É inacreditável a perseguição dos EUA às empresas chinesas quando, na verdade, as empresas norte-americanas querem entrar em qualquer lugar. A operação Lava Jato aqui no Brasil, que me acusou e me prendeu, era uma acusação baseada nos interesses dos empresários americanos que queriam destruir tudo que nós havíamos construído na área de petróleo e gás, na indústria naval e na indústria de engenharia. O objetivo era destruir tudo e estão quase conseguindo destruir”

“Nós não podemos permitir que isso continue acontecendo. Nós não podemos permitir que os EUA tenham ingerência em qualquer país da América Latina ou da África. Da mesma forma que nós não podemos aceitar que os EUA tenham ingerência na deliberação do Brasil na sua política com a China. A China é um país soberano e o Brasil é um país soberano. Temos que ter relações que nós entendemos que são boas  para o povo da China e o povo brasileiro. É isso que precisamos reconquistar outra vez. Eu estou muito otimista. O BRICS foi uma das coisas mais extraordinárias que nós conquistamos e lamentavelmente o golpe no Brasil, a mudança no governo da Índia, diminuiu um pouco o ímpeto”.

O papel do Estado e do Partido

“Muitas das políticas sociais que o povo precisa só podem ser feitas se o Estado for forte, se tiver comando. E lamentavelmente nos países da América Latina e do Terceiro Mundo, o Estado está cada vez mais fraco. Estão privatizando cada vez mais as empresas públicas e tudo aquilo que deveria ser do papel do Estado”…  “Por exemplo, a China, só conseguiu combater o coronavírus com rapidez porque tem um partido forte, um Estado forte, tem pulso, voz de comando. E não temos isso aqui no Brasil.”

Veja a entrevista na íntegra:

Centenário partido chinês

Estas colocações de Lula, surgem dias depois das comemorações do 100.º. aniversário do Partido Comunista Chinês. Magníficos eventos coreográficos, culturais, militares e discursos de Xi Jinping, iniciados no dia 1 de julho, na Praça de Tiananmen em Pequim, demonstraram que este Partido Comunista, com cerca de 98 milhões de militantes, é a força política central.

O PC Chinês sustentou a revolução de Mao Tsé Tung em 1949, permitindo consolidar um Estado socialista para 1,4 bilhões de chineses, absorvendo experiências iniciadas em 1917 na vizinha ex-URSS, que mantêm, até hoje, alicerces sólidos na Rússia de Putin, através de uma economia estatizada, com respaldo militar no velho Exército Vermelho soviético. 

Veja a Comemoração dos 100 anos do PCC:

Evento histórico  em que o PCC reitera:

“continuar adaptando o marxismo ao contexto chinês e às necessidades de nossos tempos, e guiar o povo chinês no avanço de nossa grande revolução social. No nível fundamental, a capacidade do nosso Partido e as forças do socialismo com características chinesas são atribuíveis ao fato de que o marxismo funciona”.

Diante da marcha militar em Tiananmen, nos mesmos moldes do desfile em Moscou do 75 aniversário da vitória contra o Nazismo, a China reiterou a função patriótica e social do exército. “Devemos acelerar a modernização da defesa nacional e das Forças Armadas. Um país forte deve ter um exército forte, pois só assim pode garantir a segurança da nação.”… 

“…Nós, chineses, somos um povo que defende a justiça e não se deixa intimidar por ameaças de força. Como nação, temos um forte senso de orgulho e confiança. Nunca intimidamos, oprimimos ou subjugamos o povo de qualquer outro país e nunca o faremos. Da mesma forma, nunca permitiremos que nenhuma força estrangeira nos intimide, oprima ou subjugue. Qualquer um que tentar fazer isso se verá em rota de colisão com uma grande muralha de aço forjada por mais de 1,4 bilhão de chineses.”

União China-Rússia

Assume uma importância a aproximação entre a China e a Rússia, neste contexto de preparativos de intervenções da OTAN, e de “golpes suaves” nas mãos dos EUA, de ameaças de lawfare agora em Cuba e na Nicarágua, como já foi na Argentina, Equador, Bolívia, Paraguai e Brasil.

As recentes mobilizações minoritárias de provocadores para desestabilizar Cuba, um dos melhores exemplos da América Latina de organização pública-sanitária com criação própria da vacina anti-Covid19 (Soberana II e Abdala) e superação da pandemia, encontram a resposta firme do seu presidente Miguel Díaz Canel pela televisão:

“De maneira sutil, esses que nunca se opuseram ao bloqueio (embargo econômico decretado pelos EUA em 1962) estão agora incentivando campanhas que buscam legitimar a ideia de que o governo cubano não pode controlar o coronavírus”. “Convocamos todos os revolucionários a sair às ruas para defender a revolução em todos os lugares”.

Enquanto isso, Putin e seu ministro das relações exteriores, Sergey Lavrov, mesmo depois dos encontros com Biden, mantêm a posição firme frente a qualquer ameaça contra a paz na Crimeia, na Venezuela e estabelece uma união China-Rússia solidária, econômica e militar, com esses países, inclusive a Nicarágua frente a qualquer ameaça intervencionista. 

Reforça-se também  hoje o acordo de mútua defesa entre a China e a Coreia do Norte de 11 de julho de 1961. Pequim é o maior sócio comercial que alivia as sanções internacionais contra a Coreia.

Putin acabou de denunciar a presença de um navio de ataque britânico (Destruidor britânico HMS Defender), que entrou no dia 23 de junho nas águas territoriais da Rússia, perto da Crimeia, como uma provocação das forças britânicas e dos EUA, precedida de um avião de reconhecimento por elas enviado. A decisão russa de não deixar passar nenhuma agressão já se manifestou em Moscou na última comemoração do dia da vitória contra o nazismo. 

Enfim, além da maior crise econômica dos EUA, que teve que mudar de cara de Trump a Biden, está o seu colapso social e global. As relações de forças favorecem a decisão de recuperar os processos democráticos, nacionalistas-revolucionários para a reintegração da América Latina, através da UNASUL, CELAC e do BRICs. Os povos irmãos da Argentina e de toda a América Latina contam com o retorno de Lula em 2022.

A expectativa é internacional e Lula se dirige ao mundo. Veja sua entrevista na Telesul. E o notável é que pronunciamentos do nível de estadista que deu ao Jornal Guancha, através da TVT dos trabalhadores, vêm acompanhados de uma enorme disposição de luta dos povos no Chile, Colômbia, Peru e agora no Brasil.

Em sintonia fina, Lula apoia e abraça a força popular das ruas: 

“Continuem protestando porque o grito de vocês é que pode ajudar a libertar este país”

Helena Iono, Colaboradora de diálogos do Sul desde Buenos Aires,


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

Assista na Tv Diálogos do Sul

 

   

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Helena Iono Jornalista e produtora de TV, correspondente em Buenos Aires

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