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Chilenos celebram o 50º aniversário do triunfo eleitoral do presidente Salvador Allende

A imagem do "presidente mártir" se levanta nas ruas do Chile, contrastando com a debacle brutal de toda a dirigência política, principalmente a da esquerda
Aldo Anfossi
La Jornada
Santiago

Tradução:

O povo allendista comemorou nesta sexta-feira, 4 de setembro, o 50º aniversário do triunfo eleitoral em 1970 do presidente mártir Salvador Allende Gossens, com sua figura histórica projetada no Chile atual como luz de consequência e de honestidade política que inspiram boa parte dos protagonistas do levantamento social engatilhado em outubro de 2019 e pendente de resolução. 

Naquela noite, falando dos balcões da Federação de Estudantes do Chile (FECH), suas palavras foram premonitórias dos apaixonados, alegres, endemoniados e dramáticos seguintes mil dias, até a derrocada de seu governo.

“A vitória alcançada por vocês têm um profundo significado nacional. Daqui declaro, solenemente que respeitarei os direitos de todos os chilenos. Mas também declaro e quero que o saibam definitivamente, que ao chegar à La Moneda (sede do governo), sendo o povo governo, cumpriremos o compromisso que contraímos, de converter em realidade o programa da Unidade Popular. Eu disse: não temos nem poderíamos ter nenhum propósito pequeno de vingança, seria diminuir a vitória alcançada. Mas, se não temos um pequeno propósito de vingança, de maneira alguma, vamos claudicar, comerciar o programa da Unidade Popular, que foi a bandeira do primeiro governo autenticamente democrático, popular, nacional, e revolucionário da história do Chile. Disse e devo repeti-lo: se a vitória não era fácil, difícil será consolidar nosso triunfo e construir a nova sociedade, a nova convivência social, a nova moral e a nova pátria”, afirmou o presidente eleito.

Depois, pediu ao povo que se retirasse tranquilamente às suas casas e que “quando acariciem seus filhos, quando busquem o descanso, pensem no amanhã duro que teremos pela frente, quando tenhamos que colocar mais paixão, mais carinho, para fazer o Chile cada vez maior, e cada vez mais justa a vida em nossa pátria”.

A imagem do "presidente mártir" se levanta nas ruas do Chile, contrastando com a debacle brutal de toda a dirigência política, principalmente a da esquerda

Lavra Palavra
A imagem de Allende se levanta nas ruas e paredes do Chile

Allende hoje

50 anos depois, e em uma mobilização social como a engatilhada em 18 de outubro de 2019, cuja principal circunstância é a ausência absoluta de lideranças, a imagem de Allende se levanta nas ruas e paredes do Chile, contrastando com a debacle e o afundamento brutal de toda a dirigência política, principalmente a da esquerda.

“A comemoração dos 50 anos do triunfo surpreendeu pela grande quantidade de foros e atividades de toda natureza. Durante semanas e meses o número de atos recordatórios tem sido impressionante. Por momentos fez esquecer a pandemia. Tenho a impressão que com o passar dos anos a UP e Allende têm ido crescendo”, diz Ernesto Águila, diretor de Extensão da Faculdade de Filosofia e Humanidades da Universidade do Chile.

Por que Allende é uma inspiração para os jovens do 18 de outubro?

“Não se desconhecem os erros, mas creio que se valoriza sua autenticidade, o genuíno esforço de transformação social em favor do mundo trabalhador e popular. Creio que os jovens de hoje, tão desconfiados e céticos com a política e os políticos, se identificam com Allende e a UP porque vêm esse traço de autenticidade, de uma certa entrega generosa desprovida de cálculo. Veem um contraste nas formas de fazer política com o presente”. 

Como Allende está presente no povo que se expressa em 18 de outubro?

Tem sido um fato muito comentado o vínculo entre o período da Unidade Popular e os protestos do 18 de outubro. Duas das três canções que mais identificaram o movimento provêm do período da UP: “El derecho de Vivir en Paz”, de Víctor Jara, e “El Pueblo Unido”, do grupo Quilapayún.

Essa memória trans geracional chama a atenção. Também foram comentados alguns contrastes, especialmente as relações entre o mundo social e o mundo político. Destaca-se do período da UP essa conexão entre movimento social e política em contraste com a profunda fratura que hoje se produziu.

O movimento do 18 de outubro no Chile continua sem uma representação política que o identifique. A esquerda chilena debateu por muitos anos sobre a derrota e suas causas e agora teve a oportunidade de falar de seu triunfo e do que se alcançou a realizar nesses mil dias. Esse tem sido um deslocamento no eixo do debate: da derrota à vitória. 

Há alguma relação entre o programa da UP elaborado para 1970 com o Chile que se manifesta hoje?

São cenários muito diferentes. A UP e Allende se transformam em uma memória inspiradora, mas não em uma experiência que poderia projetar-se ao presente.

Há nexos, isso sim, no plano de valores: o 18 de outubro teve no seu centro o calor da dignidade e a UP pode ser pensada com um grande processo de dignificação do mundo popular e trabalhador. 

Aldo Anfossi especial para La Jornada desde Santiago do Chile

La Jornada, especial para Diálogos do Sul — Direitos reservados.

Tradução: Beatriz Cannabrava


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Aldo Anfossi

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