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Cidade de Cádiz, na Espanha, se transforma na capital mundial da Língua Espanhola; entenda

Localidade acolheu o 9º Congresso Internacional da Língua Espanhola (CILE), que ocorre a cada três anos
Armando G. Tejeda
La Jornada
Madri

Tradução:

O espanhol é a terceira língua mais falada do mundo, só superada pelo inglês e chinês, se bem que sua expansão é intensa em muitos países e regiões, como Estados Unidos e Europa, com uma comunidade que já supera 550 milhões de pessoas.

A cidade de Cádiz, na Espanha, acolheu, de 27 a 30 de março, a 9ª edição do Congresso Internacional da Língua Espanhola (CILE), que originalmente ia ser celebrada em Arequipa, Peru. Mas, finalmente se decidiu trocar a sede pela situação política no país andino posterior à destituição e encarceramento do presidente Pedro Castillo.

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Entre os temas debatidos neste encontro trianual e que nesta ocasião reuniu mais de 300 acadêmicos, especialistas, escritores e jornalistas, se destacam a mestiçagem linguística e a relação entre as línguas originárias da América e o espanhol, mas também se falou dos desafios futuros com a mirada posta na Inteligência Artificial (AI), no Metaverso e nas novas tecnologias.

O CILE é um dos encontros mais importante para a comunidade de acadêmicos que formam parte da Associação de Academias da Língua Espanhola (ASALE), que são finalmente os que vão acordando as regras, as mudanças nas normas, os novos vocábulos que se vão incorporando ao corpo idiomático através do uso cotidiano do idioma.

Dívida espanhola com indígenas americanos está longe de ser paga

Estes encontros, que sucedem a cada três anos, tiveram importantes controvérsias ao longo de sua história, como a proposta que fez em seu dia o prêmio Nobel Gabriel García Márquez com seu discurso “Garrafa de mar para o Deus das palavras”, de “simplificar a gramática antes que a gramática termine por simplificar-nos” e advogou por “aposentar a ortografia, terror do ser humano desde o berço”. 

Nesse histórico pronunciamento, Gabo advertiu: Humanizemos suas leis, aprendamos das línguas indígenas, às que tanto devemos o muito que têm ainda para ensinar-nos e enriquecer-nos, assimilemos logo e bem os neologismos técnicos e científicos antes de que nos infiltrem sem digerir, negociemos de bom coração com os gerúndios bárbaros, os quais endêmicos, do dequeísmo parasitário e devolvamos o subjuntivo presente no esplendor de suas esdruxulas: “váyamos en vez de vayamos, cántemos en vez de cantemos, o el armonioso muéramos en vez del siniestro muramos”.

Algumas dessas questões são hoje uma das prioridades dos acadêmicos, como a linguagem científica e técnica, ou a relação do espanhol com as línguas originárias. 

Localidade acolheu o 9º Congresso Internacional da Língua Espanhola (CILE), que ocorre a cada três anos

Wikipédia
O lema do congresso foi “Língua espanhola, mestiçagem e interculturalidade. História e futuro” (Cidade de Cádiz)




Troca de sede

Os preâmbulos desta nona edição do CILE foram acidentados, sobretudo porque a decisão de trocar de sede se adotou in extremis, no final de dezembro passado, e quando o Peru estava imerso em uma grave crise política e social. A troca também fez com que a confecção dos programas acadêmicos e culturais foram fechados quase na última hora, só umas semanas antes de sua celebração.

A intenção era manter intacto o que já estava previsto para Arequipa, mas com algumas modificações que tivessem relação com a nova sede do encontro, Cádiz, uma cidade profundamente vinculada à história da América Latina, não só pela Constituição de 1812, mas sim porque foi durante séculos uma das portas de entrada e saída para o comércio entre ambos os continentes. 

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O lema do congresso foi “Língua espanhola, mestiçagem e interculturalidade. História e futuro”, no qual se pretendeu analisar e debater sobre uma amplíssima rede de assuntos que afetam de forma direta o uso da língua e a comunidade que a fala.

Por exemplo, o espanhol e as línguas originárias na Mesoamérica e no Caribe; o espaço andino, as línguas originárias e o espanhol; as línguas originárias da América do Sul e o espanhol; a afro descendência em relação com a língua e a cultura hispânica; contatos fronteiriços entre o espanhol e o português; convivência e hibridações do espanhol com o inglês; as relações entre as línguas ibéricas e indigenismos no dicionário geral.


Maioria de acadêmicos

Os organizadores do encontro foram nesta ocasião a Real Academia Espanhola (RAE), o Instituto Cervantes, o ministério de Assuntos Exteriores e o ajuntamento de Cádiz. E os convidados são em sua maioria acadêmicos, mais de 100, e procedentes de todos os países de língua espanhola, além de numerosos e destacados escritores e pesquisadores, como Juan Villoro, Eduardo Matos Moctezuma, Sergio Ramírez, Alonso Cueto, Gioconda Belli, Enrique Vila Matas, Martín Caparros, Hugo Mújica, Héctor Abad Faciolince, Santiago Roncagliolo, Carlos Franz, Horacio Castellanos Moya, Juan Carlos Chirino, María Dueñas e Soledad Puértolas, entre outros.   

Ao longo da história do CILE, tentou-se que a cada três anos as sedes rodem os países e assim foi desde a primeira edição em Zacatecas, em 1997, depois foi em Valladolid, España (2001); Rosario, Argentina (2004); Cartagena de Índias, Colômbia (2007); Valparaíso, Chile (2010); Panamá (2013); Porto Rico (2016), e Córdoba, Argentina (2019).

A inauguração do encontro foi presidida pelos reis da Espanha, Felipe VI e Letizia, além do ministro de Assuntos Exteriores do governo espanhol, José Manuel Albares. No ato de abertura, que foi celebrado no Grande Teatro Falla, também falaram o Prêmio Cervantes 2017, o nicaraguense Sergio Ramírez, o diretor da RAE, Santiago Muñoz Machado, o diretor do Instituto Cervantes, o poeta granadino Luis García Montero, e a acadêmica espanhola Soledad Puértolas. Ao encontro não compareceram o único Nobel vivo que escreve em espanhol, Mario Vargas Llosa. 

Além do lugar da língua espanhola em um mundo globalizado, o congresso também colocou foco em assuntos da atualidade, como os desafios da inteligência artificial e a importância da língua no desenvolvimento científico.

Durante o CILE, também foram feitos os lançamentos de dois livros importantes da Academia, “A Crônica da Língua” e o “Dicionário Pan-hispânico de Dúvidas”, este último que esteve recentemente em meio da polêmica pelo assunto do acento no advérbio “sólo” (só ou sozinho).

Armando G. Tejeda | Enviado especial do La Jornada a Cádiz.
Tradução: Beatriz Cannabrava


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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Armando G. Tejeda Mestre em Jornalismo pela Jornalismo na Universidade Autónoma de Madrid, foi colaborador do jornal El País, na seção Economia e Sociedade. Atualmente é correspondente do La Jornada na Espanha e membro do conselho editorial da revista Babab.

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