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Cinema Boliviano | Pelas mágicas águas de "O Rio", um filme de Juan Pablo Richter

Se o que se pretendia era fazer do rio Mamoré um personagem do filme, esse propósito fica frustrado
Alfonso Gumucio

Tradução:

O rio nunca é igual embora se olhe para ele do mesmo lugar. As águas passam e nunca retornam, embora possamos imaginar também o contrário: o rio não se move e o que se move é a terra que gira, é o nosso tempo de vida  que muda. Não passam as águas, passamos nós, os que olhamos. Não envelhece o rio, mas sim o olhar.

O fascínio que exerce um rio tão respeitável como o Mamoré, cujas águas se vertem sobre o Madeira e depois no caudaloso Amazonas, e que constitui a fronteira natural do norte da Bolívia com um extenso território do Brasil, inspirou o cenário natural de “O rio”, longa-metragem de Juan Pablo Richter. Com esse fundo de água e de tempo que transcorre implacavelmente, Richter arma una história de paixões com assomos de crítica social à depredação da natureza e à violência de gênero (machismo).

Sou daqueles que se aproximam de uma nova produção do cinema boliviano com a esperança de ser surpreendido positivamente. Em outras palavras, tenho uma predisposição generosa porque reconheço o esforço criativo e as limitações econômicas para fazer cinema na Bolívia. Outros dirão: “isso não importa, o que importa é o resultado” … E é certo em boa parte, desde que a técnica e o financiamento já não constituem os principais obstáculos, mas sim a maneira de contar uma história, ou seja, a capacidade narrativa do cineasta. 

Se o que se pretendia era fazer do rio Mamoré um personagem do filme, esse propósito fica frustrado

You Tube / Trailer oficial do filme
“O rio” é mais um longa-metragem do cineasta boliviano Juan Pablo Richter

Relação entre os bolivianos e a produção nacional

No entanto, em um país onde os espectadores costumam ser dez vezes mais exigentes com uma produção nacional do que com um filme importado, o desafio de encher as salas com público é maior. Em anos recentes os cineastas das novas gerações optaram por estrear primeiro seus filmes em festivais internacionais (há mais de 300 festivais por ano), de maneira que regressem a Bolívia precedidos por ouropéis que poderiam despertar a curiosidade do público. Mas nem assim, colocando nos cartazes as láureas dos prêmios obtidos, o público boliviano se deixa convencer.

É um público que tem outros valores, diferentes daqueles do espectador que enchia as salas para ver “Chuquiago” há 40 anos. Havia mais interesse pela produção nacional quando as fronteiras culturais eram menos difusas. Hoje os favores dos espectadores se encaminham pelo que dita a publicidade que precede um filme produzido em Hollywood: o resto do cine mundial não existe. O baixo nível de exigência do espectador boliviano faz com que seja benigno com qualquer filme produzido nos Estados Unidos. No dia da estreia de “Avengers” ou “Velozes e furiosos” as filas podem ser de várias quadras, embora ninguém saiba de verdade se são bons filmes. Essa predisposição ao cinema de ação adormeceu o sentido crítico de toda uma geração.

Mas voltemos ao rio antes que passe demasiada água. Como espectador e como crítico considero que tenho o dever de ver a produção do cinema boliviano e no direito de emitir julgamentos críticos, embora tenha sérias dúvidas de que o que escrevemos sirva para algo mais que para refletir desde o canto de alguma página de diários que cada vez são menos lidos.

Os filmes nacionais não ficam muito em cartaz, salvo na Cinemateca Boliviana onde existe uma política comprometida para favorecer nosso cinema. Nas salas comerciais, que impõem os gostos da programação, quando já não há espectadores chega como guilhotina a quarta-feira fatídica em que termina o prazo de exibição. Os realizadores (que costumam ser por sua vez produtores de seus filmes) se sentem satisfeitos se chegam a 25 ou 30 mil espectadores (“Chuquiago” de Antonio Eguino, teve meio milhão na Bolívia).

“O Rio”

Eu vi “O rio” um dia antes de sair de cartaz. Havia seis pessoas no cinema, espectadores de média ou nenhuma cultura cinematográfica, desses que riem em momentos dramáticos e fazem comentários tolos quando não entendem o que está acontecendo. Mesmo com esse molesto ruído de fundo, fiz o possível para extrair o melhor do filme.

A história tarda em se pronunciar, transcorre mais lentamente que o caudal do Mamoré: Sebastián, um jovem de 16 anos, de La Paz, viaja para se encontrar com o pai que o abandonou quando era criança. Seu pai (interpretado por Fernando Arze) é um pecuarista e madeireiro que tem sua fazenda no Beni e vive com uma mulher muito mais jovem que ele (Julieta, interpretada por Valentina Villalpando). Mais da metade do filme fica nisso, não avança.

O verdadeiro tema do filme são as relações entre os personagens

Entendemos que Sebastián e sua mãe terminaram muito mal sua relação, embora nunca saibamos as razões. E vemos no filme que a relação entre Sebastián e seu pai tampouco vai ser melhor. O taciturno filho não deixa transparecer nem seus sentimentos nem seus pensamentos: é um personagem hermético que só se abre um pouquinho com as mulheres pelas quais sente atração física.

A sexualidade que se expressa no filme parece uma parábola da depredação da natureza. As cenas sexuais explícitas não expressam desejo e prazer, mas tédio e violência, essa mesma violência que se exerce contra a natureza quando o bosque milenar é violado por motosserras. Em entrevistas, o diretor tratou de pôr a carta da “mensagem” sobre a crítica ao desmatamento e a crítica ao machismo, mas as alusões não fazem suficiente ênfase nessa temática. Minha opinião é que o verdadeiro tema do filme são as relações entre os personagens, no entanto essa perspectiva é a que não consegue ser bem desenvolvida.

Se o que se pretendia era fazer do rio Mamoré um personagem do filme, esse propósito fica frustrado. Há sequências muito belas da natureza, mas não basta que os diálogos descrevam o rio e suas lendas. Como espectador eu gostaria sentir nas imagens a força do rio, sua turbulência, sua majestade, seu enigma: um rio “subjetivo” que seja inseparável da história. No entanto, inclusive na cena mais dramática, quando pai cai na água, se perde uma oportunidade de traduzir em imagens aquilo que em palavras se havia dito antes sobre esse leito caudaloso onde os homens desaparecem para sempre. 

Se o rio, como personagem, carece de “espessura”, também os outros personagens sofrem da mesma fraqueza com exceção de Valentina Villalpando, extraordinária atriz capaz de transmitir seus sentimentos com um olhar ou um mínimo movimento da boca.

Umas palavras sobre o estilo narrativo: desde o plano inicial se nota o uso e abuso de enquadres posteriores, dos personagens de costas, às vezes bem feitos quando se joga com o enfoque e a profundidade de campo, mas outras vezes malogrados quando só a paisagem aparece com nitidez e os personagens ficam desfocados. O uso de teleobjetiva inclusive em cenas interiores, com o propósito de desfocar o primeiro plano ou o último plano do enquadramento, provavelmente se verá melhor na tela de televisão do que em uma de sala de cinema.

De Juan Pablo Richter eu havia visto antes “Casting” que realizou junto com Denisse Arancibia, promovido como o primeiro longa-metragem de terror realizado na Bolívia. Uma boa parte da crítica não gostou do filme, mas para mim pareceu um ensaio interessante, coerente e verossímil com o gênero, mas além disso inovador em sua forma narrativa que superpõe várias texturas. Entre “O Rio” e “Casting”, este último me parece mais convincente. _______________________________________________ 

“No rio passam afogados todos os espelhos do passado”.
Ramón Gómez de la Serna

Assista ao trailer do filme:

*Colaborador de Diálogos do Sul, de La Paz, Bolívia

¨¨** Revisão e edição: João Baptista Pimentel Neto


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Alfonso Gumucio Boliviano. Cineasta e documentarista. Especialista em comunicação para o desenvolvimento com experiência mundial em comunicação participativa, mobilização social e desenho da estratégia. Foi Diretor de Comunicação da UNICEF na Nigéria e no Haiti

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