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Colômbia e ordem multipolar: ‘golpe brando’ contra Petro pode mirar Lula, Brics e China

Direita colombiana, amparada pelos EUA, se articula para dividir e paralisar o “Pacto Histórico”, evitando assim sua continuidade no futuro
Alberto Pinzón Sánchez
Resumen LatinoAmericano
Bogotá

Tradução:

Dentro do leque analítico trazido pela esquerda e ainda da teoria crítica, sobre a conjuntura atual que a Colômbia atravessa, explicitada pela “novela midiática” Sarabia-Benedetti, relacionada diretamente com o Poder executivo da Colômbia e seu presidente Petro, vão se delineando duas versões que, refletindo o movimento da realidade, se entrecruzam ou se entremesclam: uma, autocrítica, põe a ênfase em analisar os próprios erros cometidos pelo presidente Petro ao escolher seus colaboradores próximos. Além disso, separando o conceito de Governo do conceito de Estado, trata de introduzir na análise o papel da frente política diversa chamada Pacto Histórico que levou Petro à presidência, levando também em consideração o diversificado movimento social, camponês, étnico e popular.

Dentro deles desejo destacar entre os muitos a contribuição analítica classista de Fernando Dorado, assim como a importante reflexão da socióloga e jornalista Sara Tufano.

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A outra, de certa forma arraigada na tradição analítica de esquerda, concentra sua análise no conceito que fez carreira na América Latina e caribenha, de “Golpe Brando” – atrás do qual se encontra o pentágono estadunidense – e reconhece o apurado chefe do Estado Maior Conjunto dos EUA, o “generalíssimo” Mark Milley, que em seu discurso de 07 de junho/23, apesar de subestimar as outras potências que formam a troica Europa e Japão e outras potências aliadas, como Coreia do Sul, Canadá e Austrália, declarou: ”a situação geopolítica está mudando de maneira fundamental… e cada dia fica mais claro que realmente estamos em um entorno internacional multipolar com, pelo menos, três grandes potências: Estados Unidos, China e Rússia. E três é mais complicado que duas e certamente mais complicado que uma”… Isso leva a pensar que o conceito de “multilateral” vai ficando curto frente ao conceito de “multicêntrico”.

Direita colombiana, amparada pelos EUA, se articula para dividir e paralisar o “Pacto Histórico”, evitando assim sua continuidade no futuro

Reprodução
Se a Colômbia não é um país qualquer, então com que nos preocupamos Sancho?

Contexto colombiano

Neste segundo enfoque, vale destacar o muito importante contexto colombiano (coca, selva amazônica, conflito interno, etc.) proposto pelo bem conhecido jornalista uruguaio Aram Aharonian, fundador da Telesul (o norte é o sul), que ampliando o olhar para um cenário continental latinoamericano e caribenho, expõe uma série de preocupações que dada a alta probabilidade que ocorram no contexto global referido pelo generalíssimo Milley, vale a pena voltar a ler (cito integralmente):

 …As perguntas não faltam: isto aponta para uma guerra civil na Colômbia que se limitará a uma destituição tipo Pedro Castillo? Uma destituição, caso consigam, precipitaria uma crise grave que desembocaria em uma reativação da guerra. Talvez seja isso o que querem os Estados Unidos.

Para alguns analistas, atrás de todo o escândalo está a mão peluda da inteligência estadunidense, precisando assestar um golpe no progressismo que pelo menos ensombreça a posse de Lula no Brasil, promovendo o ingresso da América do Sul nos BRICS. Nas urgências dos Estados Unidos para frear a China em seu quintal vale tudo. Não surpreende: Benedetti pediu proteção ao Departamento de Estado estadunidense. 

A mídia de direita já constrói o que pretende que seja o maior escândalo político dos últimos 20 anos. Mas a tensão terá também um capítulo nas ruas. 

O momento deste escândalo, quando estão em jogo questões centrais para o programa de governo de Petro é tão oportuno, que é difícil pensar que tenha sido casual. Cabe perguntar-se também, o que fazia no governo de Petro um personagem como Benedetti, estruturalmente de direita e hábil para estar no centro do palco mas em seu próprio benefício. Pode-se governar pela esquerda com políticos de direita em postos chave?

Aos estadunidenses não resta outra coisa senão bater na mesa e “africanizar”: o mesmo que estão fazendo no “Continente Mãe” para brecar os chineses.

Não se trata de um conflito qualquer em um país qualquer. Tem que ser uma explosão de megatons, uma guerra civil na Colômbia, de maneira que todo o entorno se veja impactado: Equador (que está escapando deles), Peru, Venezuela e o próprio Brasil (um conflito sério na Colômbia “justificaria” a volta da doutrina de “Segurança Nacional” e do papel dirigente dos militares na política nacional)…. 

Não vale a pena continuar insistindo nos obscuros desígnios do obscuro Benedetti. Se um animal caminha como pato, tem penas de pato, nada como um pato e de seu bico chato amarelo sai um cuac, cuac, é porque simplesmente é um pato.

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Disto nos lembrava o ex-presidente Ernesto Samper, em meio ao que agora voltou a ser lembrado como processo 8.000, de meados dos anos 1990, e, guardando as distâncias, a imagem serve para ser aplicada ao Sr. Benedetti (ao “man” colombiano, não ao romancista uruguaio): Se um “man barranquilheiro” fala como paramilitar, faz orgias e tem cabelo de paramilitar, põe pó branco, se comporta como um valentão paramilitar,  tem amizades com chefes de clãs paramilitares, faz negócios com paramilitares, com o exército colombiano e com o exército dos EUA (ver por favor aqui um amplo informe dos negócios do sr. Benedetti), e, aliás, reconhece seus altos vínculos com a DEA americana, é muito provável que seja um paramilitar, com uma obscura missão paramilitar na Venezuela (colher informação?) para a qual “se fez nomear” pelo presidente Petro. Então, ante tantas casualidades e no complexo cenário das relações colombo-venezuelanas e o turbulento cenário continental mencionado acima, a gente tem o direito de se perguntar como chegou aí e para fazer o que?

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O magma profundo que alimenta a guerra na Colômbia continua intacto hoje, talvez mais próximo de uma erupção vulcânica. O importante e aliviador acordo obtido entre o Estado colombiano e o ELN em 9 de junho, celebrado por toda a opinião pública mundial séria, foi chamado de “chimbo” (palavra depreciativa de origem sexual que na gíria colombiana indica fraude, estafa etc) pelo arrogante e despótico chefete político da rançosa oligarquia transnacional colombiana Vargas Lleras.

A falsimídia adicta continua sua campanha antipetrista, por exemplo, já neutralizou a importância de gerar uma discussão profunda do que foi assinado pondo à frente a notícia do resgate “milagroso” das crianças que a selva não conseguiu devorar. 

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Enquanto que paralelamente o processo de organização do “partido militar” baseado nos militares aposentados e reservistas (Pinzón Bueno?) continua seu processo ininterrupto nas diversas regiões do país como parte do aumento das atividades conspiratórias da direita hirsuta, o Uribismo, o Santismo, o Llerismo, a social-democracia de direita (Claudia López e Fajardo), entre outros, a cada dia fecha fileira para continuar com suas intrigas, conspirações e confabulações com que pretendem derrubar Petro, mas sobretudo, para dividir e paralisar o “Pacto Histórico” evitando assim sua continuidade no futuro. É o magma obscuro desestabilizador de uma possível operação maior de tipo militar como a indicada pelo jornalista Aharonian mencionada acima.

Se a Colômbia não é um país qualquer, então com que nos preocupamos Sancho?

Alberto Pinzón Sánchez | Resumen Latinoamericano
Tradução: Ana Corbisier


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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