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Com Bolsonaro, Brasil vive escalada no aumento do número de células neonazistas

Temos uma forte herança histórica nazifascista, alicerçada no anti-intelectualismo, na violência e no racismo estrutural
Carlos Russo Jr
Espaço Literário Marcel Proust
Florianópolis (SC)

Tradução:

Temos uma forte herança histórica nazifascista, alicerçada no anti-intelectualismo, na violência e no racismo estrutural.

O recente surto de crimes de apologia ao nazi-fascismo por parte do governo Bolsonaro e seguidores, a existência de células neonazistas, o crescimento do discurso de ódio e da intolerância através do “comitê do ódio do Planalto”, o crescimento de milícias armadas com participação de policiais e até mesmo de militares, o massacre de negros e pobres de periferias, todos estes fatos têm uma relação direta com a existência e as práticas que antecederam o surgimento do Nazismo Alemão e até mesmo dos Partidos Nazista e Fascistas no Brasil do século passado.

O Partido Nazista no Brasil foi fundado em Santa Catarina, na cidade de Timbó, em julho de 1928. 

O Brasil foi o primeiro País a ser reconhecido pelas lideranças do partido em Munique, que já haviam realizado a fracassada tentativa de golpe de estado de 1925.

E o Partido Nazista, assim que formado, se expandiu em nosso país. 

Chegou a se estabelecer em 17 estados brasileiros, contando com mais de 100 células formadas exclusivamente por alemães. 

Frise-se que por ordem expressa do Partido Alemão e, posteriormente, do governo nazista da Alemanha, só era permitida a inscrição de alemães natos, excluindo até mesmo descendentes nascidos aqui. 

A filiação ocorreu em maior volume em Santa Catarina e em São Paulo, embora houvesse células nazistas na Bahia, no Pará e em Pernambuco.

O partido de Hitler no Brasil chegou a ser o maior Partido Nazista fora da Alemanha. 

E nas décadas de 1930 e 1940, ademais dos membros partidários de origem germânica, os simpatizantes do nazismo espalharam-se por todo o Brasil! 

Fotos de alemães e simpatizantes brasileiros ostentando a suástica em bandeiras e faixas, reportagens racistas sobre o “perigo judeu”, a respeito das maravilhas dos “campos de trabalhos forçados” estabelecidos nos países invadidos, como Auschwitz., constituem provas incontestes. 

O jornal nazista “Deutscher Morgen” (“Aurora Alemã”) se encarregou de apregoar por todos os cantos de nossa Pátria a exclusão de raças “inferiores” e grupos sociais como judeus, ciganos, homossexuais, comunistas e portadores de deficiência.

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Grande parte da repulsa do Partido Nazista se direcionava também a negros e miscigenados, que compunham nossa própria identidade nacional. 

O sucesso do Partido em solo brasileiro ocorreu justamente por conta do pensamento racista da elite e da classe média, herança do escravagismo. 

A vinda de europeus da Itália e Alemanha fora incentivada, desde meados do século XIX, não só para fornecer mão-de-obra barata na agricultura, mas também como uma forma de “branquear” a identidade brasileira. 

Textos eugenistas apareciam não somente em publicações ligadas ao Partido Nazista, mas também na quase totalidade da imprensa brasileira dependente da publicidade estatal.

De todo modo, a nomeação de Hans Heinnig von Cossel como chefe do Partido Nazista no Brasil, em 1934, aumentou a adesão dos entusiastas da cruz gamada. Sua estratégia era conseguir unir toda a colônia alemã em torno do hitlerismo, evitando manifestações sobre questões políticas brasileiras. 

Afinal, o nazismo já contava com inúmeros simpatizantes no próprio governo e na posterior ditadura Vargas, assim como em nossas Forças Armadas.

Temos uma forte herança histórica nazifascista, alicerçada no anti-intelectualismo, na violência e no racismo estrutural

Reprodução
Ilustração do ex-ministro bolsonarista Ricardo Alvim.

Surge um irmão ideológico.

Na década de 1930, outro movimento estava em crescimento no país, especialmente nas regiões Sul e Sudeste. 

Fortemente inspirado pelo fascismo italiano, o jornalista paulista Plínio Salgado fundou a Ação Integralista Brasileira, organização política que compartilhava os mesmos preceitos do nazi-fascismo: nacionalismo, antissemitismo, combate ao comunismo e ao liberalismo.

“Sim, podemos dizer que são nossos irmãos fascistas”, dizia Cossel.

Na década de 1930 e princípios da de 1940, Brasil e Alemanha eram mais que amigos. Até a entrada forçada na Segunda Guerra Mundial em 1942, ao lado dos Aliados, o Brasil manteve boas relações com a Alemanha. 

Consequentemente, a existência do Partido Nazista em solo brasileiro foi não apenas tolerada, mas muito bem vista, inclusive por Getúlio Vargas. 

“Até 1938, o partido não era proibido no país. Pelo contrário, era festejado por ministros de Vargas” afirma o historiador Gertz. 

O próprio Vargas, ao se corresponder oficialmente com Hitler em novembro de 1937 por conta da troca de embaixadores, chamou o ditador alemão de “grande bom amigo” e afirmou esperar um estreitamento de relações. 

O filho de Getúlio, Lutero Vargas, casou-se com a artista plástica alemã nazista Ingeborg ten Haeff, simbolizando o relacionamento estreito entre os países. 

As polícias secretas do Brasil e Gestapo da Alemanha estabeleceram vínculos de cooperação fortíssimos. 

Uma de suas vítimas foi Olga Benário, militante comunista judia, nascida em Munique e companheira de Luís Carlos Prestes. Olga, grávida e casada com um brasileiro, foi presa e extraditada para a Alemanha, entregue à Gestapo e executada em 1942, em um campo de concentração.

Também foram realizadas expedições nazistas à Amazônia para coletar informações sobre a fauna, flora e cultura indígenas da região, pois um dos objetivos do governo alemão era implantar colônias estratégicas na região. 

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A preterida expansão do imperialismo da Alemanha em países subdesenvolvidos como o Brasil tornava-se mais do que evidente. 

No entanto, quando o Brasil entra na Segunda Guerra Mundial, empresas alemãs foram fechadas, bancos alemães pediram liquidação e lojas alemãs foram saqueadas. Em resposta às proibições e hostilidades, parte da comunidade alemã-nazista deixou o Brasil e foi repatriada, recebendo até mesmo compensações financeiras do III Reich. 

O fascismo estrutural foi uma das bases da Ditadura Militar de 1964.

Entretanto, somente após a redemocratização, em 1988, o Neonazismo tentou se reestruturar no Brasil através do Partido Nacional Socialista Brasileiro (PNSB), fundado por Armando Zanine Júnior, em 1988.

A Justiça Eleitoral não o aprovou, afinal, nosso país vivia uma efervescência política de liberdade e reconstrução pós-ditadura militar.

Na busca por alguma relevância política, o PNSB se aproximou publicamente do seu “irmão” ideológico, o movimento integralista representado pela Ação Integralista Brasileira. 

Nas eleições de 1994, Zanine declarou apoio a Éneas Carneiro, do PRONA, mas Carneiro, democrata, rejeitou publicamente o apoio. “Não me alio a nazistas e fascistas”, disse.

O Brasil vive hoje uma escalada no aumento do número de células neonazistas, explosão de discursos que exaltam a ideologia de ultradireita nos meios digitais e um aumento de inquéritos que investigam o crime organizado de apologia ao nazismo.

Esse cenário sinistro acompanha uma onda global de surgimento de grupos de extrema direita, que levaram o secretário-geral das ONU, António Guterres, a buscar a criação de uma aliança global contra o crescimento e o alastramento do neonazismo, da supremacia branca e dos discursos de ódio, especialmente a partir da pandemia da Covid-19.

Brasil, tragicamente atingido pela Covid-19, que em breve chegará aos 600 mil mortos, é ao mesmo tempo um dos polos mais importantes em todo o mundo de disseminação dos conceitos nazifascistas. 

“Tragicamente, depois de décadas nas sombras, os neonazistas e suas ideias agora estão ganhando popularidade”, declarou o chefe da ONU em janeiro de 2021.

Bolsonaro e seu entorno estão entre seus maiores líderes. 


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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Carlos Russo Jr Carlos Russo Jr., coordenador e editor do Espaço Literário Marcel Proust, é ensaísta e escritor. Pertence à geração de 1968, quando cursou pela primeira vez a Universidade de São Paulo. Mestre em Humanidades, com Monografia sobre “Helenismo e Religiosidade Grega”, foi discípulo de Jean-Pierre Vernant.

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