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Com fim do mandato, Trump se apressa para repartir licenças ilegais entre empresários

Embora a cada dia haja menos atenção às declarações e ações de Trump, tudo indica que seu fim em Washington será muito diferente das despedidas tradicionais
David Brooks
La Jornada
Nova York

Tradução:

O governo de Donald Trump acelera seu ritmo de execuções a um nível sem precedentes em mais de um século, reparte licenças a empresas para explorar recursos em terras públicas, repete sua declaração falsa sobre fraude eleitoral e continua ameaçando com um golpe para ser desatado antes de ser desalojado da Casa Branca em 20 de janeiro. 

A equipe de transição do presidente eleito avança na preparação dos primeiros dias do novo governo, com Joe Biden tomando vacina ao vivo diante das câmaras de televisão para combater temores do público diante das correntes anti-vacina que costumam ser simpatizantes de Trump. De fato. Trump não tem promovido a campanha de saúde para assegurar ao público da urgência e da segurança das novas vacinas (apesar de que seu vice-presidente, Mike Pence, e o líder do Senado republicano, Mitch McConnell já receberam a primeira dose). 

Biden também continuou apoiando os candidatos democratas que competem em segundo turno pelas duas cadeiras do Senado Federal na Georgia – eleição que determinará o controle da câmara alta e, portanto, a margem de jogo que terá o governo que entra. Por certo, o voto latino e os esforços para mobilizá-lo nesse estado poderia ser um fator determinante em resultados que terão de imediato um impacto nacional.

Embora a cada dia haja menos atenção às declarações e ações de Trump, tudo indica que seu fim em Washington será muito diferente das despedidas tradicionais. Ainda não se sabe se reconhecerá o novo presidente já que a cada dia continua declarando que a eleição que ele ganhou de forma esmagadora lhe foi roubada por uma fraude sem precedentes.  

Sua campanha interpôs mais outra demanda legal ante a Suprema Corte buscando novamente subverter os resultados da eleição, e hoje condenou o supremo tribunal estatal de Wisconsin por rechaçar sua última petição para anular o voto, queixando-se de que um dos juízes que votou contra ele deve seu posto ao presidente, mas essa via parece estar anulada.  

Ao mesmo tempo, continua pressionando legisladores de seu partido para obstaculizar o último passo oficial para certificar a eleição, quando contarem os votos do Colégio Eleitoral em 6 de janeiro, e denuncia a todos de seu próprio partido que se atrevam a questioná-lo ou expressar seu desacordo com o presidente. 

Mas, a cada dia perde o apoio de aliados políticos importantes. Durante os últimos dias Trump tem declarado que é preciso um promotor especial para investigar a fraude eleitoral e outro para investigar Hunter Biden, o filho do presidente eleito, mas hoje seu até muito recentemente leal procurador geral Bill Barr – o qual está por deixar o cargo nesta semana – declarou que não existe a necessidade para as duas coisas, contradizendo diretamente o seu chefe. 

Embora a cada dia haja menos atenção às declarações e ações de Trump, tudo indica que seu fim em Washington será muito diferente das despedidas tradicionais

White House
O governo de Donald Trump acelera seu ritmo de execuções a um nível sem precedentes em mais de um século.

Mitch McConnell, o líder do Senado e o republicano mais poderoso em Washington depois do presidente, o qual na semana passada reconheceu Biden como presidente eleito, prosseguiu sem consultar o mandatário com as negociações para um novo pacote de resgate econômico para o país que está para ser aprovado. 

El reverendo conservador Pat Robertson, veterana figura entre o poderoso movimento evangélico conservador, afirmou hoje que Biden será o próximo presidente e que Trump “vive em uma realidade alternativa” e já é hora de que ele prossiga e deixe o cenário político. 

E ainda mais, funcionários dentro da Casa Branca se alarmam cada vez mais com o comportamento de Trump depois de reuniões no fim de semana passado nas quais o presidente abordou a possibilidade de confiscar máquinas de votação e contemplar a proposta de seu primeiro assessor de Segurança Nacional, o ex-militar Michael Flynn, que recentemente foi indultado por seu chefe, de declarar lei marcial para manter-se no poder, reportaram Axios e o New York Times.  

Um alto funcionário do governo declarou a Axios que quando o presidente está “tuitando de novo ameaças sobre encarcerar políticos, e dedica seu tempo falando com os loucos que creem em conspirações, os quais dizem abertamente que declarar lei marcial não é grande coisa, é impossível não começar a se preocupar em como tudo isso vai terminar”. 

Execuções e minas

Enquanto isso, ao aproximar-se o fim da sua estadia o presidente está mais centrado em matar gente e destruir terras públicas do que combater a pandemia. O governo de Trump executou 10 pessoas ao reiniciar essa prática pelo governo federal em julho, pela primeira vez em 17 anos – essa cifra é superior a conseguida por qualquer presidente nos séculos 20 e 21, reportou o Death Penalty Information Center. Executou três pessoas depois da eleição de 3 de novembro – todos homens afro-estadunidenses. 

Entre aqueles que tiveram aplicada a pena máxima estava o primeiro indígena estadunidense a ser executado pelo governo federal e o primeiro em 68 anos de um prisioneiro que cometeu seu delito quando era adolescente. Antes do fim do seu mandato estão programadas outras três execuções, inclusiva a primeira de uma mulher em 70 anos, entre outras. 

E se espera uma longa lista de indultos presidenciais de sócios e aliados de Trump condenados por todo tipo de delitos, e ainda não se descarta que nessa lista poderia se dar o primeiro auto indulto na história do país.

Por outro lado, o governo de Trump está se apressando para repartir licenças para projetos empresariais de mineração e energia em grande escala em terras federais. Apesar da oposição de povos indígenas e ambientalistas em Arizona, Utah, Nevada, Virginia entre outros, muitos investidores esperam que sejam autorizados seus projetos antes da chegada do novo governo, que nominou a deputada federal Deb Haaland, una indígena que tem promovido a defesa ecológica dessas terras, como a próxima secretária do Interior. 

Fim pouco elegante

Tudo isto enquanto claramente busca entorpecer em grau possível o processo de transição do executiva, proibindo no início interações preliminares com a equipe de transição, dando ordens para não compartilhar nada com a equipe de Biden que pudesse ser usado contra ele, e continuando com um ataque sem precedentes sobre o processo eleitoral com o objetivo de qualificar como “ilegítimo” ao seu sucessor.  

Ou seja, tudo indica que não será um final nem com um pouquinho de graça. 


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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David Brooks Correspondente do La Jornada nos EUA desde 1992, é autor de vários trabalhos acadêmicos e em 1988 fundou o Programa Diálogos México-EUA, que promoveu um intercâmbio bilateral entre setores sociais nacionais desses países sobre integração econômica. Foi também pesquisador sênior e membro fundador do Centro Latino-americano de Estudos Estratégicos (CLEE), na Cidade do México.

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