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Com Marina, mudam o cenário político e todas as campanhas eleitorais

Benedito Tadeu Cesar

Tradução:

Benedito Tadeu César*

Benedito Tadeu CésarMarina Silva será mesmo a candidata substituta de Eduardo Campos. O PSB já decidiu apoiá-la e o fará sem exigir que ela desista de fundar a Rede Sustentabilidade. Beto Albuquerque, deputado federal pelo Rio Grande do Sul, presidente do PSB-RS e candidato a senador, só não será o vice na chapa de Marina Silva se o partido avaliar que a manutenção de um nome do nordeste será fundamental para impedir que os votos anteriormente conquistados por Eduardo Campos naquela região migrem para Dilma Rousseff.

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Há um certo ar de messianismo da candidata

Há um certo ar de messianismo da candidata, que ronda a formação da nova chapa presidencial da coligação Unidos para o Brasil. Marina Silva, com convicções evangélicas, teria afirmado, segundo o Estadão, que foi por uma “providência divina” que ela não embarcou no avião com Eduardo Campos, como estava programado. “Penso que existe uma providência divina em relação a mim, ao Miguel [filho mais novo de Campos], a Renata [viúva do candidato] e ao Molina [sobrinho e assessor]“, teria dito Marina Silva ao jornal O Globo.
Avaliando a situação, Beto Albuquerque, depois de lamentar profundamente a perda de Eduardo Campos, afirmou em conversa com este articulista, no sábado (16): “Se a gente for espiritualizar a situação, pode dizer que a morte de Eduardo pode ser o modo de permitir que a sua proposta de mudar o Brasil se concretize. A tragédia conectou todo mundo, a sociedade se ligou nas suas propostas de mudança. Talvez a morte tenha sido o preço a ser pago para a possibilidade da mudança. As pesquisas qualitativas mostram que há um sentimento de arrependimento na população por não ter abraçado a(s) proposta(s) de Eduardo”.
Impulsionada pela emoção da morte de Eduardo Campos e com forte presença do espiritualismo, a candidatura de Marina Silva deverá apresentar percentuais elevados de intenção de voto nas pesquisas realizadas até esta data e a serem realizadas nos primeiros dias da campanha eleitoral no rádio e na TV, a se iniciar na terça-feira (19).
A previsão geral é a de que Marina Silva seja catapultada ao segundo lugar, no primeiro turno, exibindo percentuais próximos ou superiores aos que detinha em abril, quando chegou a 27% no Datafolha, com 11 pontos à frente de Aécio Neves e com 12 pontos atrás de Dilma Rousseff. No cenário de segundo turno, a previsão geral é de que Marina apareça ameaçando a reeleição de Dilma Rousseff. A pesquisa Datafolha divulgada, nesta segunda-feira (18), e realizada durante os dias 14 e 15, com margem de erro de dois pontos percentuais, confirma esta previsão. Dilma Rousseff aparece com 36%, Marina Silva com 21% e Aécio Neves com 20% no primeiro turno; no segundo turno, no limite da margem de erro, Marina, com 47% das intenções de voto, venceria Dilma com 43%.
Resta saber se Marina Silva se manterá em boa colocação até a realização das eleições, dia 5 de outubro, garantindo sua vaga ao segundo turno e, caso isso ocorra, se terá fôlego para vencer a disputa. Se, por um lado, Marina Silva é mais conhecida nacionalmente que Aécio Neves, que tem dificuldades para ir além de Minas Gerais, Marina tem menor estrutura partidária e palanques estaduais mais frágeis do que Aécio.
Além disso, o messianismo de Marina Silva, que pode embalar sua candidatura agora, poderá se voltar contra ela em muito pouco tempo. Comparações com Collor de Mello e com Jânio Quadros já começaram a circular nas redes sociais, sempre lembrando a determinação voluntariosa e a falta de sustentação político-partidária e de quadros técnicos que caracterizariam os três personagens e, ainda, as crises que marcaram os governos de Jânio e de Collor, sugerindo que elas possam se repetir em um eventual governo de Marina.
Antecipando os ataques que virão da direita, Reinaldo Azevedo, publicou em seu blog, na sexta-feira (15), um artigo com o título: “Uma esfinge sem segredos chamada Marina Silva. Ou: A Marina “sonhática” é “pesadêlica” no qual, além de afirmar que Marina não sabe pensar e nem se expressar, procura demonstrar que, apesar de Marina ter se desgarrado do PT, “não se livrou dos piores vícios da nave-mãe” e seu governo pode ser ainda mais perigoso do que o petista.

“Em muitos aspectos, Marina pode representar um perigo ainda maior do que o petismo”, afimar Reinaldo Azevedo

Afirma Azevedo: “Pode não dar para entender o que ela diz, o que sempre desperta a suspeita do sublime, mas dá, sim, para saber o que ela pensa. E ela não pensa coisas boas. … Em muitos aspectos, Marina pode representar um perigo ainda maior do que o petismo. Se ela se eleger presidente e puser em prática o que pensa sobre militância organizada, a relação com os Poderes instituídos, o agronegócio e o setor energético, quebra o país e o conduz a uma crise política sem precedentes. Claro! Uma Marina que conseguisse governar teria de jogar fora a Marina “sonhática”, que está muito mais para ‘pesadêlica’”.
Elio Gaspari, numa posição ao centro, engrossa o coro das críticas: “Falta saber o que Marina proporá para transformar preferências em votos. No primeiro turno de 2010 ela teve cerca de 20 milhões de votos (19,33%). Até agora, o programa de sua chapa foi ralo e confuso. Fala em ‘eixos programáticos’, ‘brasileiros socialistas e sustentabilistas’, ‘borda de desfavorecidos’, ‘democracia de alta intensidade’, em ‘ampliar a dimensão dos controles ex post frente à primazia dos controles ex ante’. Propõe plebiscitos e ‘um novo Estado’. Isso pode dar em qualquer coisa… A ideia de uma candidata a líder espiritual reconforta o eleitor desencantado com a polaridade PSDB-PT, com seus mensalões mineiro e federal. Para o primeiro turno isso é um bálsamo. Para o segundo, uma aventura.”
Antevendo o caminho a ser percorrido por sua coligação, Beto Albuquerque afirmou, na conversa com o articulista, que “a Marina de 2014 não pode ser a mesma de 2010, a do protesto. Agora, tem que ser a Marina do Governo, como Eduardo (seria)”. Fica claro que, na visão de seu possível vice, Marina Silva terá que fazer alianças e negociar acordos, além de apresentar um projeto de governo consistente. A própria Marina já se deu conta disso e, no mesmo voo a Recife, no qual afirmou que se sentia protegida por Deus, afirmou também que vai manter os “compromissos” que tinha com Campos e que sente o “senso de responsabilidade e compromisso que a perda de Eduardo impõe”.
Beneficiada, ao que tudo indica, pela comoção advinda da morte e pela cobertura feita pela mídia do enterro de Eduardo Campos, Marina Silva necessitará também, para ir ao segundo turno e para vencer a disputa, conquistar os votos dos milhões que foram às ruas nos protestos de junho de 2013 e que se julgam não representados pelos “políticos que estão aí”. Caso Marina Silva ceda às pressões e adote tanto um discurso programático mais consistente do que o adotado em 2010, o qual foi incorporado ao ideário da Rede Sustentabilidade, quanto uma postura política mais pragmática do que sempre adotou, conseguirá ela atrair e, depois, manter esses votos?
Nem Aécio Neves, nem Dilma Rousseff, além disso, deixarão que Marina Silva corra livre e explorarão suas fraquezas. Aécio teme ser suplantado por Marina no primeiro turno e Dilma teme enfrentá-la no segundo turno. Aécio já começou a disputar o espólio político-eleitoral de Eduardo Campos e se apresentará como a possibilidade de “mudança com segurança”. Segundo matéria publicada no Último Segundo do IG, citando texto postado no site do PSDB, na quinta-feira (14), um dia após a morte de Eduardo Campos, com o título “A boa política de luto”, Campos “espelhou-se em outras experiências exitosas como a de Aécio Neves no governo de Minas Gerais” para exercer seu governo em Pernambuco e, além disso, Aécio e Campos são representantes da mesma “boa política”. Diz o texto: “O Brasil perdeu ontem um protagonista importante da boa política. Mas o mais relevante é que valores e crenças que Eduardo Campos abraçava continuarão sendo respeitados e honrados por quem continuará a travar este bom combate”.
Dilma Rousseff, por sua vez, frente a Marina Silva, terá que alterar o eixo de sua campanha, que foi dirigida, até aqui, contra o PSDB e Aécio Neves e esteve centrada na polarização esquerda/direita e na ameaça da volta ao passado. As armas contra Marina Silva serão, provavelmente, assestadas contra a fragilidade do seu projeto de desenvolvimento e contra seu conservadorismo comportamental, com suas posições antiaborto, anticasamento gay, contra a utilização de células-tronco e a favor do ensino religioso nas escolas públicas. Na disputa pelo voto evangélico e tentando prevenir-se de ataques semelhantes aos que sofreu em 2010, Dilma Rousseff já afirmou, no início de agosto, no Congresso Nacional de Mulheres da Assembleia de Deus, citando o salmo de David, que, não obstante o Estado brasileiro seja laico (e contrariando suas convicções históricas), “feliz é a nação cujo Deus é o senhor”.
Se for este o tom dos discursos a serem utilizados nas campanhas dos três principais candidatos a partir de agora, estaremos, todos, muito mal arranjados!
* Cientista político e colaborador da Diálogos do Sul.

Fonte: Sul21


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Benedito Tadeu Cesar

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