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Com militares no governo, Brasil está à beira da guerra. O inimigo são os brasileiros

Nesses últimos anos perdemos várias guerras sem que tenha sido dado um só tiro
Paulo Cannabrava Filho
Diálogos do Sul
São Paulo (SP)

Tradução:

O que mais chamou a atenção nas notícias veiculadas nos jornais foi, para nós, um documento oficial com a pretensão de atualizar a Política Nacional de Defesa. Preocupa porque é a soberania nacional que está em jogo.

São vários os aspectos que merecem reflexão.

Em primeiro lugar, está o fato de que estamos em guerra. Guerra, com estado de emergência aprovado pelo Congresso, contra um inimigo invisível, o malfadado vírus que provoca a Covid-19.

Quando falamos em guerra, pensamos logo em militar. Grande equívoco. Guerra exige planejamento estratégico, comando e envolvimento de toda a Nação. Quem leu um pouquinho de história ou mesmo lendo notícias sabe disso.

Nesses últimos anos perdemos várias guerras sem que tenha sido dado um só tiro

Reprodução: WinkieMedia
Quando falamos em guerra, pensamos logo em militar. Grande equívoco.

Nesses últimos anos perdemos várias guerras sem que tenha sido dado um só tiro. Perdemos a guerra cultural travada pelo capital financeiro, a guerra psicossocial, com a qual foi conquistada a presidência da República pelos militares em 2018 e estamos perdendo a guerra comunicacional travada pela direita reacionária.

Genocídio

Estamos perdendo também a guerra contra a pandemia. Isso é muito grave. Com razão, o ministro Gilmar Mendes disse que as Forças Armadas ficarão na história como cúmplices. Serão os responsáveis pelo genocídio que está ocorrendo, principalmente com os povos indígenas e as populações mais pobres das cidades.

Se não são responsáveis quero que me expliquem. Dizem que o Ministério da Saúde está sem ministro há quatro meses, como se isso fizesse diferença, como se fosse isso a causa do descontrole sobre a pandemia. 

É querer enganar os trouxas. O Ministério da Saúde está ocupado por nada menos do que 20 oficiais superiores das Forças Armadas, 14 deles militares na ativa, todos obedecendo à junta militar que ocupa a Presidência da República. 

Cada vez que um ministro foi trocado foi por não se entender com quem realmente manda, que são os militares. Se quiserem prestar um grande serviço à nação e evitar que sejam processados por um tribunal internacional, é hora de bater em retirada.

Numa guerra deveria estar no comando um Conselho de Guerra. Mas, a nação sequer foi advertida, mobilizada, sensibilizada, organizada para a guerra.

Creio que estarão de acordo comigo de que essa é a prioridade das prioridades dessa guerra: salvar vidas. Estamos com mais de mil mortos por dia, até domingo certamente estaremos com 80 mil ou mais. E quem comanda a saúde e todo o governo são os militares.

Amazônia

O plano de Defesa diz que é preciso proteger o país dos incêndios. Estão no poder há ano e meio e se vangloriam de ter aplicado, de metade de maio à metade de julho, 1.200 multas e arrecadado R$ 407 milhões, com a apreensão de 27.527 metro cúbicos de madeira e 178 embarcações e 112 veículos. 

Gente, isso pra mim é confissão de fracasso. Quantos quilômetros de desmatamento foram feitos para que essa quantidade de madeira fosse apreendida? Adianta chorar pelo leite derramado?

Nossos generais têm sido humilhados. Pensando fazer parte do Comando Sul como parceiro, são tratados como subalternos. Deixaram de ser oficiais de Estado Maior para ser oficiais de operação: capitão, no máximo coronel, para receber ordens do Comando estadunidense. 

Em outras palavras, a ameaça continua sendo o inimigo interno, ou seja, o mesmo povo do qual eles foram paridos. Há quem esteja contra Gilmar Mendes, por ter dado um pito neles. Oras, o governo está ressuscitando a Lei de Segurança Nacional da ditadura, o que pensávamos ter acabado com a Constituição de 1988.

O governo está agindo como fora de Lei, acima da Lei, tomando atitudes que só poderiam ser tomadas pelo Ministério Público. Que Vergonha!


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Paulo Cannabrava Filho Iniciou a carreira como repórter no jornal O Tempo, em 1957. Quatro anos depois, integrou a primeira equipe de correspondentes da Agência Prensa Latina. Hoje dirige a revista eletrônica Diálogos do Sul, inspirada no projeto Cadernos do Terceiro Mundo.

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