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Com “pintou um clima”, Bolsonaro tentou usar meninas para incitar ódio contra Venezuela

Bolsonaro ataca a liberdade, a verdade, a justiça e a paz no mundo em plena campanha eleitoral
Ciro Casique Silva
Diálogos do Sul
São Paulo (SP)

Tradução:

* Atualizado em 29/10/2022 às 10h31.

Um dia após o primeiro debate presidencial do segundo turno na Band, quando já tinha disparado várias de suas mentiras, o Bolsonaro desata uma grande e vil manipulação para atacar a consciência do povo brasileiro, e até agora está por ver-se o desfecho disso nas eleições do próximo 30 de outubro. 

Bolsonaro falou sobre a Live de 2020 —transmitida pela própria CNN Brasil e outros veículos de comunicação como a Visão TV¹ —, a mesma em que Bolsonaro manipula as meninas venezuelanas e as usa como cabo de guerra para empurrar a opinião pública brasileira contra “o tenebroso comunismo que teria gerado a pobreza, a fome na Venezuela e a migração de milhões de venezuelanos pelo mundo”, com o objetivo de buscar vantagem eleitoral e manter sua estratégia de provocar terror na população brasileira, mentindo sobre aquele país. 

Na sexta-feira, 15 de outubro, o Bolsonaro apareceu no podcast “Collab” dando polêmicas declarações que levantaram a discussão pública, na que alguns fizeram acusações de pedofilia contra ele com a frase “pintou um clima”, que muito repercutiu nas redes sociais. O assunto “Bolsonaro pedófilo” ficou entre os mais comentados, segundo uma matéria do site Poder360². A justiça brasileira vai ter que investigar esse caso.  

Bolsonaro ataca a liberdade, a verdade, a justiça e a paz no mundo em plena campanha eleitoral

Palácio do Planalto
Não era para ele agir no intuito de proteger as meninas? Não, ele manipulou e usou elas

No sábado 16, para tentar fazer controle de danos e reparar o revés político, durante a madrugada, o Bolsonaro fez uma transmissão ao vivo na sua conta oficial de Facebook³, negando as declarações e afirmando o que ele chamou de “manipulação do PT”, mas mantendo integralmente o conteúdo preconceituoso, mentiroso e manipulador sobre as meninas. Ele aprofunda a tática de demonizar o processo venezuelano, dizendo: “não quero isso para nossas filhas, não quero para minha filha, não quero que um dia pessoas tenham que sair do Brasil por causa do regime adotado na Venezuela que é o mesmo que pode acontecer no Brasil, tendo em vista a amizade de Maduro com Lula”. 

Além de ocultar os horrores causados pelo bloqueio multidimensional contra a Venezuela, Bolsonaro também expõe sua leitura preconceituosa da vida com a frase “Meninas que estavam se arrumando num sábado de manhã, em plena pandemia, não iriam para festinhas”, só teria uma explicação segundo ele, “era para fazer programa”, ignorando olimpicamente e intencionalmente que esse lugar que ele mesmo visitou era uma casa de família. Frases como estas são parte esencial da verdadeira ideologia de gênero, da constituição da masculinidade tóxica, a que acha que qualquer mulher que se arruma para ela mesma só quer diversão e prazer sexual, junto ao preconceito classista e xenofóbico que diz que se estamos falando de umas meninas migrantes e pobres, aquilo imediatamente as convertiria em trabalhadoras sexuais… Talvez seja o caso do senhor Presidente revisar o que está passando pela cabeça dele, né? 

Como obediente vassalo, o Governo Bolsonaro atua sob a estratégia geopolítica e diplomática desestabilizadora executada e promovida pelos interesses imperiais, que se propõe atacar qualquer imagem do “fantasma do comunismo” na região. 

Na tentativa de “se desculpar” sobre o incidente com as meninas venezuelanas, o dia 12 de setembro, e não reconhecendo o próprio corpo diplomático oficial aqui no Brasil enviado pelo Nicolás Maduro (legítimo presidente da Venezuela), o Bolsonaro aparece ao lado da primeira-dama, Michelle Bolsonaro e a María Teresa Belandria, a embaixadora fake da Venezuela mandada pelo marionete imperial de Juan Guaidó; “o objetivo era que as próprias [meninas] venezuelanas fizessem uma declaração ao lado do presidente, mas elas se recusaram”, resenhou uma matéria do jornal O Globo4. Esta é claramente mais uma demonstração servil alinhada aos ataques multimodais contra Venezuela, liderada pelo governo dos EUA.

Só para tentar ampliar mais um pouco, até o 15 de setembro de 2021, a relatora especial da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre o impacto negativo das medidas coercitivas unilaterais nos direitos humanos, Alena Douhan5, após uma visita oficial, num relatório final que avaliou o impacto negativo das sanções unilaterais aplicadas contra a Venezuela, concluiu que o bloqueio econômico “têm exacerbado a crise venezuelana, com um efeito devastador sobre toda a população, especialmente aqueles que vivem na pobreza, mulheres, crianças, idosos, pessoas com deficiência ou com doenças crônicas ou ameaçadoras da vida, e a população indígena6.

Até essa mesma data, como também registra uma matéria do site Brasil de Fato7, a mesma relatora incluiu no seu documento alguns dados oficiais sob o impacto do bloqueio econômico, que geraram um prejuízo acumulado de US$ 130 bilhões (R$ 677 bi), 60% da retração da produção de petróleo, 31 toneladas de ouro retidas no Banco da Inglaterra, US$ 7 bilhões de dólares (R$ 36,47 bi) foram congelados no exterior —entre outros castigos contra o povo venezuelano—, o que teria contribuído para a redução do PIB em 60% e teria deixado cerca de 64% da população em situação de pobreza multidimensional.


Bolsonaro se retrata? Mas, cadê os direitos das meninas? 

Bolsonaro “pede desculpas” mas continua com a estratégia de ataque à Venezuela, aprofundando a narrativa da “Venezuela ditadura comunista” que ele não queria para os brasileiros.  

Bolsonaro atentou contra os direitos humanos das meninas, violando o artigo 5 da Declaração Universal dos Direitos Humanos que estabelece que “Ninguém será submetido à tortura, nem a tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante”; o candidato ataca a dignidade das meninas, princípio garantido a nacionais e migrantes pela República do Brasil na própria Constituição de 1988 no numeral III do artigo 5 que trata dos direitos e garantias fundamentais. Assim como também foram atacados os direitos apontados no numeral X do mesmo artigo, que indica que “são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação”.

Também estabelece como crime de responsabilidade do presidente da república atos que atentem contra a Constituição como o exposto no numeral III do artigo 85: “o exercício dos direitos políticos, individuais e sociais;” dos quais fazem parte os direitos e garantias antes mencionadas.

Não era para ele agir no intuito de proteger as meninas? Não, ele manipulou e usou elas.

Como é de esperar, o presidente de uma república deveria defender e fazer cumprir a máxima lei de uma nação e conforme a isso, ele devia ter indicado um procedimento para investigar o que para ele teria sido um indício de uma suposta exploração sexual infantil; o que não fez. Pelo contrário, usou a Live para manipular a população e não importou passar por cima dos direitos humanos das venezuelanas com sua tática de guerra suja contra a verdade, mentindo e atentando contra os próprios direitos constitucionais. 

Cabe ao povo brasileiro abrir os olhos para essa manipulação gigantesca contra a verdade e contra o próprio povo do Brasil que visa entorpecer a escolha nestas eleições e uma leitura mais ampla e justa sobre a situação do processo venezuelana, provocada estruturalmente pelo bloqueio criminoso imposto pela oligarquia do mundo, pelos governos do EUA, a UE e os governos servis a estas metrópoles imperiais do mundo.

Bolsonaro ataca a liberdade, a verdade, a justiça e a paz no mundo em plena campanha eleitoral. 

1.  https://www.youtube.com/watch?v=KEut2es-mOY
2. https://www.poder360.com.br/governo/bolsonaro-e-criticado-por-fala-sobre-meninas-venezuelanas/
3. https://www.facebook.com/jairmessias.bolsonaro/videos/2798509730283206
4. https://oglobo.globo.com/politica/eleicoes-2022/noticia/2022/10/bolsonaro-divulga-pedido-de-desculpas-apos-segundo-video-em-que-acusa-menores-venezuelanas-de-prostituicao.ghtml
5. Perfil de Alena Douhan no site official da ONU: https://www.ohchr.org/es/special-procedures/sr-unilateral-coercive-measures/msalena-douhan-special-rapporteur-negative-impact-unilateral-coercive-measures
6. O relatório completo de Alena Douhan pode ser encontrado aqui: https://reliefweb.int/report/venezuela-bolivarian-republic/report-special-rapporteur-negative-impact-unilateral-coercive
7. https://www.brasildefato.com.br/2021/09/15/relatora-da-onu-defende-suspensao-imediata-das-sancoes-economicas-contra-a-venezuela

Ciro Casique Silva | Venezuelano, migrante, arquiteto, mestre em Desenvolvimento Territorial na América Latina e Caribe pela Unesp, militante sexo-gênero diverso e integrante do Comitê Brasileiro pela Paz na Venezuela. 


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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