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Como extrema-direita instrumentaliza cultura 'woke' para atacar justiça racial e progressismo

Com bordão "quem lacra, não lucra", ultraconservadores buscam minar apoio popular a medidas que promovam igualdade e inclusão
George Ricardo Guariento
Diálogos do Sul
Taboão da Serra

Tradução:

A cultura Woke, termo originado nos Estados Unidos, descreve o comportamento de pessoas que buscam se conscientizar sobre questões como justiça social, igualdade e identidade. Ela se baseia na ideia de estar “acordado” para as injustiças sistêmicas que afetam grupos marginalizados, como mulheres, pessoas negras, LGBTQ+, indígenas e outros grupos minorizados.

A essência da cultura Woke envolve uma análise crítica das estruturas de poder e privilégio, bem como um compromisso ativo com a mudança social. Isso se manifesta de diversas formas, desde protestos e movimentos políticos até expressão artística e conscientização nas redes sociais.

No entanto, nos últimos anos, o termo “woke” tem sido apropriado e distorcido pela extrema-direita como parte de uma estratégia de guerra cultural contra o campo progressista. Esse processo envolve desacreditar e ridicularizar a busca por igualdade e justiça racial e social, retratando-a como excessiva, irracional e até mesmo prejudicial.


O caso Jovem Pan

Durante uma transmissão do programa Pânico, da Jovem Pan, em 16 de fevereiro, o comentarista André Alba fez comentários relacionando a população negra à “lacração”. Enquanto criticava ativistas ligados à causa racial no Brasil, uma câmera exibia um homem fantasiado de macaco.

Alba mencionou uma reportagem da revista Veja sobre um suposto “exagero do ativismo” e também o longa-metragem American Fiction: “Esse filme faz a crítica de uma vertente desse pensamento woke, e ele é muito bem feito”. A produção, segundo Alba, satiriza estereótipos da sociedade e aborda a visão sobre os negros, criticando clichês e padrões associados a eles.

André Alba, um conhecido extremista de direita que há alguns anos tem utilizado a cultura pop como plataforma para polêmicas, é o apresentador do canal “Linhagem Nerd“. Nele, frequentemente critica escolhas de elenco para interpretar heróis, como no caso da atriz Mily Alcock, selecionada para o papel da Supergirl no cinema. Alba alegou que ela era “baixinha e feia” para a personagem.


Na trincheira da Guerra Cultural

Ao retratar a cultura Woke como uma ameaça à liberdade de expressão e à tradição, a extrema-direita tem buscado dominar a opinião pública sobre filmes, séries e conteúdo nerd. Eles a caracterizam como uma forma de “politicamente correto” que suprime a diversidade de opiniões e impõe uma agenda ideológica única, uma narrativa distorcida que visa desacreditar as preocupações legítimas sobre a discriminação e a marginalização, desviando a atenção das questões estruturais subjacentes.

Além disso, o uso da cultura Woke pela extrema-direita muitas vezes serve para mobilizar eleitores, polarizando a opinião pública e alimentando o ressentimento contra movimentos progressistas. Ao retratar os defensores da justiça social como radicais intolerantes, a extrema-direita busca minar o apoio popular a medidas que promovam a igualdade e a inclusão.


Quem lacra não lucra?

A instrumentalização do termo “woke” pela extrema-direita se mostra ainda como uma estratégia política para perpetuar o status quo e proteger os interesses de grupos privilegiados na produção cinematográfica. Para isso, uma das máximas usadas é o “quem lacra não lucra”. Mas será que essa afirmação faz sentido?

Nos últimos anos, a frase infame ganhou destaque para criticar o aumento da representatividade na cultura pop. O bordão zomba da gíria “lacrar”, usada por LGBTs+ para expressar ideias como “arrasar” e “se dar bem”.

Com uma sonoridade fácil de ser lembrada, o “quem lacra não lucra” se tornou praticamente um mantra para aqueles que se opõem a ver mulheres, negros, asiáticos e membros da comunidade LGBTQI+ ganhando espaço na cena do entretenimento.

Cada vez mais presente no discurso e nas ações de estúdios e artistas, a representatividade, ou a “lacração”, faz com que públicos que antes não se viam representados pela mídia se engajem cada vez mais no consumo e na divulgação de obras, o que gera lucro.

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Com bordão "quem lacra, não lucra", ultraconservadores buscam minar apoio popular a medidas que promovam igualdade e inclusão

Foto: Anthony Crider / Flickr
Grupo supremacista branco Proud Boys, nos EUA

Um exemplo emblemático é o filme solo da super-heroína inspirada em quadrinhos Mulher-Maravilha, estrelado por Gal Gadot, que superou expectativas tanto nas bilheterias quanto nas notas da crítica. O longa dirigido por Patty Jenkins arrecadou incríveis US$ 821,8 milhões, levando o estúdio a encomendar uma sequência quase que imediatamente. Até hoje, Mulher-Maravilha é considerado por muitos o melhor filme do DCEU, o Universo Estendido da DC.

Outro caso desse fenômeno é a ascensão do personagem Miles Morales, a versão afro-latina do Homem-Aranha. Sua introdução nos quadrinhos e posterior adaptação para o cinema demonstrou não apenas um compromisso com a representação racial, mas também uma compreensão do potencial comercial em atender a uma audiência mais ampla e multicultural. 

O filme focado em Miles Morales, “Homem-Aranha: Através do Aranhaverso”, lucrou US$ 690,9 milhões, ao custo de US$ 90 milhões. 

E quanto a “Barbie”? No final de 2023, nada poderia superar a produção. O grande sucesso da diretora Greta Gerwig conquistou a maior bilheteria do ano passado, uma arrecadação de mais de US$ 1,4 bilhão desde a estreia nos cinemas em julho, segundo dados da Comscore.

Já no cenário nacional, o filme brasileiro “Bacurau“, dirigido por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, apresenta o protagonista negro chamado Lunga. A inclusão de personagens diversos como Lunga não apenas enriquece a narrativa ao refletir a diversidade étnica e cultural do Brasil, mas também aumenta a identificação do público com o filme, contribuindo para o seu sucesso de bilheteria e crítica.

Além disso, nos quadrinhos, personagens como Estrela Polar, um super-herói homossexual da Marvel, Sera, uma personagem transgênero e lésbica da série “Angela: Asgard's Assassin”, e Shade, uma drag queen da DC Comics, representam um movimento em direção à diversidade e à inclusão.

George Ricardo Guariento | Jornalista da Diálogos do Sul.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
George Ricardo Guariento Graduado em jornalismo com especialização em locução radiofônica e experiência na gestão de redes sociais para a revista Diálogos do Sul. Apresentador do Podcast Conexão Geek, apaixonado por contar histórias e conectar com o público através do mundo da cultura pop e tecnologia.

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