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Como Hitler e Mussolini, Trump vê opositores como "vermes" e promete retaliação se reeleito

Segunda presidência do republicano não só seria o triunfo de uma direita perigosa, mas colocaria em xeque a democracia estadunidense, dizem especialistas
Jim Cason
La Jornada
Washington

Tradução:

Vingança política, planos de usar as forças armadas para suprimir protestos e dissidências, qualificar como “inimigos do povo” os opositores, e é claro, uma política anti-imigrantes desatada e até intervenções militares no México são só algumas das ameaças que promovem Donald Trump e seus aliados ao arrancar o ano eleitoral. 

Um possível retorno de Trump à Casa Branca promete um ataque frontal tanto contra inimigos políticos dentro e fora do governo, incluindo vários que são qualificados como colaboradores nos julgamentos e outros ataques contra o ex-presidente. “Nos comprometemos com vocês a que tiraremos os comunistas, marxistas, fascistas e os bandidos da esquerda radical que vivem como vermes nos confins de nosso país e que mantêm, e roubam e fazem trapaça nas eleições”, declarou em um discurso na sexta-feira passada. “Nossa ameaça provém desde dentro”, afirmou.  

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Alguns historiadores comentaram que esse tipo de retórica, incluindo o uso de “vermes”, foi empregada por Hitler e Mussolini. E falando de Hitler, outros recordam que o ditador nazista primeiro foi eleito ao seu posto antes de instalar seu regime fascista. Também provoca alarme um possível autoritarismo estadunidense que se assoma em várias das declarações de Trump, incluindo sua repetida mensagem de que esta próxima eleição é “a batalha final” para o país, e que “eu sou a retribuição”, o vingador do povo.

Desde políticos como a ex-chanceler e candidata presidencial derrotada Hillary Clinton, estrategistas políticos e especialistas acadêmicos, estão cada vez mais alarmadas, sobretudo com pesquisas recentes indicando que Trump está empatando ou ganhando do presidente Joe Biden. Há quem advirta que uma segunda presidência de Trump não só seria o triunfo de uma direita perigosa, mas que poderia pôr em xeque a democracia estadunidense.

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Trump está fazendo planos sobre o que deseja implementar ao regressar à Casa Branca, incluindo usar o Departamento de Justiça para se vingar de seus opositores e críticos, como também seus ex-funcionários que colaboraram nas acusações contra ele. Ao mesmo tempo, está contemplando invocar uma lei em seu primeiro dia no posto que lhe permitiria usar as forças militares para suprimir possíveis manifestações e protestos, reportou o Washington Post.

Mais ainda, Trump e seus assessores já estão elaborando planos para depurar o governo através de demissões massivas – dezenas de milhares – do serviço civil para destruir o que chamam de “Estado profundo”. 

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Os planos em elaboração pelos assessores de Trump se enfocarão nos “burocratas corruptos” que ajudaram a empregar o sistema de justiça contra ele, como “atores corruptos dentro de nosso aparelho de segurança nacional e inteligência, “os quais sempre odiou porque se atreveram a investigá-lo. Também deseja novas medidas para castigar todos aqueles que filtram informações aos meios”, reporta a AP. 

Segunda presidência do republicano não só seria o triunfo de uma direita perigosa, mas colocaria em xeque a democracia estadunidense, dizem especialistas

Foto: A.Davey/Flickr
Ressuscitação de Trump não se limita a ele, mas expressa uma ofensiva das forças de direita a todos os níveis, incluindo supremacistas




Ataques e deportação

Da mesma forma, Trump ameaça realizar ataques em massa e deportações de imigrantes indocumentados e impor outra proibição de viagens a cidadãos de vários países muçulmanos. Ele procurará impor novas tarifas, com o rótulo do seu sobrenome, contra qualquer país.

Também procurará erradicar o Departamento de Educação, facilitar a demissão de professores, impor uma “educação patriótica” que “educa os alunos para amarem o seu país e não odiá-lo, como são ensinados agora”, punir qualquer escola que imponha a obrigatoriedade de medidas de uso de máscaras ou vacinas, permitindo que os professores estejam armados e promovendo a oração religiosa.

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Tudo isto é acompanhado por uma retórica religiosa que vem de movimentos “nacionalistas cristãos”, entre os quais participam supremacistas brancos e outros que nutrem um racismo mal disfarçado que sempre acompanhou Trump. Seu aliado, o congressista Mike Johnson – um cristão fundamentalista, feroz oponente do aborto, anti-imigrante, já representa o poder desta facção como o recém-eleito presidente da câmara baixa do Congresso dos Estados Unidos – é o segundo na linha de sucessão para a presidência.

Na verdade, o congressista Johnson pertence à causa inspirada pelos evangélicos de direita para convocar uma nova convenção constitucional para modificar grandes partes da Constituição dos Estados Unidos, a fim de que reflita sua ideologia ultraconservadora, enquanto seus proponentes afirmam que só através de tal convenção será possível resgatar os Estados Unidos das garras de uma “esquerda” ateia e devolver o país às suas raízes cristãs fundamentalistas.

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O mais alarmante é que, para convocar uma convenção constitucional, é necessária a aprovação dos governos de 34 estados, e esse movimento já conseguiu que 19 estados o tenham feito – ou seja, muito mais da metade do que é necessário.

Tudo isto está levando à concretização do pesadelo de Frank Zappa, o famoso roqueiro travesso, que já tinha alertado na década de 1980 que os Estados Unidos corriam o risco de se tornar uma “teocracia fascista”.

A ressuscitação de Trump não se limita apenas a ele, mas expressa uma ofensiva das forças de direita a todos os níveis. Seus concorrentes à indicação republicana e seus aliados dentro do Congresso e nos governos estaduais adotaram muitas dessas mesmas posições, desde a rejeição das liberdades e direitos civis, medidas anti-imigrantes, promoção da educação conservadora, proibição de livros, e quase todos os candidatos oferecem alguma versão para fechar a fronteira e usar a força militar contra os cartéis dentro do México.

Alguns republicanos moderados se unem ao grito de alerta diante do avanço de Trump e seus aliados, incluindo seus ex-colaboradores, como seu ex-procurador-geral William Barr e seu ex-chefe de Estado Maior, Mark Milley. O ex-presidente do Partido Republicano Michael Steele declarou, ao The Guardian, que Trump “representa um perigo evidente e presente” e que “é uma ameaça” à nação.

A direita se prepara para reconquistar a Casa Branca com consequências existenciais para a democracia estadunidense.

Jim Cason e David Brooks | La Jornada, especial para Diálogos do Sul – Direitos reservados.
Tradução: Beatriz Cannabrava


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Jim Cason Correspondente do La Jornada e membro do Friends Committee On National Legislation nos EUA, trabalhou por mais de 30 anos pela mudança social como ativista e jornalista. Foi ainda editor sênior da AllAfrica.com, o maior distribuidor de notícias e informações sobre a África no mundo.

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