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Como remessas enviadas por imigrantes nos EUA ajudam familiares a realizarem sonhos

Sem o dinheiro que recebe da irmã, Ixchel jamais conseguiria comprar o espaço de um mercado para vender suas verduras e sair das ruas frias e chuvosas
Ilka Oliva Corado
Diálogos do Sul
Território Estadunidense

Tradução:

Às três da madrugada já têm preparados os maços de cenouras, beterrabas e rabanetes. Lavaram na noite anterior, conseguem os legumes mais baratos quando os camponeses os arrancam de suas semeaduras e os entregam diretamente. Este ano também se aventuraram a comprar cocos para o ponche das festas de fim de ano, embora para consegui-los têm que viajar desde Chimaltenango até Escuintla ou às vezes até Suchitepéquez, o que representa um gasto extra e muito forte para sua economia tão frágil.

Os pais de Ixmucané conseguiram comprar um lugar dentro do mercado, depois de vinte anos vendendo do lado de fora, colocando suas verduras sobre um plástico, aguentando frio, chuva e sol. Isso graças à uma irmã de sua mãe que vive nos Estados Unidos como indocumentada, trabalha em um matadouro de frangos e lhes enviou o dinheiro. De outra forma jamais seria possível. É algo que sempre lhe lembra sua mãe ao seu pai quando ele agarra um porre de três dias e fica jogado nas ruas. 

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Nada como um lugar dentro do mercado, não se sofre frio e não há aguaceiro nem nevasca que os obrigue a guardar os produtos correndo. Além disso, até construíram uma prateleira com degraus para que as verduras se sobressaiam. Sem falar do banquinho de plástico que movem de um lugar a outro. Três metros de frente por dois de fundo é um espaço grande comparado com os amontoados que tinham do lado de fora, passando todo o dia ajoelhados. 

Ixchel, a mãe de Ixmucané, quer comprar tinta mais adiante se forem bem com as vendas de fim de ano, e assim de várias cores as prateleiras da estante. No momento coloca plástico de cor azul e aos legumes lhes faz uma caminha de folhas de bananeira. Para estes dias de fim de ano, compra um saco de pinho e o espalha no lugar para que cheire à fresco e à festa.

Na hora de sereno, Ixmucané, de cinco anos, já está arrumada e bem penteada, esquentando o café, os feijões e as tortilhas no calor dos fogões de barro para que todos tomem café da manhã, seus pais e seus irmãos mais velhos. Esse é o seu trabalho de todas as madrugadas de segunda a domingo. Começa a servir os feijões, as tortilhas, o café e uns ovos cozidos. Será o alimento de todo o dia, não comerão mais até chegar de novo à sua casa de noite, esperando que a venda seja grande e se logre juntar dinheiro para a matrícula da escola, os uniformes e o material escolar. 

Mais tarde, durante o dia, Ixmucané terá o ofício de amarrar os maços de cenoura, beterraba e rabanetes, também de cortar as folhas com a faca para as pessoas que pedem só os legumes. Folhas que dá no fim do dia a Nicté, outra menina da mesma idade que é sua amiga do mercado, que vai de posto em posto pedindo o que sobra para alimentar os leitões que tem em sua casa e que sua família vende para o fim de ano. Sempre lhe dá um tamalito de chipilin dos que vende sua tia fora do mercado, que ao ver o que conseguiu a família de Ixmucané, não perde a esperança de que um dia não tão distante também ela possa ser proprietária de um posto no mercado para instalar seu comedor. 

Ilka Oliva-Corado | Colaboradora da Diálogos do Sul em território estadunidense.
Tradução: Beatriz Cannabrava.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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Ilka Oliva Corado Nasceu em Comapa, Jutiapa, Guatemala. É imigrante indocumentada em Chicago com mestrado em discriminação e racismo, é escritora e poetisa

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