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Conciliábulo Vargallosiano contra América Latina

Gustavo Espinoza M.

Tradução:

Gustavo Espinoza M.*

O novo mundo é nossa Pátria; sua história é a nossa e é nela que todos nossos deveres essenciais, nossos mais caros interesses, nos obrigam a examinar e a considerar atentamente o estado de nossa presente situação e das causas que nela mais influíram.

Juan Pablo Viscardo y Guzmán – Carta a los Españoles Americanos – Paris 1799

Gustavo_Espinoza2-150x150Nos próximos dias, a Universidade de Lima -uma das entidades acadêmicas privadas da cidade capital- será cenário de um novo “Encontro pela Liberdade” organizado por Mario Vargas Llosa. Este encontro -já realizado anteriormente- tem um só propósito: atiçar o ódio contra o processo emancipador de América Latina.

Comparecerão, sem dúvida, o creme e a nata da “gusanería” continental tendo como primeira protagonista a esposa de Leopoldo López, um contra-revolucionário venezuelano que está preso em seu país por alentar e urdir ações terroristas.
el-gigante-de-las-siete-leguasEstarão presentes os que sempre se mobilizam para difamar contra Cuba, enlamear a Venezuela de nosso tempo, atacar a Evo Morales e a rica experiência boliviana, e acossar o governo de Rafael Correa e sua Revolução Cidadã. E, também lançar injurias contra o Uruguai, Brasil, Nicarágua, El Salvador e outros países. Na cabeça da trupe, Carlos Alberto Montaner, reconhecido agente da Agência Central de Inteligência ianque nestas terras.
Pode-se dizer que se trata mais do mesmo. Porque já vimos antes, aqui e em outras cidades situadas nesta parte do mundo onde o alabado escritor convoca os que queiram ungir-se no carro de uma guerra, que é promovida pelos Estados Unidos contra nossos países. Se tivesse proposto a pior conjuntura para o encontro não teriam encontrado melhor.
O encontro -financiado ou não pelo governo ianque- se insere nos planos agressivos da Casa Branca. Porque é isso mesmo. Ali não se proferirá uma palavra sobre a agressividade da administração Obama contra Venezuela; nem a ingerência absurda que isso significa, violadora de todos os princípios que regem a Comunidade Mundial nem as relações entre Estados e Nações. Tudo será um panegírico ao domínio imperial.
Tampouco nada falarão sobre as manobras da Chevron contra o governo de Equador, nem da conspiração da CIA e do Mossad orientada a envolver falsamente ao governo de Cristina Kirchner na morte do promotor Nisman.
Tudo isso será passado por alto, como também será cá um dos episódios da atuação ianque contra nossos países, incluindo o desembarque de milhares de fuzileiros navais nas costas peruanas, programada para setembro próximo sob o pretexto de “combater a droga e o terrorismo”. Os porta-estandartes do império cerrarão a boca sobre todos esses temas que comprometem os mais agudos desafios do continente nos dias de hoje.
A estratégia imperial para a América Latina tem seus alvos preferidos: Argentina, orientada a debilitar a corrente liderada pelos Kirchner com vistas ao processo eleitoral de outubro próximo; Brasil, onde preparam a derrubada de Dilma Rouseff, aplicando a receita que utilizou contra Goulart em 1964 e na Venezuela, região em que se impulsiona descaradamente uma guerra civil que justifique o desembarque de tropas estadunidenses para “garantir a democracia e a ordem ocidental e cristã” como ocorreu, em pleno século XXI no Afeganistão, Iraque, Líbia e outros países.
Que outro propósito, senão uma façanha guerreira, poderia ter a declaração que considera “um perigo para a segurança de Estados Unidos o processo social que se vive a cinco mil quilômetros de suas costas, na Venezuela Bolivariana? O sonho de Washington é estender a guerra e alcançar objetivos definidos: dominação territorial e controle das riquezas.
Para EUA, embarcado numa conflagração mundial de novo tipo, resulta vital mudar radicalmente a correlação de forças na América Latina e assegurar o controle absoluto do solo americano dispondo para si o uso dos recursos naturais e humanos do continente.
Nada atemoriza mais o governo dos Estados que enfrentar-se -no marco dessa guerra- a uma região contestária. Lamentavelmente para o país do norte essa realidade existe. E se expressa em governos de diferentes matizes unidos, não obstante, por uma mesma vontade libertadora: consumar a segunda independência de América depois de 200 anos de estrepitosa luta prenhe de ingentes sacrifícios.
Cada país da região tem um roteiro definido, um processo diferente, uma história própria, e um conjunto de experiências que unem seus propósitos. Porém quase todos estão firmemente unidos na proteção de seus recursos básicos, na defesa de sua soberania como Estado.
Este não é um fato casual. É o resultado de uma vida carregada de infortunios na que se impôs sempre a lei do mais forte. Nesta etapa, o governo ianque se apoderou de territórios que não lhe pertenciam, como os de México, Alasca e Porto Rico; e além disso realizou incursões avessas em muitos países da região: Nicarágua, Honduras, El Salvador, Guatemala, Panamá, República Dominicana, Granada e outros.
Em alguns casos fez de maneira direta e repetitiva, desembarcando efetivos militares. Em outros, alentando exércitos mercenários que desempenharam o papel de forças de dominação e terror contra seus povos. Em todos os casos, o propósito foi o mesmo: apoderar-se dos recursos da região.
Hoje essa mesma política tem nome próprio. Se disfarça em lutas contra governos, mas mostra o mesmo conteúdo: o império busca petróleo, cobre, ferro, gás, mas também recursos hídricos e biodiversidade, em uma circunstancia em que o globo terráqueo afronta desafios inéditos que questionam a mesma sobrevivência da espécie humana. O “panamericanismo” – dizia Luis Felipe Angeli, é “pão para eles, e americanismo para nós”.
No fundo, do que se trata é de ameaçar a sobrevivência das populações nesta parte do mundo, porque o governo ianque pretende assegurar a sobrevivência dos seus e a propriedade e recursos dos monopólios.
O que será que move Vargas Llosa e juntar-se a esse carro agressivo contra povos e nações? Em verdade, apenas um anticomunismo rançoso herdado dos anos da Guerra Fria e alimentado compulsivamente pelo império.
Nesses últimos anos, já domesticado pela férula imperial, Vargas Llosa apoiou abertamente a guerra do Vietnam. No Perú, esse fato passou quase despercebido porque o escritor quase não parava no Peru. Vivia em Paris. Mas, além disso, não contava com a aureola que lhe outorgou o Prêmio Nobel de Literatura. Era apenas um escritor modesto que frequentava os cafés do Bairro Latino, na Cidade Luz.
Conquistado pelo império através de polpudos prêmios e outros reconhecimentos laudatórios, o autor da “La casa verde”, mudou de cor e passou a formar parte da corte da Casa Branca desde fins dos anos 1960 e assim se projetou no tempo. Hoje é quase o autor preferido pelas forças de dominação que o usam como lhes da na telha para perpetuar o controle colonial sobre estados vassalos.
Os povos de América Latina, hoje preferem outra coisa. Dizem nas ruas e praças de nosso continente na luta cotidiana contra os lambe-botas do grande capital, os que nos venderam o modelo neo liberal que se afunda irremediavelmente.
Em circunstancias como estas, é precisamente quando os povos evocam a saga de Bolívar, e quando brilham com luz própria as palavras de José Martí referidas ao libertador: “Mientras América viva, o eco de seu nome ressoará no mais viril e honrado de nossas entranhas”.
*Colaborador de Diálogos do Sul – de Lima, Peru


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Gustavo Espinoza M. Jornalista e colaborador da Diálogos de Sul em Lima, Peru, é diretor da edição peruana da Resumen Latinoamericano e professor universitário de língua e literatura. Em sua trajetória de lutas, foi líder da Federação de Estudantes do Peru e da Confederação Geral do Trabalho do Peru. Escreveu “Mariátegui y nuestro tiempo” e “Memorias de un comunista peruano”, entre outras obras. Acompanhou e militou contra o golpe de Estado no Chile e a ditadura de Pinochet.

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