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Confira as frases mais bombásticas da despedida demolidora de Sergio Moro

"O presidente me disse expressamente que queria ter uma pessoa de contato pessoal dele [na PF], a quem pudesse ligar, colher informações"
Redação GGN
Jornal GGN
São Paulo (SP)

Tradução:

Sergio Moro confirmou na manhã desta sexta (24) sua saída do governo Bolsonaro. O ex-ministro da Justiça desembarcou com uma série de acusações e revelações graves sobre o presidente, indicando que a troca do diretor-geral da Polícia Federal e de outros cargos estratégicos na corporação teriam motivação política e pessoal. Bolsonaro está preocupado e quer acesso privilegiado a inquéritos que tramitam na Suprema Corte, no Rio de Janeiro e Pernambuco, disse Moro.

O GGN selecionou os trechos mais polêmicos do pronunciamento de Moro. Confira abaixo:

"O presidente me disse expressamente que queria ter uma pessoa de contato pessoal dele [na PF], a quem pudesse ligar, colher informações"

Wikimmedia
Sergio Moro confirmou na manhã desta sexta (24) sua saída do governo Bolsonaro.

“Não é aceitável de maneira nenhuma essas indicações políticas. Quando começa a se preencher cargos técnicos por questões políticas e partidárias, o resultado não é bom para corporação.” 

“O grande problema é a violação de uma promessa que me foi feita, de que eu teria carta branca. Em segundo lugar, não haveria causa para substituição. Em terceiro lugar, está claro que há interferência política na PF, o que gera um abalo na credibilidade… não na minha, mas no governo. Ia ter impacto na PF.”

“O problema é que, nas conversas com o presidente, ficou claro que a intenção era de trocar não só o diretor-geral, mas outros superintendentes, novamente o do Rio de Janeiro. Outros superintendentes viriam em seguida, o superintendente em Pernambuco. Sem que me fosse apresentada uma razão, uma causa para realizar esses tipos de substituições.”

“Ontem conversei com o presidente, falei que seria interferência política, ele disse que seria mesmo. Falei que isso teria impacto para todos, que seria negativo. Mas, para evitar uma crise durante uma pandemia – não tenho vocação para carbonário, acho que é momento inapropriado para isso – eu sinalizei: ‘vamos então substituir o [Maurício] Valeixo por alguém que represente a continuidade dos trabalhos, um perfil absolutamente técnico, mas uma sugestão minha. Na verdade, nem minha da própria PF.”

“O presidente tem preferência por nomes que seriam da indicação dele. Não sei quais exatamente. O problema é: por que trocar?”

“O presidente me disse mais de uma vez, expressamente, que ele queria ter uma pessoa de contato pessoal dele, a quem pudesse ligar, colher informações, colher relatórios de inteligência, seja diretor ou superintendente. Não é papel da PF prestar esse tipo de informação. As informações tem de ser preservadas. Imagine se na Lava Jato, o ministro da Justiça, a presidente Dilma ou ex-presidente Luis [Inácio Lula da Silva] ficassem ligando para o superintendente em Curitiba para colher informações sobre a investigação em andamento.”

“É algo que entendi inapropriado. O grande problema não é quem entra, mas por que entra.”

“Claro que, depois de tantas pressões para ele [Valeixo] sair, ele manifestou a mim que era melhor sair, mas nunca voluntariamente, sim decorrente dessa pressão que, ao meu ver, não é apropriada.”

“Eu não assinei o decreto [de exoneração]. Em nenhum momento eu fui comunicado. Ele me ligou dizendo que sairia um decreto de exoneração a pedido, e ele disse que não poderia fazer nada. O fato é que não existe nenhum pedido feito de maneira formal. Fui surpreendido, achei que isso foi ofensivo.”

“O presidente me falou que tinham inquéritos no STF e que a troca também seria por esse motivo. Isso não é motivo para troca e gera grande preocupação.”

“Enfim, eu sinto que tenho o dever de tentar proteger a PF. Por todos esses motivos, busquei solução alternativa, para evitar uma crise política durante a pandemia. Acho que o foco tinha que ser a pandemia, mas entendi que não posso deixar de lado meu compromisso com o estado de direito.”

“Acabou que tem sinalização de que o presidente não me quer no cargo.”

“Eu tive outras divergência, assim como dei apoio em outras circunstâncias. Como ministro, tentei preservar a questão da hierarquia. Não vou falar aqui das divergências, fica para outra ocasião.”

“Meu entendimento é que não tinha como aceitar essa substituição. Há uma questão da minha biografia como juiz, da lei, do respeito, da impessoalidade no trato com as coisas. Seria um tiro na Lava Jato se houvesse substituição de delegados, superintendes
naquela ocasião. Não me senti confortável. Tenho que preservar minha biografia, mas acima de tudo tenho que preservar o compromisso que tinha com o presidente, para combater corrupção, crime organizado e crimes violentos.”

“É certo, ele [Bolsonaro] tem competência, ele indica o diretor da PF, mas ele assumiu o compromisso comigo de que seria escolha técnica, que eu faria essa escolha. Não tem causa consistente [para troca]. Percebendo que essa relação política pode levar a relações impróprias entre o presidente e o superintende e o diretor-geral, é algo que eu não posso concordar.”

“Vou empacotar as minhas coisas e providenciar minha carta de demissão. Não tenho como persistir no trabalho sem preservar a autonomia da PF ou sendo forçado a sinalizar concordância com interferência política na PF, cujos resultados são imprevisíveis.”

“Vou procurar mais adiante um emprego. Não enriqueci no serviço público, nem como magistrado nem ministro. Quero dizer que, independente de onde eu esteja, sempre vou estar à disposição do País para ajudar onde quer que seja.”

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Redação GGN

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