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Conheça Isidoro Gamarra Ramírez, lendário operário que inspirou livro de escritor peruano

A chegada da ditadura de 48 levou Gamarra para atrás das grades. Em meados dos anos cinquenta, Isidoro saiu da prisão mais fortalecido e consciente

Gustavo Espinoza M.
Diálogos do Sul Global
São Paulo (SP)

Tradução:

Recentemente escrevi um livro, ainda não publicado, cujo título é “Uma vida difícil”. Busquei, através de suas páginas, apresentar a trajetória vital de Isidoro Gamarra Ramírez, o lendário operário da construção que chegou aos mais altos cargos sindicais em um país atravessado por duros confrontos de classe e pelo qual travou infatigáveis batalhas à procura de elevado ideais. 

Isidoro nasceu em 2 de janeiro de 1907, no que se denominava então “as terras cativas” – a província de Tarapacá – arrebatadas pelo vizinho do sul após os cruentos anos da “Guerra do Pacífico”. 

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Foi esse um ano marcado pelo drama. Onze meses mais tarde, no mesmo lugar, e na Escola Santa Maria de Iquique, foram assassinados três mil operários entre peruanos, bolivianos e chilenos porque organizaram uma greve e uma marcha de sacrifício para demandar aumentos para os trabalhadores do Salitre.

Esse horrendo crime passou para a história do movimento operário chileno, mas em nosso país foi sentido pouco. Em definitivo, não havia brotado ainda entre os nossos o sentimento internacionalista e – além do mais – os anônimos peruanos que caíram ali já estavam distantes da pátria. 

Não ocorria isso com a família de Isidoro, cujos pais o registraram como peruano e o enviaram a um colégio no qual aprendeu as primeiras letras sofrendo a humilhação do vencido. 

A chegada da ditadura de 48 levou Gamarra para atrás das grades. Em meados dos anos cinquenta, Isidoro saiu da prisão mais fortalecido e consciente

Reprodução
Isidoro Gamarra Ramírez, o lendário operário da construção que chegou aos mais altos cargos sindicais.

Provavelmente por isso retornou à pátria em 1918 quando tinha 11 anos, e começou aqui uma vida nova, modesta mas limpa. Ela o levou aos 15 anos a trabalhar como operário da construção nesta Lima que se recuperava laboriosamente e que pouco depois seria cenário de um processo de modernização alentado por Leguia. 

A “Pátria Nova” era para os trabalhadores a mesma exploração de antes e se traduzia em um incremento dos níveis de miséria e desocupação. Por isso cresceram as lutas sociais que, em 1919, arrancaram a jornada de 8 horas que foi complementada por outras conquistas operadas pelo esforço de anarco- sindicalistas e socialistas. Naqueles anos a mensagem de José Carlos Mariátegui começava a chegar a multidões. 

Em 1930, ainda em vida do Amauta, Isidoro chegou à sua casa acompanhado de alguns líderes sindicais anarquistas, mas não ingressou. Pesaram nele os preconceitos estimulados por aqueles que não compreendiam ainda a transcendência da mensagem de Mariátegui. Mas a sua morte – ocorrida em abril desse ano – e seus concorridos funerais, impactaram de tal modo a consciência de Isidoro, que logo se tornou socialista. 

Gamarra esteve assim entre os que nos anos 30 do século passado assumiram uma linha de combate. Participou em greves e marchas, em mobilizações e conflitos e se tornou um orador qualificado, expondo em ruas e praças a causa do operário. 

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E em 1935 esteve entre os que proclamaram sua vontade de “voltar a Mariátegui” a partir de uma luta combativa. Estimulou assim a celebração do 1º de maio como era feita em outras latitudes, com uma paralização e mobilizações ativas. O desenlace foi funesto. Isidoro e seus companheiros acabaram na Intendência de Lima, que era a prisão da época. Ali, com Jorge del Prado, Asunción Caballero e outros, Isidoro traçou planos para reativar e fortalecer o movimento operário. 

Isso iniciou um período de luta concreta pela unidade e pela organização sindical. Seu produto se tornou concreto em 1º de maio de 1944, quando diante da tumba de Mariátegui foi criada a Confederação de Trabalhadores do Peru, que buscou recolher as bandeiras da antiga CGTP fundada em 1929. Mas essa primavera durou pouco. 

A chegada da ditadura de 48 levou novamente Gamarra para atrás das grades. Mas deste vez, aos golpes se somaram as torturas. Poderíamos dizer que Gamarra foi o preso mais torturado da época, mas também o que teve o comportamento mais digno e altivo. 

Em meados dos anos cinquenta, Isidoro saiu da prisão mais fortalecido e consciente. E dedicou seu esforço à recomposição da estrutura sindical dos trabalhadores da construção duramente golpeada. 

Mas não se tratava apenas de recuperar algumas siglas gloriosas, mas sim dotá-las de uma mensagem de classe. E isso foi possível em dois processos: a recuperação da Federação e a construção de uma alternativa unitária para os trabalhadores: a CGTP. 

O primeiro ocorreu em 1959 e o segundo em dois momentos, em 1966 quando se criou – sob sua presidência – o Comitê de Unidade Sindical (CDUS), e em 1968 quando renasceu de suas cinzas a Central de Mariátegui, a CGTP.

Foi esse o período mais difícil e complexo de sua vida. Mas o que lhe permitiu entregar o melhor de si mesmo. Em sua essência, Isidoro foi um construtor, um mestre ferreiro, ou seja, o que construía a partir do ferro, sobre bases muito sólidas. Por isso fez da CGTP uma estrutura inexpugnável. 

A partir dali a vida de Gamarra foi marcada pela coragem. Depois de anos de infatigável trabalho, Isidoro se foi às 7h30 da noite de 30 de março de 1999. Virtualmente cobriu o século. 

Ao ir embora deixou uma lembrança inapagável, quase uma lenda, mas também uma mensagem de classe que deveria ser recuperada pelas novas gerações de trabalhadores. 

Recordando-o se poderia evocar um escritor norte-americano, Truman Capote, que disse de seu personagem que partiu: “foi para as árvores, de volta para casa, deixando para trás o amplo céu, o sussurro das vozes do vento no trigo curvado”. E é assim a voz de Isidoro, nos chama sempre.

*Colaborador de Diálogos do Sul, de Lima, Peru.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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