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Conquista ao contrário: Zapatistas navegam rumo à Europa para denunciar males que capitalismo causa nos 5 continentes

Em uma travessia de oito semanas, o Exército Zapatista de Libertação Nacional pretende denunciar os 500 anos de exploração e massacre dos povos nativos

Beatriz Contelli
Diálogos do Sul Global
São Paulo (SP)

Tradução:

“Com tiros de arcabuz, golpes de espada e hálitos de peste, acometiam os escassos e implacáveis conquistadores da América. Assim conta a voz dos vencidos. Depois da matança de Cholula, Montezuma enviou novos emissários ao encontro de Hernán Cortés, que avançava rumo ao vale do México…”

Há exatos 50 anos, Eduardo Galeano expunha aos leitores, com uma linguagem direta e sem floreio, o processo violento de saqueamento e assassinato em massa das populações nativas da América que marcou a chegada dos europeus em nosso território.

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Liderado por Hernán Cortés, o Massacre de Cholula — localizado próximo ao que conhecemos hoje como Cidade do México — foi apenas um dos diversos massacres da população asteca realizados pela corte espanhola. Com armamentos muito superiores em comparação aos nativos e carregando consigo uma série de doenças, a vitória espanhola foi inevitável.

9ab143f0 968f 47de afc9 796431f74d12Comandantes e Subcomandantes se despediram da tripulação que partiu rumo à Europa | Foto: Reneración Radio

Pouco mais de 500 anos após um dos maiores genocídios da história da humanidade, o México daria à luz a mais uma revolução com um grupo nascido do povo e destinado à libertação do povo. 

A Revolução Mexicana de 1910, encabeçada por Emiliano Zapata e Pancho Villa, inspirou o surgimento, em 1994, do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), que com uma base formada por indígenas chiapanecos, passou a reivindicar eleições democráticas, terra, trabalho, moradia, alimentação, educação, saúde, liberdade e paz.

Exército Zapatista de Libertação Nacional

O estopim da Revolução e o surgimento do EZLN têm bases comuns e se confundem ao longo da história mexicana. Seja o adiamento da reforma agrária, a privatização de setores estratégicos, a ditadura de Porfírio Díaz, a péssima condição de vida da população camponesa, a venda das terras de direito dos povos indígenas, ou o aprofundamento da política neoliberal do NAFTA, o fato é que pouco mudou no intervalo de 84 anos no país.

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Herdando a violência de seus colonizadores espanhóis, o governo mexicano — auxiliado pelas forças armadas e grupos paramilitares — interferiu violentamente nas comunidades de Chiapas, no Sul do país, como forma de desestabilizar e colocar fim no movimento zapatista. Aos que pensaram ou desejaram que o EZLN encerrasse suas atividades, lamento informar, mas foi o oposto que aconteceu.

20670a0f 2d5d 4cb6 992c ef1ae7d7a6e5Desde 1994 zapatistas insistem que o capitalismo está destruindo o plantea | Foto: Reneración Radio

A guerrilha não só denunciou o histórico processo de submissão e descaso com os povos indígenas mexicanos, como foi um dos primeiros movimentos a usar a internet como ferramenta de divulgação e aglutinação política. 

Com mais de 25 anos de existência, os territórios autônomos zapatistas consolidam-se por meio de escolas que preparam as crianças e a juventude para a revolução, organizam estruturas produtivas tipicamente indígenas e demonstram que, ao contrário do que a ideologia colonial propaga, de politicamente incapaz os povos nativos não têm nada.

Rumo à Europa contra o capitalismo

No dia 26 de abril deste ano, sete integrantes do Exército Zapatista de Libertação Nacional embarcaram rumo à Europa para visitar trinta países onde se encontrarão com movimentos anticapitalistas.

No ano passado, o EZLN informou que o objetivo da viagem é denunciar os males causados pelo capitalismo, incluindo a violência contra as mulheres, o genocídio contra os povos originários, o racismo, o militarismo e a exploração, espoliação e destruição da natureza.

O Esquadrão 421, formado por quatro mulheres, dois homens e uma pessoa não binária, assim como o restante da tripulação, passaram os últimos dias isolados para se certificar de que nenhum deles estivesse infectado com a covid-19.

Em uma travessia de oito semanas, o Exército Zapatista de Libertação Nacional pretende denunciar os 500 anos de exploração e massacre dos povos nativos

@VIM_Media
Desenho ilustra tripulação zapatista na embarcação "Montanha", que navega rumo à Europa

As quatro embarcações foram construídas e pintadas por mãos indígenas do próprio EZLN e representam figuras de rostos infantis e escritos de “No soy Niña” em referência a um dos três navios usados por Colombo. 

3238941b810105032243672139f1a134 fe5908041b8981e00f5e1b6bfebfb7a0Viagem está sendo acompanhada com atenção pelos latino-americanos | Foto: 

@RaulRomero_m

No dia do embarque, em Chiapas, dezenas de mulheres e homens protestaram com cartazes: “Mais de 500 anos de humilhação e desprezo, mas aqui estamos”; “Viva nossa origem das raízes maias”; “Viva os camaradas da delegação zapatista!”; “Sementes que carregamos, sementes que deixamos, sementes germinarão!” 

Uma das embarcações apresenta a palavra “Despertad!” (Despertem) em alusão aos outros povos colonizados e oprimidos pelos espanhóis.

64e13aed 2983 4fb4 8ae3 83defaf99a49Embarcação, chamada “Montanha”, parte com Esquadrão 421 | Foto:  

@radiozapatista

Segundo o subcomandante Galeano, anteriormente conhecido como Marcos, a viagem se trata de uma travessia pela vida que será firmada com festas, canções e danças. Galeano ainda reforçou que o esquadrão está preparado caso sejam proibidos de desembarcar por motivos de covid-19, discriminação ou chauvinismo.

Estima-se que o EZLN chegará à costa europeia na segunda metade do mês de junho, em uma travessia de seis a oito semanas. Além da Espanha, o esquadrão pretende visitar a Alemanha, a Dinamarca, a França, a Itália, a Rússia, o Reino Unido, entre outros países.

 “¡Semillas llevamos, semillas dejamos, semillas germinarán!”.

048a8730 3efe 439e 97f5 095d8b2979dfEmbarcação “Montanha” em auto mar | Foto: @ZapatistaOrg


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

Beatriz Contelli

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