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Conselho de guerra contra quem revelou os crimes de guerra

Revista Diálogos do Sul

Tradução:

tortura irakCarlos Enrique Bayo*

Conselho de guerra contra quem revelou crimes de  guerra dos Estados Unidos … para que continuem impunes. Estamos assistindo em Maryland a maior burla da Justiça internacional que se tenha encenado nos tempos modernos.

Nas instalações militares de Fort Meade se realiza um conselho de guerra sem precedentes: o processo contra o soldado Bradley Manning, que já leva três de seus 25 anos de idade preso em confinamento solitário e enfrenta uma prisão perpétua até a morte, sem liberdade condicional possível, por ter revelado que o exército dos EUA tinha cometido crimes de guerra. Ao mesmo tempo, como o verdadeiro objetivo dessa corte marcial, que se arroga defensora das leis, é encobrir esses crimes de lesa humanidade, os que cometeram esses horrendos assassinatos e torturas – violando os tratados de Direito Internacional subscrito por Washington – estão sendo tratados com iníqua clemência, inclusive protegidos pelos que se proclamam guardiões da Justiça.

Não foi processado nenhum dos militares desmascarados pelo vídeo conhecido como “Assassinato Colateral”; o fuzilamento com metralhadora, de um helicóptero Apache, na Nova Bagdá,  em 12 de julho de 2007,  de um fotografo de Reuters ferido e dos civis que tratavam de ajuda-lo, que resultou na morte de dezenas de pessoas (incluindo o fotografo e outro jornalista da mesma agência britânica) e feriu gravemente a muitas outras pessoas, entre elas duas crianças. Essa foi a primeira grande infiltração de WikiLeaks e as imagens filmadas já foram vistas no YouTube mais de 13,7 milhões de vezes.

Nenhum dos soldados que amarraram e depois assassinaram a sangue frio a toda uma família iraquiana, inclusive mulheres e bebes, foram levados à justiça.

O sargento dos fuzileiros navais Frank Wuterich, que ordenou o massacre de Haditha em 2005 (o assassinato em massa de 24 civis, incluindo crianças), não foi condenado nem a um dia de prisão. Nenhum dos fuzileiros que cometeram esse crise atroz foi seguir imputado.

O sargento Calvin Gibbs, cabeça do infame “Kill Team”- que se dedicou a assassinar civis desarmados e guardar seus membros mutilados como lembrança, no Afeganistão, é o único criminoso de guerra que está preso, porém poderá desfrutar da condicional em menos de dez anos.

Por outro lado, Manning jamais poderá ser livre novamente, segundo decidiram de antemão as forças armadas dos EUA… ja que o comandante em chefe de todos os Exército estadunidense, o presidente Barack Obana, já decretou, em abril de 2011, que o jovem soldado “violou a lei”. Como se essa sentença prévia ao julgamento não bastasse, o general Martin Dempsy, presidente da Junta de chefes de Estado Maior, repetiu esse mesmo veredito em março de 2012. Qual será o ditame dos oficiais que compõem o tribunal militar de Fort Meade?

Porém, por que motivo o Pentágono, a Agência Nacional de Segurança (NSA) e a Casa Branca mobilizaram todos seus recursos contra o WikiLeaks? Por que será que estão dispostos a provocar um escândalo internacional com esse arremedo de julgamento sem as mínimas garantias processuais exigidas pela própria constituição dos EUA?

A resposta é simples: porque a superpotência que se autoproclama berço da democracia moderna e baluarte de todas as liberdades  foi flagrada com as mãos na massa dos mais horrendos crimes de lesa humanidade e se dispõe a executar um castigo exemplar sem precedentes contra Manning e Julian Assange (o criador de WikiLeaks) para que ninguém mais se atreva a revelar que os EUA cometem violações dos direitos humanos tão brutais como os que eles nos permitiram conhecer:

–       A Casa Branca mantém uma política oficial de ignorar e encobrir a prática generalizada de torturas no Iraque que George Bush ordenou invadir e ocupar, como demonstram os Iraq War Logs revelados por WikiLeaks: a ordem executiva Frago 242 ditada em 2004 dispôs que não se investigasse nenhuma das evidências dos atrozes tormentos (inclusive a perfuração de membros com brocas elétricas) cometidos pele regime iraquiano imposto pelas tropas de ocupação dos EUA. Essa “ordem fragmentária” que vincula diretamente o Pentágono com os centros de tortura no Iraque constitui uma violação flagrante da Convenção da ONU contra a tortura que os EUA ratificou em 1994.

–       A maioria das centenas de prisioneiros recluídos no presídio ilegal de Guantánamo desde sua criação em 2002 é constituída de réus inocentes ou militantes islâmicos de segunda linha. Os Guantánamo Files publicados por WikiLeaks descrevem como os presos foram detidos sem provas, por meras suspeitas subjetivas, de tal forma que o que se lhes imputava não seriam admissíveis por nenhum tribunal dos EUA. Tanto é que o Departamento de Estado ofereceu milhões de dólares para que outros países encarcerassem os prisioneiros de guerra capturados pelo exército estadunidense.  Washington atuou para bloquear as denúncias judiciais formuladas pela  Associação pró Dignidade de Presos e Presas de Espanha contra os que criaram o marco legal que permitiu a tortura em Guantánamo de cinco réus de nacionalidade espanhola, e inclusive ameaçou ao governo com graves consequências para as relações bilaterais.

–       As administrações de Bush e de Obama estiveram mentindo à opinião pública estadunidense e mundial ao reiterarem que nunca existiu uma contagem oficial de civis mortos nas guerras do Iraque e Afeganistão. Entre 2004 e 2009, o governo estadunidense enumerou um total de 109.000 mortos no Iraque dos quais classificou como “não combatentes” a 66.081. Portanto, para cada um dos iraquianos que o Pentágono catalogou como “combatentes” mortos, pereceram duas mulheres, crianças, anciãos ou civis totalmente inocentes nas ações armadas desencadeadas pelos EUA. Washington continua negando a evidência do que fez e faz, esses cálculos; e que portanto é plenamente consciente da dimensão do massacre que está perpetrando.

–       Torturadores contumazes do regime egípcio de Hosni Mubarak receberam treinamento em técnicas de interrogatório de prisioneiros na Academia do FBI da base dos Marines em Quantico (Virginia), uns 65 quilômetros ao sul de Washington DC. Um telegrama diplomático estadunidense enviado do Cairo em novembro de 2007 explica que o chefe do terrível State Security Investigative Service (SSIS) do Egito, Abdul Rahman, agradeceu ao então vice-diretor do FBI, John Pistole, a “excelente e forte” cooperação entre as duas agências, enfatizando que as sessões de treinamento de seus homens foram de “grande ajuda”. Dois anos depois, outro telegrama diplomático dos EUA reconhecia que um departamento especial do SSIS, criado depois do treinamento de Quantico, tinha torturado selvagemente a centenas de opositores detidos.

–       A partir de 2009, o presidente Obama autorizou uma campanha secreta de bombardeios por aviões robôs em Iêmen que causou centenas de mortes de civis inocentes. Um ano depois, WikiLeaks revelava que o ditador iemenita Alí Abdullah Saleh tinha selado um pacto com Washington: “Seguiremos dizendo que as bombas são nossas, não vossas”. Outro telegrama diplomático confirmava as averiguações de Anistia Internacional de que um só desses mísseis teleguiados desde EUA por militares estadunidenses, em 17 de dezembro de 2009, provocou a morte a 41 pessoas, inclusive 21 crianças e 14 mulheres.

Poder-se-ia continuar enumerando bárbaros crimes de lesa humanidade cometidos pelos serviços secretos e os militares dos EUA sob instruções e ao amparo das mais altas instituições do Estado desse país, que tem sido reveladas graças às infiltrações do WikiLeaks. Porém o mais relevante para a história é que toda a maquinaria governamental de Washington tem se dedicado a perseguir implacavelmente aos que deram à luz essas gravíssimas violações dos direitos humanos, enquanto encobre e protege os que as cometeram.

*Diretor de Público.es. Foi redator-chefe de Internacional na edição papel desse diário. Foi correspondente em Moscou (1987-1992) e em Washington (1992-1996),  bem como editor de internacional em cinco diferentes jornais. 


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

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