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Foto: US Campaign for Palestinian Rights / X

Consolidados nos EUA, movimentos pró-Gaza questionam Biden: “Quantas crianças matou hoje?”

Onda de solidariedade aos palestinos e contra apoio da Casa Branca a Netanyahu tem sitiado de maneira pacífica, mas feroz, a cúpula política do país
David Brooks
La Jornada
Nova York

Tradução:

Beatriz Cannabrava

A Palestina está presente em todos os Estados Unidos, com ativistas obstaculizando os caminhões de distribuição do New York Times nesta madrugada (14), até interrupções constantes do presidente e deputados em quase todos eventos públicos, acusando-os de cumplicidade com Israel, entoando Hey Joe, não pode se esconder, te acusamos de genocídio” e Hey hey, ho ho, quantas crianças você matou hoje?. Além de atos de protesto nas ruas e diante das urnas, uma onda de solidariedade e oposição à guerra de Israel tem sitiado de maneira pacífica, mas feroz, a cúpula política do país.

Em 14 de março, a evidência mais contundente de que estas ações conseguiram fraturar a narrativa oficial dos dois partidos de apoio incondicional a Israel foi que o líder democrata do Senado, o político judeu de cargo mais alto no país, Chuck Schumer, fiel defensor de Israel, se viu obrigado a distanciar-se publicamente do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, e instou os israelenses a mudar sua liderança com novas eleições – embora, ao mesmo tempo, seguia promovendo a aprovação de um novo pacote de assistência militar a esse país.

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As expressões de protesto contra a política estadunidense de apoio incondicional a Israel, em uma guerra na qual já matou mais de 31 mil civis em Gaza, estão se convertendo em um movimento. “Os ativistas nos Estados Unidos, que estão apelando a Biden repensar suas políticas Israel-Palestina, estão manejando um movimento de protesto muito inteligente, usando táticas que estão construindo ímpeto para sua causa e incrementando a insatisfação com o manejo desse tema pela Casa Branca”, escreveu o analista Perry Bacon no Washington Post.

Agora, em quase todos os eventos públicos do presidente Biden, seu discurso é interrompido por manifestantes exigindo um cessar-fogo, algo que se registra até nas transcrições oficiais da Casa Branca.

Cerimônia do Oscar

Na cerimônia televisada do Oscar, em 10 de março, Jonathan Glazer, diretor do filme “Zona de Interesse” (2023) sobre o campo de concentração nazista em Auschwitz, gerou uma ovação quando, ao receber o prêmio de Melhor Filme Internacional, declarou em nome dos produtores que se trata de um filme que examina a desumanização. “Agora mesmo, estamos aqui como homens que refutam que seu judaísmo e o Holocausto sejam sequestrados por uma ocupação que levou tanto conflito para tanta gente inocente, sejam as vítimas de 7 de outubro em Israel ou o ataque contínuo em Gaza… Como resistir?”

Estas expressões de protesto continuam nos locais de votação, onde mais de 55 mil eleitores na primária democrata do estado de Washington na semana passada selecionaram “não comprometido” para enviar sua mensagem de oposição ao apoio incondicional do governo de Biden à guerra de Israel em Gaza. Isto foi resultado de uma campanha impulsionada pelo sindicato estadual dos professores e de trabalhadores de alimentos (UFCW), Vozes Judaicas pela Paz e os Socialistas Democráticos da América (DSA), esforço que gerou dezenas de milhares de votos de protesto em outros estados que realizaram primárias nas últimas semanas.

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Nilu Jenks, um iraniano-estadunidense e ex-integrante do Conselho da Cidade de Seattle, escreveu, em um jornal local, que “o movimento dos delegados não comprometidos à convenção nacional democrata está oferecendo a Biden uma oportunidade de escutar diretamente aos eleitores para entender o trabalho que tem que fazer para obter seus votos através da nação”. Acrescentou que “sem uma mudança em tom e política, Biden arrisca-se a tornar-se um presidente de um só período simplesmente porque não respondeu às demandas do povo estadunidense”.

Nesta quinta-feira (21), altos funcionários da Casa Branca se reuniram com líderes árabe-estadunidenses, muçulmanos e palestinos para explicar suas políticas, mas alguns dos líderes – tal como sucedeu anteriormente – se recusaram a participar por sua ira com a atual política de lançar assistência humanitária de aviões enquanto continua fornecendo bombas estadunidenses a Israel para lançar sobre Gaza. Uma das que recusou o convite é Vivian Khalaf, presidente do fundo humanitário para crianças palestinas, o Palestine Children’s Relief Fund, que comentou à CNN que “sob as condições atuais, por cada vida que salvamos ao lançar alimentos, pelo menos mais 10 são assassinados pelas bombas que caem. Eu sei, porque estou vivendo cada dia através da organização que encabeço”.

Demandas por um cessar-fogo

Continua sendo notável – alarmante para Israel e muitos de seus aliados em Washington – que as demandas de um cessar-fogo sejam promovidas por uma ampla gama de agrupamentos, incluindo muitos judeus, sobretudo jovens, com seus companheiros árabe-estadunidenses, reverendos afro-estadunidenses e outros. Na noite em que o presidente ofereceu seu informe anual à nação ante o Congresso, manifestantes em Washington atrasaram sua chegada ao obstaculizar a rua que levava seu comboio ao Capitólio.

Em Chicago, a organização “Vozes Judaicas pela Paz” fez uma vigília de 24 horas. Além disso, explodiram protestos em frente à sede da empresa Google acusando-a de lucrar com negócios com o governo israelense, e nos últimos dias os acessos às salas do aeroporto de San Francisco foram bloqueados, entre outras ações incessantes ao redor do país demandando um cessar-fogo em Gaza.

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A grande escritora Arundhati Roy, colaboradora do La Jornada, declarou recentemente a partir da Índia que “a geração jovem no mundo ocidental, particularmente a nova geração de pessoas fugidas nos Estados Unidos, superaram a lavagem cerebral e a propaganda e tem reconhecido o conflito em Gaza como apartheid e genocídio. Os governos dos países mais poderosos do mundo ocidental perderam sua dignidade e qualquer respeito que poderiam ter tido. Mas os milhões de manifestantes nas ruas da Europa e dos Estados Unidos são a esperança pelo futuro do mundo”.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul.
David Brooks Correspondente do La Jornada nos EUA desde 1992, é autor de vários trabalhos acadêmicos e em 1988 fundou o Programa Diálogos México-EUA, que promoveu um intercâmbio bilateral entre setores sociais nacionais desses países sobre integração econômica. Foi também pesquisador sênior e membro fundador do Centro Latino-americano de Estudos Estratégicos (CLEE), na Cidade do México.

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