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Contra o que protestam os argentinos que votaram em Milei?

Outsider candidato à presidência da Argentina arrebatou 30% dos votantes no último dia 13
Jorge Rendón Vásquez
Diálogos do Sul
Lima

Tradução:

A Argentina tem a taxa mais alta de psicanálise da América. Se psicanalisam todos e até os mascotes. Parte desta terapia são os sketchs políticos que costumam apresentar alguns teatros de Buenos Aires. Estão cheios e os espectadores riem pra valer. Mas, se saem curados destas sessões individuais e coletivas é outra questão.

Agora, na Argentina encontraram outro modo de psicanalisar-se. Alguém  criou um personagem que lembra a Medusa da mitologia grega: um candidato à presidência da República apresentado nas Primárias, cujas ideias parecem estar em sua abundante cabeleira, hirsuta, desordenada e estrambótica. E impactou, pelo menos 30% dos votantes que o aprovaram com um sorriso de satisfação.

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Não é raro que muitos cidadãos ajam assim. Não têm outro modo de manifestar sua inconformidade com a forma como é conduzido o Estado e o governo, com uma situação que lhes parece absurda. No final da década de 80 do século passado, uma parte dos eleitores italianos, fartos dos partidos políticos, levou à Câmara dos Deputados Cicciolina, uma atriz erótica de segunda. No Brasil tiveram mais humor: em 1958, o rinoceronte Cacareco ganhou uma eleição municipal em São Paulo.

Contra o que protestam os argentinos que deram seu voto a Milei?

Não é para menos. O dólar sobe a cada dia uns quantos pesos. O dólar blue, o da rua, o da oferta e da procura, está agora a 720 pesos. Há um ano estava a 260. Portanto, todos os preços sobem nesta proporção. No Peru sabemos o que é isto, porque o Apra e Alan García nos meteram nesta fatídica espiral entre 1985 e 1990.

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Outsider candidato à presidência da Argentina arrebatou 30% dos votantes no último dia 13

Foto: Reprodução/Twitter
Eleitores, tendo feito sua terapia com Milei, votarão em quem lhes prometa que as coisas continuarão como sempre

Como não são suficientes para o Estado argentino as entradas programadas, o governo e o Banco Central emitem todos os dias notas nacionais sem respaldo e sem que ninguém os contenha, e com elas paga seu pessoal e seus gastos.

Nem o Peronismo, nem o Macrismo puderam nem se atreveram a parar estas emissões inorgânicas de dinheiro.

Leia também: Javier Milei: como outsider a favor da venda de órgãos foi destaque nas primárias da Argentina

Claro, a pergunta que surge é: e por que o Estado argentino gasta acima do que pode arrecadar com impostos e tem que emprestar dinheiro?

A resposta é simples: porque subsidia uma série de bens de consumo geral: petróleo, gás, eletricidade, passagens, certos serviços públicos etc., subsídios que beneficiam a todos, ricos e pobres por igual. Conclui-se que ninguém na Argentina tem intenção de pagar o custo real dos bens e serviços subsidiados. E os eleitores, tendo feito sua terapia com Milei, votarão em quem lhes prometa com seus discursos, metáforas ou silêncio que as coisas continuarão como sempre.

Resultado, o show deve continuar.

Jorge Rendón Vásquez | Colunista na Diálogos do Sul direto de Lima, Peru.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Jorge Rendón Vásquez Doutor em Direito pela Universidad Nacional Mayor de San Marcos e Docteur en Droit pela Université de Paris I (Sorbonne). É conhecido como autor de livros sobre Direito do Trabalho e Previdência Social. Desde 2003, retomou a antiga vocação literária, tendo publicado os livros “La calle nueva” (2004, 2007), “El cuello de la serpiente y otros relatos” (2005) e “La celebración y otros relatos” (2006).

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