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Coronavírus provoca marchas de trabalhadores migrantes de volta às aldeias na Índia

A grande maioria destes indianos trabalham sem nenhuma proteção legal, no setor informal, sem benefícios de seguridade social, nem redes de segurança
Alfredo Boada Mola
Prensa Latina
Nova Delhi

Tradução:

Na Índia, milhões de trabalhadores migrantes, que ganham seu sustento diariamente, abandonam as cidades em longas marchas de centenas de quilômetros para suas aldeias, depois do fechamento decretado para deter a cadeia de contágios da Covid-19.

A paralisação abrupta das obras, fábricas, granjas, oficinas, lojas e outros lugares em que antes trabalhavam, por causa da pandemia, significa a perda dos empregos e o obrigatório retorno à casa.

Esta migração inversa se realiza em meio a uma cruel apatia – por culpa do novo coronavírus? – o que notam as pessoas com consciência na Índia.

O último censo de 2011 revelou que 139 milhões de indianos emigraram entre 2001 e 2011; 10% em busca de empregos, segundo o site News Click.

A grande maioria destes migrantes trabalham sem nenhuma proteção legal, no setor não organizado, sem benefícios de seguridade social, nem economias, nem redes de segurança.

Agora abandonam os grandes centros urbanos levando só o essencial, talvez sua roupa, um pouco de comida e o resto do dinheiro. Aliás, a carga deve ser suficientemente leve para poder ser carregada nos ombros ou na cabeça.

Alguns vão com suas famílias e seus filhos pequenos. Mulheres levam sacolas ou fardos de tecido que balançam sobre suas cabeças, como sempre fizeram com as pesadas cargas de materiais de construção ou vegetais.

Escapam das metrópoles para tratar de salvar suas vidas da ameaça representada pela pandemia do novo coronavírus, enquanto ainda tem energia para caminhar longas distâncias.

Esta população flutuante de trabalhadores migrantes – homens, mulheres e crianças -, tem um caminho muito difícil pela frente. Não importa que deambulem por novas autopistas de nível internacional, pois regressam a suas aldeias desencantados, agora sem salário diário; e no momento já não podem alimentar seus pais e seus filhos.

E quando chegarem a suas casas, no pior dos casos poderão até contaminar seus entes queridos se se contagiaram com o vírus durante o longo e difícil trajeto.

São os mais afetados pelo fechamento sem precedentes decretado em todo o país pelo primeiro ministro Narendra Modi.

Com os serviços de trem e ônibus bruscamente cancelados, outros trabalhadores e suas famílias estão parados em cidades como Delhi e Mumbai.

Com os estados fechando as fronteiras, a tarefa de voltar para casa fica mais difícil. Há casos de caminhões com contêineres repletos de trabalhadores migrantes que foram apreendidos nas fronteiras estaduais.

Além dos trabalhadores migrantes, os do setor não organizado e os pobres das zonas rurais, assim como os sem teto e os habitantes dos bairros periféricos não podem praticar o necessário distanciamento social solicitado pelas autoridades, pois tem que viver em refúgios abarrotados ou em moradias de um único quarto.

A grande maioria destes indianos trabalham sem nenhuma proteção legal, no setor informal, sem benefícios de seguridade social, nem redes de segurança

Prensa Latina
O último censo de 2011 revelou que 139 milhões de indianos emigraram entre 2001 e 2011

Críticas ao pacote econômico governamental

A ministra de Finanças da Índia, Nirmala Sitharaman, anunciou a distribuição de cinco quilos de trigo ou arroz e um de legumes grátis mensais no próximo trimestre (abril-maio-junho) a 800 milhões de pobres para enfrentar a Covid-19.

A iniciativa faz parte de um pacote econômico de ajuda de 22 bilhões de dólares para superar o impacto do encerramento devido à epidemia do novo coronavírus SARS-Cov-2 no país do Sul da Ásia.

A ministra anunciou também uma cobertura de seguro por três meses para os médicos, paramédicos, trabalhadores da saúde e sanitaristas que combatem o novo surto.

No entanto, o plano recebeu muitas críticas. O secretário geral do Partido Comunista da Índia (marxista), Sitaram Yechury, disse que este pacote do governo para a pandemia é inadequado.

Afirmou que não há tempo a perder, e que não houve nenhum planejamento do Governo nacional antes de declarar um bloqueio em todo o país, apesar das advertências de dois meses atrás.

Indicou também que não é o momento para preocupar-se com o “déficit fiscal”, pois a prioridade é salvar vidas humanas e derrotar a pandemia. Alertou que o pacote anunciado não inclui o tema crucial dos trabalhadores migrantes que regressam a seus próprios estados.

E, ainda, que o anúncio de dar 1.000 rúpias (15 dólares) às viúvas idosas e aos incapacitados significa muito pouco, pois eles necessitam de ajuda e assistência para seguir com suas vidas.

Segundo o site Indiaspend, o pacote financeiro para ajudar os cidadãos mais pobres a superar o bloqueio da pandemia da Covid-19 subestima a magnitude do desafio.

A ajuda de 22 bilhões de dólares, que inclui distribuição de grãos alimentícios, transferência de benefícios diretos em dinheiro a mulheres, agricultores e trabalhadores da construção, seguro para trabalhadores da saúde e benefícios para trabalhadores do setor formal, não supõe um aumento real do financiamento e algumas prestações são uma reiteração de planos já existentes.

E permitir que os empregados retirem 75% do montante de seu fundo de garantia, ou o equivalente a três meses de salário, não proporciona financiamento adicional, pois essa quantia não é do governo e sim dos empregados, e a única concessão é permitir a retirada de seu próprio dinheiro.

O pacote não traz tudo o que é necessário para apoiar os pobres e evitar que se aprofunde a atual desaceleração econômica, disse uma nota assinada por 635 economistas, acadêmicos e estudantes.

É menos da metade do necessário para cumprir as medidas de emergência mínimas, escreveram, calculando a quantidade necessária na base do requisito de uma transferência única de sete mil rúpias (quase 100 dólares) para as famílias pobres.

O coronavírus poderia levar fome a Índia

Entretanto, mais da metade da população da Índia não poderá ficar em quarentena em suas casas por muito tempo; e compensá-las custaria cerca de 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB) do país.

A maioria dos empregados ocasionais, dos autônomos e dos diaristas não poderiam observar a quarentena por muito tempo, pois deixariam de ganhar a diária se se aventurassem a não trabalhar, disse um artigo do site de opinião News Click.

Podem continuar em quarentena durante uma semana ou 10 dias, mas se não conseguirem trabalhar de 15 dias a um mês, muitos deles e suas famílias simplesmente morrerão de fome.

Poderia haver distúrbios por comida nos próximos dias na Índia, a menos que o governo nacional faça algo de imediato.

Na Índia, pelo menos 85% da população é praticamente pobre. A maioria deles são trabalhadores por conta própria ou temporários e diaristas. Portanto, é evidente que mais da metade da população não pode ficar em casa muito tempo.

Se o Governo realmente quer controlar a propagação do vírus mediante a aplicação da auto quarentena, tem que transferir dinheiro para este setor vulnerável da população para compensar sua perda de ingressos.

Sem tomar disposições para a indenização em caso de perda de ingressos para a grande maioria da população, pedir-lhes à força que permaneçam em casa e reduzir ao mínimo suas oportunidades de emprego levaria a uma situação similar à fome em um país subdesenvolvido como a Índia.

Na Índia, a maioria da força de trabalho só ganha um salário de subsistência, sem nenhuma rede de seguridade social, e se essa grande massa não obtém nenhuma renda durante um mês mais ou menos, talvez haja distúrbios por alimentos no país.

Para o professor Surendra Singh Nagi, grande conhecedor de temas sociopolíticos, na Índia poderia haver uma grande fome porque muita gente que está imersa na economia informal não terá capacidade de adquirir alimentos para suas famílias.

Alfredo Boada Mola, Correspondente de Prensa Latina na Índia.

Prensa Latina, especial para Diálogos do Sul — Direitos reservados.

Tradução: Ana Corbisier


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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Alfredo Boada Mola

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