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Covid-19 não causará revolução, mas mundo não será o mesmo na pós pandemia, diz Ramonet

A pandemia é apenas uma das consequências da crise climática que o planeta precisa enfrentar antes que seja destruído, como alertou Fidel Castro
Ignacio Ramonet
Granma
Havana

Tradução:

O jornalista, escritor e especialista em comunicação Ignacio Ramonet limitou seus movimentos e, em Havana, com excelente saúde, cumpre as medidas de isolamento social.

No entanto, desse aparente descanso, surgiu um ensaio que já está obtendo qualificações, como uma ferramenta que ajuda a entender as circunstâncias e as consequências do Covid-19 para a humanidade: “Diante do desconhecido… A pandemia e o sistema mundial”.

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Para nos aproximarmos das implicações da doença global na geopolítica mundial e na comunicação social, Ramonet nos ofereceu algumas reflexões.

A pandemia é apenas uma das consequências da crise climática que o planeta precisa enfrentar antes que seja destruído, como alertou Fidel Castro

Foto: Patricia Villegas Puente de Angostu
A pandemia é um desses eventos sociais totais, não é apenas uma crise de saúde

A pandemia como um fato social total

“Eu definiria a atual pandemia como um evento social total. Esse é um conceito das ciências sociais que indica que, às vezes, um fato social tem o poder de perturbar o todo o conjunto dos atores, instituições e valores de uma sociedade.

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Existem poucos eventos sociais totais, mas esta pandemia é um deles, não é apenas uma crise de saúde. A crise é muito maior e a principal questão que se coloca hoje é em que medida o neoliberalismo é responsável por esta tragédia que está matando tantas pessoas?

A essa pergunta respondo: Na medida em que o neoliberalismo é a favor do Estado mínimo e tem privatizado, tratado como mercadoria e transferido o controle de setores básicos, em detrimento do Estado.

Fiscalismo e arrocho orçamentário

“Em muitos países, os orçamentos públicos que devem custear os serviços da Saúde Pública foram reduzidos. Até mesmo na Europa, como ficou evidente pelas dificuldades enfrentadas pela Itália, Espanha, Reino Unido, entre outros no enfrentamento da pandemia. 

Tais dificuldades escancararam as consequências da crise de 2008. Porém, na União Européia, os países, liderados pela Alemanha ofereceram imediatamente uma ajuda aos países que sofreram o desastre provocado pelo modelo econômico-financeiro imposto pelo neoliberalismo 

Grécia, Espanha, Itália, Portugal, Irlanda, são alguns dos países que foram submetidos a políticas de austeridade fiscal e que neste contexto reduziram drasticamente seus gastos com o sistema de saúde pública, enquanto a privatização avançava sobre o setor em particular hospitais, abolindo leitos em unidades de terapia intensiva, ventiladores.

Pós-pandemia

O que acontecerá quando a pandemia passar e as sociedades fizerem um exame e responsabilizarem os governantes que em todo o mundo se saíram mal em todos os grandes países? Por que eles não previram essa pandemia?

Mostro no ensaio que, de qualquer forma, nos Estados Unidos, é a pandemia mais anunciada no mundo. Dou exemplos de relatórios da CIA, do Pentágono, cientistas, outros líderes estadunidenses, empresários como Bill Gates, que anunciaram que um coronavírus, não um vírus, um coronavírus apareceria antes de 2025 e que causaria uma pandemia e encontraria os Estados sem máscaras, sem camas suficientes, sem escudos, sem vestidos, sem camas de todos os tipos. A má administração desses governantes causou milhares e milhares de mortes, e esses mortos têm famílias,  

Consequências geopolíticas

Outro aspecto é geopolítico. Como vamos sair dessa situação? Como será o mundo depois disso? O mundo não pode ser o mesmo após essa pandemia, porque não sabemos como isso terminará, quantas mortes haverá no final.

Nesse mundo diferente, o que podemos ver, do ponto de vista geopolítico, é que a liderança dos Estados Unidos fracassou. Esse país não está em pé de igualdade, em particular, porque foi mal administrado.

Se existe um líder, entre os líderes das grandes potências, que se comportou, digamos, de forma irresponsável, foi o Presidente Trump, que em várias ocasiões diante da tragédia bancou um palhaço e não assumiu as responsabilidades que os Estados Unidos têm.

Será que este comportamento custará a Trump uma derrota no processo que objetiva sua reeleição? Esta é outra questão, sobre a qual ainda não temos uma resposta.

Desastre econômico, político e social

Estamos caminhando para um desastre econômico global que será idêntico ou maior que o da grande crise, a grande depressão de 1929, que é a crise mais importante que o capitalismo conheceu desde que surgiu no século XVIII.

Então, o que vai acontecer no mundo? O que acontecerá nos países do sul que já têm mil problemas? Que tipo de crise social e política? O que acontecerá em países que têm confrontos militares?

Não sabemos ao nível geopolítico o que vai acontecer no mundo e estamos nos concentrando no enfrentamento na resolução apenas dos efeitos relacionados a saúde.

Obviamente, a segunda onda será econômica e a terceira será político e social. Isso é inevitável.

A Covid-19 escancarou as desigualdades

É claro que o vírus não é uma revolução, mas permite ver, por exemplo, como em muitas sociedades os pobres morrem, não porque tenham o coronavírus, mas, porque são pobres, porque a Saúde não é para eles.

O tratamento nos Estados Unidos custa em média US $35.000; nem todo mundo tem esse dinheiro, nem todo mundo tem o seguro para ser curado; os ilegais, os imigrantes, que são milhões e milhões, nem sequer têm acesso a cuidados médicos básicos.

As tarefas da comunicação no mundo pós pandemia

Em termos de comunicação, obviamente existe um debate para impor uma história, porque essa é a primeira batalha, a de comunicação, com 4,5 bilhões de pessoas trancadas em suas casas.

A primeira lição é que o que prevalece é a comunicação digital, todos desenvolveram a comunicação digital por meio de redes sociais, por meio de mensagens, que é o que dominou.

As pessoas não tiveram acesso ao papel, as livrarias foram fechadas, as bancas foram fechadas. Consequentemente, houve um triunfo maior do digital, eu diria a apoteose.

Outra lição, e uma coisa que já anunciamos, é que os dados são a matéria-prima dominante do nosso tempo. Esses dados hoje são o que têm valor, e criam os novos impérios dos tempos do Big Data.

Há também o problema da privacidade. A esse respeito, diz-se que os países que melhor combateram o covid-19 são aqueles que utilizaram novas tecnologias, principalmente câmeras de vigilância e aplicativos em telefones.

Em termos de comunicação, querem nos impor uma história, e isso deu origem a uma grande farsa de alimentada por notícias falsas. Notícias falsas disseminadas por grupos neofascistas dispostos a matar a verdade.

Finalmente não poderia deixar de registrar que a crise da saúde é apenas uma das consequências da crise climática que o mundo está enfrentando e que amanhã pode realmente destruir o planeta, como anunciado por Fidel Castro”.

Ignacio Ramonet, jornalista, escritor e especialista em comunicação

Granma, especial para Diálogos do Sul — Direitos reservados.

Tradução e edição: João Baptista Pimentel Neto


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Ignácio Ramonet

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