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Cravos de Abril: um marco decisivo que selou a derrota do fascismo em Portugal

Embora a ofensiva do Grande Capital tenha golpeado os trabalhadores e o povo português, nunca foi possível arrebatar suas conquistas revolucionárias
Gustavo Espinoza M.
Diálogos do Sul
Lima

Tradução:

* Atualizado em 25/04/2022 às 16h05.

Quando na manhã de 25 de abril de 1974 uma coluna de tanques se deteve na Praça do Rossio, um soldado do destacamento pediu a Celeste Caeiro, uma mulher que se achava nas imediações, um cigarro para atenuar a fadiga; a dama lhe estendeu um cravo. 

O soldado, entre entusiasmado e surpreendido, pegou a flor e a colocou no canhão de seu fuzil, como uma maneira de assegurar a todos que não usaria sua arma contra o povo. 

Os gesto teve duas consequências imediatas: aqueles que estavam perto da mulher – simples cidadãos de Lisboa – saudaram com alegria o gesto e se somaram aos militares; e o movimento passou a ser conhecido no mundo como a Revolução dos Cravos.

E essa flor púrpura ficou como o símbolo do Movimento da Força Armada que derrubou, há 48 anos, a ditadura fascista instaurada nesse país desde 1925 por António de Oliveira Salazar e continuada -sem mudanças essenciais – por Marcelo Caetano. Esse regime, proclamado como o “Estado Novo”, definiu-se a partir de uma mensagem conservadora com três palavras: “Deus, Pátria e Família”. 

Poucas horas antes do incidente simbólico na rua lisboeta, tinha se iniciado no país uma ação militar liderada por um núcleo de oficiais que passaria à história como “Os Capitães de Abril”. Eram mandos médios do exército que se levantaram para depor um regime de horror, pôr fim a uma insensata guerra colonial travada entre 1961 e 1974 e recuperar para seu país a democracia longamente ansiada.

Embora a ofensiva do Grande Capital tenha golpeado os trabalhadores e o povo português, nunca foi possível arrebatar suas conquistas revolucionárias

Facebook / reprodução
E essa flor púrpura ficou como o símbolo do Movimento

Alvarado e o exemplo peruano

Otelo Saraiva de Carvalho. Capitão da Infantaria e Fernando Salgueiro Maia, da Escola Prática de Cavalaria localizada em Santarém, foram dois dos homens que lideraram essa ação que tomou como exemplo outra experiência ocorrida na outra margem do oceano; a insurgência dos militares peruanos que, em 1968, se levantaram sob a condução de Juan Velasco Alvarado para depor o regime oligárquico instaurado na terra dos Incas.



Uma linda melodia lusitana foi usada como senha para o início da ação militar nas primeiras horas do 25 de abril. “Grândola Vila Morena”, de José Afonso “Zeca”, foi a belíssima canção combinada pelos insurgentes, e deu início ao operativo que triunfou em poucas horas.

O Governo de Caetano caiu rapidamente. Os ministros fugiram espantados e o próprio Chefe de Estado deposto fugiu para o Brasil. Tudo isso gerou um tumultuoso e sugestivo processo que durou por cerca de dois anos e no qual as massas populares desempenharam um papel relevante. Uma intensa luta de classes teve seu epicentro em Lisboa, a cidade considerada o Jardim da Europa. 

Nesse marco ressurgiram os Partidos Políticos proscritos até então, formalizaram-se os sindicatos que agiam na clandestinidade, assomaram os intelectuais que aportaram ideias e cultura, e os camponeses que deram suas colheitas para alimentar o povo nas mais duras horas da batalha social.

O Partido Comunista Português desempenhou um notável papel nessa etapa da história. Seu líder, Álvaro Cunhal, que esteve preso por muitos anos na fortaleza de Peniche – o presídio mais horrendo do país – de onde conseguiu fugir para emigrar, retornou a Lisboa em 30 de abril em meio ao maior calor popular. 

O país conheceu marchas e contra marchas; porque estava latente a força da burguesia que queria mudanças, mas não revolução; e, porque sobre o conjunto da sociedade operou a vontade do governo dos Estados Unidos, que se valeu da pressão econômica e militar para atenuar a radicalidade do processo.

Poderosas organizações internacionais, como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional; entidades como a União Europeia nessa época ainda em germe; e governos da Europa Ocidental – como Inglaterra, Alemanha, França e a Espanha de Franco – opostos a qualquer mudança política que ameaçasse suas próprias estabilidades, e até a OTAN, operaram para impedir o avanço do processo militar revolucionário. 

Eles contaram com o apoio da Social Democracia e a cumplicidade de Mário Soares, o líder do Partido Socialista. Ele e a cúpula dirigente de seu partido prestaram-se ao jogo empunhando as bandeiras do anticomunismo mais tacanho. 

A unidade de todas estas forças impediu, efetivamente, o trânsito do processo libertador português para o socialismo; mas não pode frustrar ações que marcaram a história europeia; o império colonial se esfacelou e foi gerado um processo que culminaria pouco mais tarde com a independência de países como Angola, Moçambique e outros, que contaram, por sua vez, com a ajuda de Cuba para consolidar sua emancipação e forjar-se como sociedades novas no continente africano. 

Embora a ofensiva do Grande Capital tenha golpeado duramente os trabalhadores e o povo português, nunca foi possível arrebatar de forma definitiva suas conquistas revolucionárias. Por isso, hoje, Portugal é um dos países socialmente mais avançados da Europa. 

Ao cumprir-se os 48 anos dos cravos de abril, o mundo saúda os trabalhadores e o povo de Portugal, evocando uma ação que foi um marco decisivo no século XX e que selou o caminhar para o Portugal do futuro. 

Gustavo Espinoza M., Colaborador de Diálogos do Sul de Lima, Peru.

Tradução: Beatriz Cannabrava


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Gustavo Espinoza M. Jornalista e colaborador da Diálogos de Sul em Lima, Peru, é diretor da edição peruana da Resumen Latinoamericano e professor universitário de língua e literatura. Em sua trajetória de lutas, foi líder da Federação de Estudantes do Peru e da Confederação Geral do Trabalho do Peru. Escreveu “Mariátegui y nuestro tiempo” e “Memorias de un comunista peruano”, entre outras obras. Acompanhou e militou contra o golpe de Estado no Chile e a ditadura de Pinochet.

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