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Crianças entre a fome e as armas no Sahel

Revista Diálogos do Sul

Tradução:

Nicholas Valdés Oliva*

Sahel

2013 se apresenta como outro ano sem soluções concretas para os países do Sahel africano em luta contra a fome que afeta já a 18 milhões de pessoas, segundo a Organização das Nações Unidas.

No Sahel – região que abrange territórios do Senegal, Mauritânia, Mali, Argélia, Sudão e Eritréia – calcula-se que mais de dois milhões e meio de crianças poderiam sofrer algum tipo de desnutrição, de acordo com dados divulgados pelas instituições Oxfam e Save the Children.

Ainda que essa zona situada entre o deserto do Sahara e as savanas sudanesas tenha sido afetada fortemente pela seca durante os últimos quatro lustros, 2010 foi sem dúvida um péssimo ano para as chuvas. As escassas precipitações se mantiveram em 2011 e 2012, sendo que este último período foi catalogado pela ONU como o pior em décadas.

Contudo, a extrema aridez dos solos e a falta de precipitações pluviais não são a única causa da atual crise alimentar que o Sahel enfrenta. Segundo os especialistas a estes elementos se agregam a pobreza estrutural, a especulação dos preços nos mercados e o conflito armado desencadeado no norte do Mali em março do ano passado.

A população dos países da região – além de outros como Burkina Faso, Gambia e Camarões – já sofrem pela falta de alimentos, passo prévio para a fome.

Mais de 527 mil crianças menores de cinco anos com desnutrição aguda grave receberam tratamento no Sahel em 2012, alertou o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

Não obstante, essa instituição calcula que aproximadamente quatro milhões de crianças ainda correm risco de sofrer desnutrição severa e assegura que nenhum país da área escapa ao problema.

 

Países afetados por igual

Senegal, que em 2010 se encontrava entre os estados menos afetados pela crise alimentar no Sahel, mostra sintomas pouco animadores. Um estudo realizado pelo Ministério da Saúde senegalês em oito regiões do país mostrou que a média de desnutrição aguda em crianças com menos de 59 meses de idade oscila entre seis e 14 por cento.
Essa porcentagem representa apenas um ponto abaixo dos 15% estabelecido pela Organização Mundial da Saúde como cifra de alerta.

Outra pesquisa desenvolvida pela pasta da Agricultura nesse país revelou que os preços dos alimentos básicos dispararam por causa da escassez de produtos e a especulação.

Na Mauritânia, que conta com as menores reservas de água potável do mundo, o aumento de crianças com desnutrição ultrapassou a capacidade das organizações que os atendem, constatou a Ong Oxfam.

A atual crise alimentar nesse país pode causar a morte de 60% dos menos desnutridos, alertou a assessora regional sobre o tema da nutrição na África ocidental e central para a Unicef, Felicité Tchibindat.

Igualmente a situação no Chade se agravou após a chegada dos que regressaram da Líbia como consequência do conflito que arrasou esse território m 2011. Avaliação de Segurança Alimentar Pós-colheita demonstrou que três milhões e meio de chadianos carecem de alimentos, enquanto que a produção de cereais reduziu em 50 por cento.

O país com a taxa mais elevada de desnutrição é o Níger, onde cerca de 400 mil crianças nigerianas poderiam padecer de desnutrição e quase um de cada dez perder a a vida, alertou o Programa Mundial de Alimentos da ONU.

A insegurança regional, com enfrentamentos armados no Mali e insurgência na Nigéria, também tem gerado imprevistos deslocamentos de população em uma região frágil que não pode enfrentar mudanças bruscas.

 

Intervenção francesa no Mali, forte agravante da crise

Os combates no norte do Mali, que afetam diretamente a três milhões de pessoas e provocam o êxodo de 380 mil, dificultam seriamente a sobrevivência das crianças e suas famílias.

Tropas francesas intervieram no norte desse país no início de janeiro para expulsar do território movimentos islâmicos que ocupam a região desde junho de 2012.

Essa ofensiva francesa tem sido criticada por personalidades da comunidade internacional que alertam sobre o verdadeiro objetivo da missão militar ser o de controlar os valiosos recursos minerais da área.

A partir dessa intervenção a já frágil situação alimentar da população tem se deteriorado ainda mais.

O bloqueio da rota Mopti-Gao (centro norte), principal eixo comercial do país, devido aos combates limita consideravelmente a circulação de mercadorias. Est conflito armado faz a população infantil mais vulnerável a escassez de alimentos, além de expô-la a mal tratos, violência e abusos, segundo essas fontes.

As grandes potencias, ex metrópoles das antigas colônias africanas só perseguem o saque dos recursos naturais no Sahel e outras regiões do continente. As próprias autoridades francesas divulgaram que a ofensiva militar no Mali tem um custo diário de 2.7 milhões de euros, o que significa que em pouco mais de um mês de intervenção, o gasto supera os 83,7 milhões. O desenvolvimento econômico e social dos países do Sahel não forma parte das agendas políticas ocidentais, motivo pelo qul a crise alimentar que afeta às crianças da zona não parece ter solução no futuro próximo.

*Jornalista da sessão África e Oriente da Prensa Latina, especial para Diálogos do Sul.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
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