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Crianças sem documentos, crise humanitária no sul dos EUA

Revista Diálogos do Sul

Tradução:

Luis Brizuela Brínguez*

criançasO drama humano em que se transformou a chegada de milhares de crianças sem documentos, sozinhas, aos Estados Unidos causa preocupação aos políticos e meios de comunicação, enquanto a prometida reforma migratória continua sendo uma promessa fugidia.

Nas últimas semanas, as cifras evidenciaram um fenômeno que vem se gestando há meses: de acordo com dados da Patrulha de Fronteiras, cerca de 47 mil crianças cruzaram a fronteira sul do país, provenientes principalmente do México e da América Central.

Mas antes de terminar o ano fiscal, em setembro próximo, cerca de 90 mil menores deverão repetir a perigosa trajetória, segundo estimativas oficiais.

Senadores estadunidenses mostram-se preocupados com o crescente fluxo de crianças sem documentos que chegam sozinhas ao país, situação qualificada pelos meios de comlunicação e pela administração do presidente Barack Obama como uma crise humanitária urgente.

É o início de uma epidemia e, a menos que a segurança seja restaurada nos países de donde vêm esses menores e que a pobreza seja aliviada, considero que isso vai continuar, porque não há esperança para essas crianças, afirmou a senadora democrata Diane Feinstein, durante uma audiência no Congresso.

No entanto, para o senador republicano pelo Arizona, Jeff Flake, a insegurança nos países centro-americanos não é a causa principal das levas de crianças sozinhas.

Na sua opinião, tal fenômeno obedece ao suposto afrouxamento das missões da Patrulha de Fronteiras em matéria de detenções e deportações.

ilegais EuaNesse sentido, afirmou que o aumento da chegada de menores foi registrado depois que o mandatário instruiu o Secretário de Segurança Interna, Jeh Johnson, a rever a política de deportações.

A cadeia Fox News informou que obteve um memorando no qual um alto funcionário do Serviço de Alfândega e Proteção de Fronteiras reconhece que a atual política migratória do Executivo serve como incentivo para que os sem documentos entrem em território norteamericano.

Meios de imprensa do estado do Arizona reproduziram igualmente uma declaração da governadora deste território, Jan Brewer, segundo a qual esta situação foi criada artificialmente pelo Governo federal.

Já para a Casa Branca, as orientações de Obama no sentido de que se analise a forma como são aplicadas as expulsões de pessoas sem documentação oficial não constituem um estímulo para que os pais que chegaram ao país de forma ilegal estimulem seus filhos a reunir-se com eles cruzando a fronteira.

Enquanto esse debate se trava, milhares de crianças permanecem reclusas em celas insalubres da Polícia de Alfândega e Proteção de Fronteiras, como demonstrou uma recente visita de jornalistas a distintas instalações fronteiriças.

Durante o périplo que as autoridades ofereceram por uma estação da Patrulha de Fronteiras em Brownsville, Texas, ficou comprovado que os menores aprisionados depois de entrar de forma ilegal no país são encerrados em celas mal cheirosas, até serem transferidos para refúgios, como mostrou o diário Daily Mail.

A maioria dos adolescentes e crianças no local estão em celas de concreto e dormem no chão, especificou.

Os capturados são processados em Brownsville e em Nogales, no Arizona, antes de serem transferidos para refúgios, com o objetivo de reuni-los a algum familiar nos Estados Unidos.

O Departamento de Defesa disponibilizou três instalações militares em Oklahoma, no Texas e na Califórnia para alojar as crianças e adolescentes.

Há alguns dias, o Comitê de Trabalho, Saúde e Serviços Humanos do Senado aprovou um projeto de lei que destina 1.940 milhões de dólares para atender esses casos.

A lei, que deverá ser submetida à aprovação de ambas as câmaras do Congresso, estabelece que o Departamento de Saúde e Serviços Sociais assumirá a responsabilidade de alimentar e cuidar dos menores num prazo máximo de 72 horas, depois de detidos por agentes da Patrulha de Fronteiras.

No entanto, o governo reconhece dificuldades para cumprir o prazo estabelecido.

As imagens de crianças detidas em refúgios temporários na fronteira sul reacenderam o debate sobre a violência e a pobreza na América Central, onde a proliferação de carteis da droga, gangues e outros grupos do crime organizado obrigam-nos ao êxodo.

O fenômeno potencializa também as críticas à maioria republicana na Câmara de Representantes, que se recusa a avançar na discussão de modificações nas leis de imigração e naturalização.

Os do chamado partido vermelho continuam resistentes a analisar uma iniciativa bipartidária aprovada há um ano no Senado, em que se avança na regularização do status migratório de mais de 11 milhões de pessoas sem documentos que, segundo distintos cálculos, vivem de forma clandestina nesta nação.

Segundo os conservadores, dar a cidadania a estas pessoas equivaleria a uma anistia para aqueles que violaram as leis.

Segundo um estudo do Escritório de Washington para a América Latina (WOLA), uma reforma migratória integral que estabeleça regras claras para obter a cidadania e que aborde os programas de trabalho agrícola, vistos de imigrante e de trabalho, e fluxos migratórios futuros, pode ser a solução para a crise.

Tal fenômeno não será solucionado com mais medidas punitivas e de segurança no limite com o México por parte de Washington, advertiram os autores.

A ideia de colocar barreiras, patrulhas, soldados e tecnologia poderia trazer mais dano que beneficios; de fato, estas ações, promovidas pelos republicanos mais conservadores, podem incrementar os abusos e desatar mais violência, sem reduzir em termos reais o fluxo de imigrantes ou de tráfico, alertou o WOLA.

A entidade advertiu que a inacreditável frequência com que ocorrem sequestros, extorsões, tráfico de pessoas, violações e homicídios coloca as penúrias sofridas pelos migrantes centroamericanos em trânsito para o México no primeiro lugar entre as piores emergências humanitárias do Hemisfério Ocidental.

O estudo do WOLA será exposto à consideração dos legisladores estadunidenses e mexicanos para que estes analisem seus resultados e abordem possíveis soluções, anunciaram porta vozes desta organização.

Enquanto isso, congressistas hispânicos reuniram-se há poucos dias com representantes de várias embaixadas latinoamericanas em Washington, para buscar possíveis soluções para as levas de menores sem documentos.

*Prensa Latina, de Havana para Diálogos do Sul – Tradução de Ana Corbisier


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
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