Pesquisar
Pesquisar

Cuba – EUA: será possível o consenso? – I

Revista Diálogos do Sul

Tradução:

Miguel Lozano *

Os doutores Milagros Martínez e Carlos Alzugaray informaram que logo sairá um livro em ingles e espanhol com as recomendações elaboradas desde 2009 por oito acadêmicos cubanos e oito estadunidenses.
Os doutores Milagros Martínez e Carlos Alzugaray informaram que logo sairá um livro em ingles e espanhol com as recomendações elaboradas desde 2009 por oito acadêmicos cubanos e oito estadunidenses.

Prendidos em um contexto de enfrentamento que caracteriza as relações cubano-estadunidenses por mais de meio século, acadêmicos de ambos os países elaboraram uma rota para o acercamento, cuja primeira fase seria a substituição da desconfiança pelo consenso.

Sem pretensão de solucionar com um exercício intelectual uma pugna sumamente complexa, os integrantes das Oficinas Acadêmicas Cuba Estados Unidos – TACE elaboraram algo mais de 20 recomendações, resultado do consenso entre 18 estudiosos de diversas orientações políticas.

Embora não seja a primeira experiência desse tipo, participantes das Oficinas explicaram em entrevistas a Prensa Latina que esperam contribuir com seu grão de areia para a construção de uma ponte sobre um mar borrascoso; para isso acreditam que existam hoje melhores condições que nos últimos anos. Desde 2009, em encontros em vários países, incluindo Cuba e Estados Unidos, foram procurando, descartando e analisando temas até identificar aqueles que contam com o consenso dos acadêmicos para ser apresentados no dia 30 de maio próximo em Washington e depois em Cuba.

A idéia é fazer chegar aos dois governos essas recomendações para que sejam estudadas e eventualmente postas em prática aquelas que sejam consideradas viáveis, se houver vontade política e as condições permitirem.

Esse grupo conta a seu favor com a participação de pessoas próximas a ambos os países, com a crescente aspiração regional de ver terminado o conflito e com um clima mais favorável que em anteriores administrações estadunidenses.

Para a doutora Milagros Martínez e o doutor Carlos Alzugaray, acadêmicos cubanos, trata-se de um esforço por criar espaços de confiança a partir de recomendações que possam ser implementadas por ambos os governos.

Martínez explica que começaram com uma lista de 27 ou 28 recomendações das quais restaram algo como 24, depois do trabalho dos acadêmicos estadunidenses e cubanos que vivem em Cuba, o que ajudou, segundo seu critério, a tratar de ter mais racionalidade nas propostas finais.

“Outra característica, diz ele, é que vários dos participantes foram diplomatas ou tiveram acesso às duas chancelarias e de alguma forma puderam interagir com os governos, pois embora seja um exercício acadêmico, é preciso dizer que o interesse é chegar a instâncias governamentais que possam decidir quais recomendações seriam postas em prática”.

O projeto teve início quando, em junho de 2008, o professor da American University, Philip Brenner aproximou-se dos cubanos em um evento em Montreal. “Sua proposta, recorda Martínez, percorreu um longo caminho e finalmente em 2009 começamos a trabalhar em São Paulo, reunião que foi seguida por outras sete e duas de coordenação”.

“Já estamos preparando o livro em inglês e espanhol com as recomendações. Foi um trabalho difícil porque logicamente houve muitas diferenças entre os pontos de vista entre cubanos, entre estadunidenses, e entre cubanos e estadunidenses”, assinalou.

Em sua opinião, a chave foi tratar de identificar como chegar ao consenso, onde estão os espaços para trabalhar de maneira comum, estabelecer confiança e nos quais haja viabilidade e racionalidade para que não sejam propostas para daqui a 10 anos. “Abordamos o fator tempo porque pensamos que tem um peso importante”, disse.

O projeto é apresentar o livro no XXI Congresso da Associação de Estudos Latino-Americanos – LASA, na quinta-feira 30 de maio e depois em Havana, em junho ou julho deste ano.

“As recomendações, explica, “estão divididas por áreas temáticas: meio ambiente, intercâmbios acadêmicos, segurança e terrorismo, comércio e desenvolvimento e liberdade de viagem”.

Indagada sobre as principais propostas, Martínez assinala duas: a primeira é que todos coincidem que Cuba deve sair da lista dos países que apóiam o terrorismo. O grupo identifica isso como uma necessidade e que é um absurdo que Cuba esteja em uma lista na qual nunca teve que estar. “E agora muito menos”, afirma.

“A outra coisa é que, como esse é um exercício acadêmico, e estou convencida que a diplomacia acadêmica é muito importante quando há conflitos tão tensos entre dois países, toda recomendação que implique maior fluidez entre acadêmicos e estudantes universitários pode ajudar muito, porque é preciso haver entendimento, e para entender é preciso conhecer”.

Martínez precisa que nas Oficinas participaram três instituições: American University,  Universidade de Havana e, como facilitadora, a Coordenação Regional de Pesquisas Econômicas e Sociais (CRIES), presidida pelo doutor Andrés Servín, conhecedor de temas dos Estados Unidos e da América Latina.

Por sua parte, Alzugaray considera que hoje se vive um momento mais favorável do que durante anos anteriores, embora “não seja perfeitamente favorável”.

O ex-diplomata cubano lembra que esses exercícios começaram na década de 1970 e acompanharam uma tentativa de normalização por parte de ambos os governos durante a administração de James Carter, mas depois lamentavelmente perdeu vigência porque os governos posteriores, inclusive o de William Clinton, não ofereciam um clima propicio.

“Creio que as condições são favoráveis, pelo menos durante os próximos quatro anos de Barack Obama, porque há uma coisa devemos reconhecer: ainda que o presidente não tenha feito tudo o que poderia fazer em relação ao tema cubano, existe uma atitude diferente”.

Alzugaray estima que isso se viu na última campanha eleitoral: “o presidente Obama não adotou uma posição dura contra Cuba e até ignorou o tema ou adotou uma posição mais construtiva”.

“Além disso, em 2008 ele disse que não há problema em negociar com adversários dos Estados Unidos; e na Reunião de Cúpula das Américas em Trinidad e Tobago falou de um ‘novo começo’ ”.

Embora haja quem pense que isso ficou como mera retórica, segundo o acadêmico cubano não é menos certo que houve avanço em alguns temas, como o das viagens de cubano-americanos a Cuba, que é uma situação nova; e cresceram as viagens de estadunidenses, com os regulamentos estabelecidos por Obama, embora as cifras ainda continuem sendo pequenas.

“Por outro lado, acrescenta, existe um crescente ambiente político interno das forças que estão a favor da normalização das relações. Há melhores posições. Se analisarmos os que os ‘tanques pensantes’ norte-americanos têm dito sobre Cuba, pode-se ver que são coisas mais construtivas”.

Outro elemento considerado positivo pelo estudioso cubano é o cenário internacional, marcado pela posição da América Latina e do Caribe que exige e demanda que se levante o bloqueio e se normalizem as relações entre Cuba e os Estados Unidos.

“Esses são, acrescenta, “aqueles que eu chamaria de elementos de contexto, que permitem abrir espaço para um exercício como este, sem falsas ilusões, porque existem também os adversários da normalização e o peso histórico dos problemas entre os dois países”.

(Continua)

*Vice-Presidente para a Informação de Prensa Latina; de Havana para Diálogos do Sul

 


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Revista Diálogos do Sul

LEIA tAMBÉM

Cuba
EUA tiram Cuba de lista sobre terrorismo: decisão é positiva, mas não anula sanções
ONU
Palestina como membro pleno da ONU: entenda os reflexos da resolução aprovada
Crise-drogas-EUA
EUA culpam cartéis do México por crise de drogas entre estadunidenses
Cartão Vermelho para Donald Trump...