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Cuba precisa de solução criativa para superar bloqueio, afirma músico Silvio Rodríguez

Em sua casa de Havana, o emblemático cantor e autor cubano reflete sobre sua relação e compromisso eterno com a música e a palavra
Néstor Espósito
TIEMPO ARGENTINO
Buenos Aires

Tradução:

O ônibus (a “guagua”, como são chamados em Cuba) P1 leva até o bairro de Miramar. É um pouco longe de Havana Velha, mas a viagem é agradável e pitoresca. Não é cômoda, porque o ônibus está repleto, sempre.

A passagem custa uns poucos pesos cubanos. Em geral, dá para viajar com um bilhete de três pesos, que é vermelho; na frente tem a mítica imagem de Guevara que se tornou camiseta e suvenir, e no verso mostra o Che roçando com o facão um capinzal.

“Fazer canções têm uma considerável implicação política”, diz Silvio Rodríguez

Em Miramar ficam os estúdios Ojalá. Cada manhã, nessa casa sóbria, Silvio Rodríguez (75 anos de idade, uma câmera fotográfica na mão, máscara e óculos permanentes) grava, compõe, corrige e cria. A pandemia contribuiu para que retomasse projetos atrasados.

“Um de 30 anos atrás, de 1991. Esse foi o disco que produzi há pouco com um grupo maravilhoso, que já não existe, Diákara. O diretor, ‘Oscarito’ Valdés, morreu. Mudamos algumas coisinhas para melhorar o som, mas estava pronto e era por falta de tempo que não o terminávamos”, revela o cantautor em uma entrevista exclusiva para Tiempo.

Em sua casa de Havana, o emblemático cantor e autor cubano reflete sobre sua relação e compromisso eterno com a música e a palavra

Silvio Rodríguez – Reprodução / Instagram
"Há 60 anos dizia-se que o imperialismo estava caindo, mas realmente passou mais de meio século, e nada"

Néstor Espósito – Em um show, quando você cantava a canção “Playa Girón”, você dizia que um trovador se nutre da música, da poesia e da história. Este é um momento histórico muito particular. Como se faz arte em um contexto de pandemia?

Silvio Rodríguez – Depende das circunstâncias em que esteja cada pessoa. Eu, por minha idade e uma série de achaques, tive que parar completamente. Mas há jovens que continuam trabalhando, viajando. É outra circunstância. Eu tive que dedicar meu tempo a trabalho pendente. Imagino que os que são mais jovens e têm mais força, energia e mais vida pela frente estarão vivendo, talvez não a todo vapor, mas a meio vapor pelo menos. É o que eu teria feito se tivesse 25 ou 30 anos.

Você teria feito isso?

Seguramente. Como não vou me meter na vida? Ainda que me custe a vida. Mas tive que suspender até os concertos que fazia nos bairros todos os meses. O último foi em março de 2020.

Você vai retomar esses concertos de bairro?

Fico um pouco apreensivo. Ser o responsável pela convocação das pessoas te responsabiliza também pelas consequências. E ter na consciência que por culpa de uma reunião que convoquei pessoas podem ficar doentes, inclusive crianças, é um pouco forte para mim.

Em 1985 você esteve na Argentina com o grupo Afrocuba e com Santiago Feliú. Em uma conferência de imprensa, uma jornalista te perguntou se a revolução só era possível pelas armas. Tua resposta foi: “Receitas, só na cozinha”.  

Ocorre que depois da nossa, a única revolução concebida assim foi a da Nicarágua. Depois, todos os processos foram por vias normais, democráticas, pelo voto. E o que aconteceu na Nicarágua foi quase milagroso naquele momento. Havia uma luta guerrilheira de muitos anos e houve uma convocação internacional forte, muita gente de muitos países acorreu.

Como influem as experiências atuais de Venezuela e Nicarágua na atualidade de Cuba, tomando como referência aquele sonho da revolução?

A realidade é muito diferente do sonho. Há 60 anos dizia-se que o imperialismo estava caindo, mas realmente passou mais de meio século, e nada. A única coisa parecida às predições é aquilo que Lenin dizia: que o fascismo era a última etapa do imperialismo. Tudo o que está acontecendo nos Estados Unidos, inclusive no nível de consciência de grandes setores, aponta para uma espécie de surto do fascismo.

O caminho ao fascismo parece curto e os processos para revertê-lo, demasiado longos.

E sobretudo muito complexos na realidade atual, em que a relação de forças no mundo é tão diferente e há armas nucleares também, o que é um assunto tremendamente delicado.

O que aconteceu com aquele sonho de solidariedade?

Existem pessoas solidárias.

É verdade, mas há poucos países com aquele conceito de solidariedade.

Ocorre que ao predominar a economia por meio dos bancos, a dominação econômica mais capitalista, o pêndulo tende a inclinar-se para relações mais de conveniência.

É um fenômeno econômico? Quando você cantava “com todas as bandeiras enlaçadas de maneira que não haja solidão” você não estava falando de economia. Aquela era uma postura quase diria que filosófica.

Mas continua predominando a dominação. A maioria do mundo continua sendo capitalista, e o miolo do capitalismo é econômico. Dizia Margaret Thatcher: “As pessoas pensam que é político e não é político, é econômico”. É um problema de supremacia econômica. Uma economia projetada e concebida a partir da concorrência total do consumismo. O que prejudica muito também a natureza. São muitas coisas que estão em jogo.

Há contrapeso possível para isso?

Seria preciso ver o que aconteceria se todo o mundo se tornasse socialista. Se um socialismo predominante no mundo viria com uma mentalidade correta. Porque há países que tem aspectos muito fortes do socialismo, como a China, e, no entanto, é um dos que mais prejudica a natureza. Seria preciso ver se o que está acontecendo se deve à luta com a grande potência capitalista ou se trata-se de um formato realmente inerente ao desenvolvimento, e que não vai mudar.

Na Argentina, a pandemia serviu para explicar – em boa medida – porque não se concretizaram as expectativas geradas pelo atual governo. É possível traçar um paralelismo entre esse efeito da pandemia e o bloqueio que sofre Cuba? Não acaba sendo uma desculpa?

Em Cuba atualmente há muita discussão ideológica, intelectual e superestrutural sobre isso. Os economistas estão estimulando muito. Nós não queremos que o bloqueio seja um pretexto. Não queremos permitir isso tampouco. Não podemos passar a vida acreditando que tudo o que não podemos fazer é culpa de um vizinho muito poderoso que nos bloqueia e nos impede de fazer coisas. Se em 60 anos não pudemos desenvolver uma criatividade que supere o bloqueio, estamos mal. Em alguns sentidos se conseguiu, na ciência, por exemplo. Essas foram apostas feitas por Fidel e que naquele momento geraram questionamentos. As pessoas diziam “esse investimento…”. Foi esse investimento que tornou possível agora enfrentar a pandemia. Mas é um investimento em um setor pequeno, controlável, ao qual se podem dar todos os recursos. Em coisas maiores não tivemos a mesma eficiência e os mesmos resultados. E é no que se está trabalhando agora, revertendo erros históricos, aquela coisa de intervir em tudo, que fosse o Estado que controlasse tudo. A ofensiva revolucionária de ‘68 nos fez muito mal.

Realmente você considera que aquilo foi um erro?

Sim, foi um erro. Porque foi como querer pular etapas. Como estávamos iniciando a relação com o campo socialista, dissemos: “Vamos estabelecer um tipo de comércio que por sermos subdesenvolvidos e somarmos, isso os obriga a serem mais solidários”. Mas era uma forma de dependência. Não nos fez esforçar-nos suficientemente para industrializar-nos, por exemplo. Até perdemos indústrias que eram sólidas antes do triunfo da Revolução, como a indústria do açúcar. Claro que cometemos erros, a Revolução cometeu erros e agora estamos pagando.

É muito forte esta leitura.

Agora também há uma consciência em Cuba sobre a necessidade de horizontalidade. Isso está crescendo. Há setores na superestrutura que estão convencidos disso. Claro que há gente que pensa mais à antiga, nas velhas soluções, nas velhas receitas, ainda que se tenha visto e se tenha comprovado que não dão resultado. Mas também há gente mais jovem que está lutando por democratizar-nos mais, por fazer as coisas de maneira mais horizontal, não tão vertical. As circunstâncias do princípio da Revolução, as agressões, nos fizeram fechar-nos muito, criar um sistema de defesa quase excessivo e nos acostumamos a ser assim. Isso nos beneficiou, por um lado, porque nos protegeu. Mas também nos prejudicou, porque nos mal formou em algum sentido.

Nesses setores renovadores estão os que há pouco você definiu como quem mostra “sinais de cansaço”?

Não, não me parece que sejam os que dão sinais de cansaço. Estes estão cansados e não querem continuar lutando pela mesma coisa. Acho que são os mais jovens que estão no governo. O próprio presidente (Miguel Díaz-Canel) me parece que é uma das pessoas que mais está buscando incorporar a ciência, dar mais participação aos setores das ideias, abrir-se mais.

O que acontece com esse setor que “sente cansaço”?

Lamentavelmente, há jovens. Se supõe que a Revolução foi feita para os jovens, para que florescessem, para que houvesse um futuro para eles. É triste ver que nossas limitações levaram ao contrário: em alguns sentidos, há jovens que sentem que não tem futuro em Cuba. É preciso lutar contra isso. Esse não é o futuro da Revolução. Não é o futuro de Cuba nem o de nenhum país. O futuro tem que ser dos jovens e tem que ser esperançoso.

Pablo e Silvito el Libre

A conversa com Silvio Rodríguez em Havana ocorreu antes da morte da cantora cubana Suylen Milanés Bennet, filha de Pablo Milanés, em consequência de um acidente cerebrovascular, aos 50 anos de idade. Pablo Milanés vive atualmente na Espanha e tem um olhar crítico sobre o que está acontecendo em Cuba. A resposta de Silvio Rodríguez sobre ele é anterior à tragédia pessoal da morte de sua filha.

Pablo sempre foi crítico. Ele passou por coisas muito duras e ainda assim aderiu à Revolução.

No começo da Revolução, Milanés esteve quase dois anos nas Unidades Militares de Ajuda à Produção (UMAP), em um regime de trabalho muito severo. E depois permaneceu dois meses em Fortaleza de La Cabaña, também como castigo.

Gosto dele e o respeito muito. Não é cômodo para mim falar de Pablo nestas circunstâncias. O que posso dizer é que é um grande artista e é uma pessoa que sentiu, sofreu e lutou por Cuba. Muito. Fez isso, claro que fez.

O outro personagem sobre quem Tiempo consultou Silvio Rodríguez foi Silvio Liam Rodríguez Varona, seu filho que vai fazer 40 anos e é um artista de hip hop reconhecido cujo nome artístico é Silvito El Libre.

Ele é “Silvito El Libre”, então eu seria “Silviote El Preso” (risadas). Nem ele é tão livre, nem eu sou tão preso. Quando você o vir algum dia pergunte-lhe porque digo isso. Ele foi criado em uma zona de Cuba muito difícil, agreste praticamente, e acho que isso o prejudicou muito. Ele e eu nunca falamos dos assuntos que nos separam. Sempre falamos das coisas que nos unem, o carinho familiar, a solidariedade, a identidade, as duas netas que tenho dele. Não concordo com muitas coisas que ele pensa e ele não concorda com coisas que eu disse ou faço e penso. Mas nunca brigamos nem vamos brigar por isso.

Canções, buscas e estilos

Silvio Rodríguez está muito afetado pela morte recente, em um cenário, de Vicente Feliú, outro dos pais fundadores da trova. “Sessenta anos de amizade, desde que ele tinha 15 e eu, 16 anos”. O jornalista de Tiempo conta-lhe uma história pessoal e privada que o vincula a Vicente. Os olhos de Silvio parecem humedecer-se e ele promete relatar à família de Vicente.

O lugar onde transcorre e termina a conversa é um ambiente de três poltronas e duas cadeiras. O autor de “História das cadeiras” escolhe a cadeira. Talvez seja só uma casualidade. De um canto da sala, um busto do Che Guevara talhado em madeira parece observar tudo. Talvez seja assim. É quem sabe, a parte de ficção que o artista reconhece em suas canções.

“O ato de criação tem uma parte de hábito, mas sempre necessita de uma parte de inconformidade. A gente não quer fazer sempre a mesma coisa, nem contar as mesmas coisas, nem recorrer à mesma fórmula. Isso é como industrializar, como se houvesse um modelo. Eu sempre fui um pouco inconformado comigo mesmo e não queria que uma canção se parecesse com outra. As vezes busquei até violentar o estilo, porque se supõe que isso é um ato de criação”.

Néstor Espósito
Tradução de Ana Corbisier


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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