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Onde estão as crianças sequestradas pela ditadura civil militar brasileira?

Livro “Cativeiro sem fim”, de Eduardo Reina, investiga essa questão tendo como foco de pesquisa a Guerrilha do Araguaia

A ditadura militar é uma questão mal resolvida pela sociedade brasileira e suas inquietações reverberam no presente como insistente mal –estar em nossa memória.  A anistia somada à dificuldade de acesso aos documentos das forças armadas,  ao medo das pessoas envolvidas de falar sobre o assunto e outros muitos fatores prejudicam a pesquisa para o esclarecimento desse momento sombrio da história do Brasil.

No entanto, tanto a Comissão da Verdade quanto a recente identificação de ossadas em Perus  e quem mais se dedique a pesquisar o tema ajudam a lançar um facho de luz para fazer justiça à memória das vítimas da ditatura.

Esse parece ser o caso de Eduardo Reina, que lançará o livro “Cativeiro sem fim”, onde, neste jogo de luzes  e sombras, toca em um tema pouco debatido entre os estudos sobre ditadura: as crianças sequestradas pelas forças militares. 

Pouco se sabe e se comenta sobre o assunto, mas filhos de guerrilheiros e simpatizantes da causa – até mesmo crianças que foram confundidas como pertencentes a esses grupo – foram retiradas de suas famílias e enviadas a outros lares e, o que é mais perverso, “adotadas” por famílias de militares como forma de “extirpar a subversão” da mente dessas crianças de adolescentes.

Em entrevista ao Painel Acadêmico, Reina comenta um pouco mais sobre o conteúdo de seu livro.

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O livro “Cativeiro sem fim” toca em um tema pouco debatido entre os estudos sobre ditadura

Confira na íntegra:

Painel Acadêmico: Em sua opinião e junto às pesquisas que realizou para compor o livro, porque o tema das crianças desaparecidas na ditadura é tão pouco debatido no Brasil em relação à Argentina e ao Uruguai?

Eduardo Reina: Eu penso que é uma questão de comunicação. Existia e existe ainda um plano de comunicação das forças armadas, começou com as forças repressoras, que coloca a comunicação no mesmo patamar de importância que o treino físico e a logística dos soldados. A comunicação em uma guerra é muito importante e, infelizmente, a oposição na época ditadura perdeu essa batalha da comunicação. E o que isso significa? Significa que, quando você consegue vencer a batalha da comunicação, consegue-se deixar registrado - até mesmo no inconsciente coletivo - a sua mensagem, a sua narrativa.
Aí você me pergunta: poxa, mas há um monte de livros sobre as pessoas que foram presas e torturadas, não? Sim, mas a comunicação desses livros tem um outro conteúdo e não atingiu o nível de comunicação que os militares conseguiram. Tanto que aqui no Brasil o sequestro crianças, bebês e adolescentes, filhos de militantes políticos opositores ao regime é um assunto sem noticiabilidade: a imprensa não sabe disso, a historiografia da ditatura e a historiografia brasileira não registram isso. Quando registram, é de forma eufemística ou em nota de rodapé ou ainda tergiversando; nunca assumindo que existiu esse crime de sequestro aqui no Brasil como aconteceu na Argentina, no Chile, no Uruguai, no Paraguai, na Bolívia...o que aconteceu aqui no Brasil serviu de “escola” para o que os Estados repressores aqui na América do Sul fizeram.

Qual foi sua motivação, entre tanto aspectos da ditadura, de escolher justamente este recorte temático?

A motivação e justamente essa. Se a gente vê aqui na América Latina quantos países durante o período ditatorial tiveram esse tipo de crime, e no Brasil, com essa imensidão continental, com uma ditatura que durou vinte e poucos anos esses crimes não terem acontecido? Essa é uma questão que nunca se calou dentro de mim. É algo que vem de muito tempo, desde a época da faculdade, formei-me em jornalismo em 1985 e já existia o embrião disso, mesmo que em forma de pesquisas mais simples. A coisa foi andando até chegar em 2015 quando eu decidi colocar esse projeto pra rodar e por sorte deu certo e veio como uma avalanche...

Já alguns outros textos seus, você já era pesquisador da Guerrilha no Araguaia, então se trata de um aprofundando em diversos temas?

Exatamente, não só pesquisas sobre a Guerrilha do Araguaia, mas também pesquisas sobre a ditadura no Brasil. Eu sempre gostei de pesquisar o tema. Tanto que essa minha pesquisa que descobre os dezenove casos de sequestro de crianças, bebês e adolescentes estou levando para a academia e está se tornando minha dissertação de mestrado exatamente para focar no que a gente conversou em sua primeira pergunta: essa questão da comunicação, da invisibilidade dessa pauta na mídia brasileira.

Quais foram as principais dificuldades para pesquisar esta temática?

Bom, a principal delas é a falta de acesso à informação. É muito difícil: você consegue ter acesso a algumas informações das forças militares em arquivos pessoais de militares que atuaram na Guerrilha do Araguaia, por exemplo, ou junto aos familiares dessas pessoas, isso vai dando algumas pistas. A outra grande dificuldade é a aproximação às vítimas, por exemplo, no Araguaia o exército mantém até hoje, no ano de 2018, uma visita frequente às várias casas de camponeses que estiveram de um lado ou de outro na guerrilha, há pessoas que tiveram entes seus assassinados pelos militares que continuam indo à casa dessas pessoas, dando uma “forçadinha”: eles dão um dinheirinho pra uma pessoa, dão uma cesta básica pra outra, dão uma arma pra outra família e vão fazendo esse controle gestacional do silêncio até hoje. Então, uma das principais dificuldades foi essa: chegar nessas pessoas, sendo eu de um biótipo totalmente diferente dessas pessoas, simplesmente chegar lá e dizer “Olha, eu sou jornalista e queria...”, não rola! Então, precisou ter uma estratégia de aproximação com essas pessoas, conversar bastante com elas, ganhar a confiança delas pra aí sim elas começarem a se abrir.

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