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Angela Davis: Carta aberta ao Partido Comunista dos Estados Unidos da América

"Tenho orgulho de ter passado muitos de meus anos de formação nesta organização e de ter me beneficiado de sua presença pioneira e liderança nas lutas antirracistas e da classe trabalhadora."

Este ano, o Partido Comunista dos EUA completa cem anos. Em homenagem ao Partido ao qual permaneceu filiada por mais de três décadas (1969–1991) e pelo qual concorreu duas vezes ao cargo de vice-presidente dos Estados Unidos, a filósofa e militante Angela Davis escreveu esta carta aberta sobre a importância histórica e atual do CPUSA.

Publicado às vésperas da convenção de aniversário do Partido, o texto que fora traduzido para o português, integra uma série da People’s World sobre o centenário do CPUSA.

Para saber mais sobre os anos de formação de Angela Davis, e o papel do Partido Comunista na sua trajetória política e intelectual, recomendamos a leitura de sua Autobiografia.

Confira:

Camaradas,

Me junto a vocês na celebração do Partido Comunista dos EUA e sua história de cem anos de lutas militantes pela democracia da classe trabalhadora, por justiça racial, de gênero e ambiental, e pelo socialismo, que é o único futuro viável para o nosso país e para o planeta. Tenho orgulho de ter passado muitos de meus anos de formação nesta organização e de ter me beneficiado de sua presença pioneira e liderança nas lutas antirracistas e da classe trabalhadora.

Depois de tentativas persistentes de obscurecer o papel histórico do Partido e de organizações como o Southern Negro Youth Congress (SNYC) na organização de trabalhadores industriais, meeiros e agricultores arrendatários no Sul, está se tornando cada vez mais claro que esse trabalho contribuiu para criar um terreno político sobre o qual as lutas contra a segregação das leis “Jim Crow” eventualmente vicejariam. Acadêmicos jovens que se livraram das influências continuadas do Macarthismo, estão agora descobrindo as contribuições inestimáveis dos Comunistas.

Tendo visitado o túmulo de Claudia Jones1 – imediatamente adjacente ao de Karl Marx – no Cemitério de Highgate, em Londres, fico especialmente feliz que suas ideias foram agora incorporadas a muitas histórias do feminismo negro estadunidense. O ensaio “An End to the Neglect of the Problems of the Negro Woman” [Um fim à negligência em relação aos problemas da mulher negra], escrito em agosto de 1948 e publicado originalmente na revista Political Affairs no ano seguinte, agora aparece em muitas antologias e é considerado um texto histórico fundador.2 Há muitos outros exemplos – incluindo a impressionante entrevista de Esther Cooper Jackson, que agora está com 103 anos, e que na época era uma liderança do SNYC, em um filme recente sobre o estupro coletivo de Recy Taylor em Abbeville, no Alabama, em 1944.3

Este é um momento perigoso – sindicatos estão sob ataque, investidas racistas e violência antissemita estão crescendo, candidatos de ultra direita conquistaram o poder nos EUA, no Brasil, nas Filipinas, em Israel e em outros países. Ao mesmo tempo, há uma crescente oposição à supremacia branca, à violência policial, à misoginia e à acumulação capitalista de riqueza no mundo. Com sua história de um século de luta, o Partido Comunista está bem-posicionado para oferecer expertise, experiência e análises marxistas que ajudarão os movimentos de resistência a crescerem e se desenvolverem. O mínimo do mínimo que precisamos fazer é derrotar a gestão Trump em 2020! Desejo a vocês sucesso nas deliberações da convenção.

Em solidariedade,

Angela Y. Davis

Tradução: Artur Renzo, editor do Blog da Boitempo.

* * *

Notas

* Tradução: Artur Renzo.
1 Claudia Jones (1915-1964) foi uma importante feminista negra filiada ao Partido Comunista dos EUA. Nascida em Trinidad, quando a ilha fazia parte das Índias Ocidentais Britânicas, migrou ainda criança para os EUA junto com sua família. Foi uma das pioneiras a tematizar a tripla opressão de raça, classe e gênero sob uma ótica marxista, Presa e posteriormente deportada do país por conta de sua atuação política, passou a residir no Reino Unido, em 1955, onde veio a fundar o primeiro grande jornal negro da Inglaterra, o West Indian Gazette. Angela Davis encerra o capítulo sobre “Mulheres comunistas” em seu Mulheres, raça e classe (pp. 171-5) com um perfil dedicado à trajetória e ao pensamento de Claudia Jones. (N. E.).
2 Há uma tradução para o português, feita por Edilza Sotero, deste artigo de Claudia Jones, publicado na Revista Estudos Feministas, vol. 25 no. 3, Florianópolis Sept./Dec. 2017, com o título “Um fim à negligência em relação aos problemas da mulher negra!“. (N. E.).
3 A autora refere-se ao documentário The Rape of Recy Taylor (2018), escrito e dirigido por Nancy Buirski, e inspirado pelo livro At The Dark End of the Street: Black Women, Rape and Resistance — a New History of the Civil Rights Movement from Rosa Parks to the Rise of Black Power, de Danielle L. McGuire. (N. E.).

Uma autobiografia, de Angela Davis, está disponível em versão capa durabrochura e também e-book 

“Foram poucas as mulheres negras que narraram suas experiências e reflexões em primeira pessoa, o que faz a autobiografia de Angela tão significativa. Ela levanta indagações, observações e análises sobre a realidade que só um sujeito histórico socialmente atravessado pela intersecção da raça, gênero e classe poderia identificar. Por isso, a leitura deste livro é tão singular, porque traz esse outro olhar mais abrangente de ver e interpretar o mundo e, principalmente, transformá-lo.” — Raquel Barreto

Mulher, negra, feminista, marxista, intelectual, ativista. No início dos anos 1970, Angela Davis era tudo que o establishment estadunidense mais temia. Com firmeza, enfrentou uma dura e insidiosa perseguição: chegou a ser incluída na lista das pessoas mais procuradas pelo FBI. Aos 28 anos, escreveu esta poderosa autobiografia que a Boitempo publica pela primeira vez no Brasil, para narrar sua vida desde a infância até o ingresso na carreira universitária e o engajamento contra as opressões de raça, gênero e classe. Mais que um relato da juventude de um ícone da história contemporânea, este livro entrelaça lutas sociais e trajetória individual para provocar uma reflexão sobre o caráter estruturalmente violento do sistema carcerário, do machismo e do racismo, em libelo pelo direito à dignidade e à emancipação.

Com edição caprichada de Bibiana Leme, o livro tem tradução de Heci Regina Candiani e capa de Ronaldo Alves. O texto de apresentação é de Raquel Barreto, a orelha é da Anielle Franco e o texto de quarta-capa é de Zezé Motta.


Angela Davis é filósofa, professora emérita do departamento de estudos feministas da Universidade da Califórnia e ícone da luta pelos direitos civis. Integrou o Partido Comunista dos Estados Unidos, tendo sido candidata a vice-presidente da República em 1980 e 1984. Próxima ao grupo Panteras Negras, foi presa na década de 1970 e ficou mundialmente conhecida pela mobilização da campanha “Libertem Angela Davis”. Autora de vários livros, sua obra é marcada por um pensamento que visa romper com as assimetrias sociais. Dela, a Boitempo publicou Mulheres, raça e classe (2016), Mulheres, cultura e política (2017), A liberdade é uma luta constante (2018) e Uma autobiografia (2019). O número 30 da revista semestral da Boitempo, a Margem Esquerda, traz também um belo artigo de Angela Davis sobre “Os legados de Herbert Marcuse“, seu orientador.

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