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Foto: UNIV / Flickr

Da palavra à ação, Papa Francisco confronta crises globais e transforma Igreja Católica

Jorge Bergoglio se empenha em trabalhar pela paz, se envolvendo pessoalmente e comprometendo o Vaticano e líderes religiosos a se somarem a tarefa
Washington Uranga
Página 12
Buenos Aires

Tradução:

Ana Corbisier

11 anos de Francisco como Papa e máxima autoridade da Igreja Católica no mundo, foram mais que suficientes para evidenciar uma férrea vontade de Jorge Bergoglio de assumir a tarefa de enfrentar os desafios que hoje tem a sociedade internacional – atravessada por conflitos e iniquidades flagrantes – e a cultura contemporânea, e, ao mesmo tempo, dar volume à Igreja como um ator político no cenário mundial. Para isto, Francisco não hesitou em comprometer sua investidura institucional e sua imagem pública, assumindo posições que lhe permitiram colher apoios, mas também críticas em matérias como os conflitos internacionais e as demandas de justiça no mundo, sem deixar de lado as disputas e controvérsias teológicas e pastorais na própria Igreja Católica.

Em todos estes sentidos, Francisco não foi um pontífice que falou só a partir de seus documentos. Nas encíclicas Laudato si (24 de maio de 2015) e Fratelli tutti (3 de outubro de 2020), expôs as questões teóricas e doutrinárias. Mas estes documentos foram acompanhados por gestos, iniciativas e apoios a pessoas e grupos. Vale lembrar, entre outras questões, que sua primeira viagem como pontífice foi para Lampedusa, para encontrar-se com imigrantes refugiados e que apenas iniciada a invasão da Rússia na Ucrânia não hesitou em chegar, em pessoa e em um gesto fora de todo protocolo, até a representação diplomática de Moscou em Roma para fazer conhecer sua posição.  

Em seus textos, Francisco ratificou princípios que, embora tenham estado presentes na doutrina social da Igreja, cairam mais de uma vez no esquecimento até dos próprios pastores. Reivindicou outra vez a justiça social e o papel insubstituível do Estado, mas também deixou claro que a propriedade privada é um “direito secundário” que deve estar submetido ao “destino universal dos bens criados”. Valorizou a ação política e a vinculou à defesa da dignidade humana e à busca do bem comum acima das conquistas exclusivamente econômicas.

Nestes anos Bergoglio empenhou-se em pregar e atuar a favor da justiça e da paz. Destacou o protagonismo dos movimentos sociais, aos quais em 2015, em Santa Cruz (Bolívia) disse que “o futuro da humanidade está, em grande parte, em suas mãos, em sua capacidade de organizar-se e promover alternativas criativas, na busca cotidiana das “três T” (trabalho, teto, terra) e também, em sua participação protagonista nos grandes processos de mudança, nacionais, regionais e mundiais”.

Em relação às guerras no mundo, empenhou-se em trabalhar pela paz e nisso se envolveu pessoalmente, comprometendo institucionalmente o Vaticano e a Igreja Católica, e convocando também líderes religiosos de outras coletividades para somar-se à mesma tarefa. Várias destas gestões não tiveram êxito e também lhe acarretaram críticas, como vem ocorrendo atualmente com a hoje interrompida mediação encarregada ao cardeal italiano Mateo Zuppi em relação ao conflito entre Rússia e Ucrânia.

Para Francisco, a busca da paz no mundo é parte da própria missão da Igreja Católica. “Creio que a paz se faz sempre abrindo canais, nunca se pode fazer a paz fechando-os. Isto não é fácil”, disse em sua visita à Hungria. E na mesma ocasião afirmou que “todo o mundo está interessado no caminho para a paz. Eu estou disposto a fazer tudo o que tenha que ser feito”.

As mudanças na Igreja

Quanto ao interior da Igreja e desde o momento em que assumiu o pontificado, Bergoglio mostrou-se decidido a retomar as orientações reformadoras do Concílio Vaticano II, quase esquecidas por seus antecessores imediatos. Para isso, Francisco iniciou um profundo processo de renovação institucional da cúria romana, mas também das pessoas a cargo dela. Mudou o perfil dos cardeais (menos italianos, menos europeus e mais prelados do sul do mundo), maior participação de laicos e mulheres na tomada de decisões. Mas talvez a mudança mais significativa esteja no fomento que Francisco deu à participação de todo “o povo de Deus” plasmada particularmente na primeira parte do sínodo celebrada no ano anterior e que se encerrará em outubro deste ano em Roma.

Todos estes movimentos trouxeram aparelhadas duras críticas e ataques muitas vezes furiosos por parte de cardeais e bispos conservadores que chegaram até a acusar o Papa de ignorar a doutrina católica. 

No último ano, uma das iniciativas mais audazes e que maiores controvérsias gerou foi a declaração Fiducia supplicans ,mediante a qual e atuando com a aprovação do Papa, a Congregação para a Doutrina da Fé, encabeçada pelo cardeal argentino Víctor “Tucho” Fernández, habilitou a benção de casais homossexuais e a nova união de pessoas separadas. Apesar de que se esclareceu que tal benção não pode equiparar-se a um matrimônio católico como tradicionalmente é conhecido, os conservadores se puseram aos gritos.

Bergoglio não parece disposto a parar com suas iniciativas de continuar reformando a Igreja, mas para dar continuidade a esta tarefa também se encarrega de nomear novos bispos que sejam mais próximos ao perfil de “pastores com cheiro de ovelhas” que ele vem pregando. Serão esses novos bispos, tornados eventualmente cardeais, que deverão assumir no futuro o posto para ratificar o rumo dado por Francisco à Igreja.

E a Argentina?

Em relação a seu país, o Papa não teve uma conduta diferente do que com o resto do mundo. Há novos bispos mais próximos e afins com seu pensamento. Em geral, o episcopado segue suas orientações, mas há também membros da hierarquia rebeldes e com mal-estar em relação a Francisco, ainda que as diferenças não se tornem públicas.

Bergoglio se encarregou de Roma de levar aos altares o bispo de Rioja Enrique Angelelli e seus companheiros mártires, asassinados pela ditadura militar. Também fez santo o Cura Brochero e mais recentemente Mamá Antula. Também impulsionou o processo de canonização do cardeal argentino Eduardo Pironio.

Desde sempre criaram-se muitas expectativas quanto à possibilidade de sua viagem à Argentina. Ele nunca a descartou e nos últimos tempos esta possibilidade se fez mais concreta. Apesar dos insultos que lhe lançou Javier Milei durante a campanha, convidou-o a visitar o país mal assumiu o governo, ratificando seu convite no encontro que ambos tiveram em Roma em 12 de fevereiro passado. A partir da gestualidade que cercou aquele diálogo, o governo de LLA apresentou esta audiência como uma espécie de reconciliação entre Bergoglio e Milei. Chegou-se a dizer que o Papa “compreendeu” a preocupação do Presidente com os pobres e os que sofrem.

Foi o mesmo Francisco que poucos dias depois, na mensagem enviada a um encontro de juízes em Buenos Aires, encarregou-se de reafirmar o valor da justiça social e o papel do Estado, contradizendo Milei.

Agora, por ocasião do undécimo aniversário do pontificado de Francisco, o governo decidiu lembrá-lo com uma entrevista ao bispo castrense, Santiago Olivera, apresentado como “referência espiritual na Casa Rosada e na Quinta de Olivos”, e publicada no site oficial.

Os porta-vozes do Vaticano insistem em que a visita do Papa ao país não dependeria nunca da cor política e das ideias de quem governa. Bergoglio manifestou sua vontade de vir à Argentina, mas não é menos certo que isso dependerá também de suas condições de saúde, tendo em conta seus 87 anos e o desgaste físico que lhe impõem suas funções. Por ora, nem no episcopado, nem no governo, há indícios nem preparativos para uma viagem papal no segundo semestre do ano, como se disse em algum momento.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

Washington Uranga

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