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Da submissão europeia à derrota russa: o que move Governo Biden na Guerra na Ucrânia?

Conflito mal completou seu primeiro aniversário e já é o mais destrutivo jamais travado em solo europeu desde o final da Segunda Guerra Mundial
Sebastião Velasco de Cruz
OPEU
Campinas (SP)

Tradução:

Tudo se deu sob o mais rigoroso sigilo. Na noite de sábado, depois de uma visita ao Museu Nacional de História Americana, o casal jantou em um restaurante discreto, conhecido pela excelência de sua cozinha italiana. Na manhã seguinte, a Casa Banca avisou à imprensa que o presidente permaneceria retirado e não seria mais visto naquele dia. Neste momento, porém, ele já atravessava o Atlântico a bordo do avião da Força Aérea que tomara furtivamente durante a madrugada, na companhia de três assessores, um repórter e um fotógrafo, além de alguns poucos agentes secretos, devidamente armados e compreensivelmente tensos.

Desembarcando no Aeroporto de Rzeszów–Jasionka, Polônia, às 19h57, no horário local, o presidente dos Estados Unidos deslocou-se incógnito em uma coluna de automóveis até a estação ferroviária de Przemyśl Główny, onde tomou um trem noturno para uma viagem de dez horas que o levaria a seu destino, a capital de um país em estado de guerra[1].

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Poderia ser roteiro de um filme de ação, mas foi um lance real de marketing político extraordinário, longamente preparado com vistas à produção de efeitos bem definidos.

A sequência final começa na noite de 19 de fevereiro de 2023. Na manhã do dia seguinte, Biden aparece espetacularmente ao lado de Zelensky no Mariinsky Palace (foto de capa), em Kiev, para comemorar os feitos dos compatriotas do anfitrião, no encerramento do primeiro ano de uma guerra que muitos pensavam estar fadada a terminar em semanas.

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Na ocasião, o presidente americano faz um rápido discurso, no qual anuncia novo pacote de ajuda (militar e financeira), enaltece o heroísmo do povo ucraniano e reitera o compromisso inabalável dos Estados Unidos com sua luta, cujo objeto não é nenhum interesse particular, mas um bem universal: a liberdade.

You and all Ukrainians, Mr. President, remind the world every single day what the meaning of the word “courage” is […] You remind us that freedom is priceless; it’s worth fighting for, for as long as it takes. And that’s how long we’re going to be with you, Mr. President: for as long as it takes[2].

Você e todos os ucranianos, Sr. Presidente, lembram ao mundo todos os dias qual é o significado da palavra “coragem” […] Você nos lembra que a liberdade não tem preço; vale a pena lutar, pelo tempo que for preciso. E é assim que vamos ficar com o senhor, senhor presidente: o tempo que for preciso[2].

Não se tratava apenas de palavras, belas, mas inócuas. Para além dos gestos simbólicos e das sanções econômicas sem precedentes aplicadas à Rússia pelo bloco Ocidental sob sua liderança, os Estados Unidos foram pródigos na ajuda material e financeira ao país. O leitor pode formar uma ideia da importância dela a um simples correr de olhos pelo quadro abaixo.

Valor comprometido na ajuda à Ucrânia no primeiro ano da guerra (24/1/2022-24/2/2023). Em bilhões de euros:

 

Ajuda financeira

Ajuda militar

Total

União Europeia. Membros e instituições

35,58

19,6

61,93

EUA

29,47

51,60

83,37

Organizações multilaterais      
FMI

3,19

00,00

3.19

Banco Europeu de Reconstrução

2,78

00,00

2,78

ONU

0,05

00,00

0,05

Banco Mundial

6,91

00,00

6,91

Fonte: Adaptado do Ukraine Support Tracker, Kiel Working Paper nº 2218, Kiel Institute for the World Economy, 4/4/2023.

Sozinhos, os Estados Unidos responderam por mais da metade do total da ajuda fornecida à Ucrânia, e por quase três quartos da ajuda militar, no primeiro ano do conflito. Mesmo se desconsiderado o seu papel político como dirigente da coalizão Ocidental, não é exagero dizer que, sem o apoio dos Estados Unidos, a guerra, tal como a presenciamos, não teria existido.

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Tal como a presenciamos. Cabe salientar a condição, porque a guerra poderia muito bem ter tomado outro rumo – na ausência do apoio americano, certamente, mas também caso este tivesse atendido plenamente às demandas do governo Zelensky.

Conflito mal completou seu primeiro aniversário e já é o mais destrutivo jamais travado em solo europeu desde o final da Segunda Guerra Mundial

Foto: Adam Schultz/Casa Branca
Joe Biden e Volodymyr Zelenskyy durante uma viagem não anunciada a Kiev em 20 de fevereiro de 2023




Zona de exclusão aérea

Com efeito, no torvelinho dos acontecimentos, a memória do fato pode ter se apagado, mas já no início de março de 2022, Zelensky cobrava da “liga da liberdade” o estabelecimento de uma zona de exclusão aérea sobre o território ucraniano e o fornecimento de caças F-16 com instrutores para treinar seus pilotos, pois a aviação ucraniana fora destruída por mísseis russos. Dada o estado crítico da situação, solicitou ainda que fosse enviado de imediato à Ucrânia MIGS e Zukoys, pela Polónia e por outros países do antigo Pacto de Varsóvia[3]. 

Está nos jornais. No momento em que escrevo, esses aviões – há muito obsoletos, mas de manejo familiar aos pilotos ucranianos – estão sendo fornecidos pela Polônia, aparentemente por decisão própria, não questionada pelos Estados Unidos. Mas isso mais de um ano depois do pedido desesperado de Zelensky. Na ocasião, o governo Biden rejeitou a proposta da zona de exclusão aérea e vetou a cessão dos velhos caças soviéticos à Ucrânia.

Caça F-16D, da Lockheed Martin (Fonte: DizziyFugu/Flickr)

A cautela é compreensível. No caso da zona de exclusão aérea, a tentativa de impô-la acarretaria, inevitavelmente, um confronto direto da OTAN com a Rússia, numa escalada que poderia terminar em conflito nuclear.

A justificativa para a interdição imposta ao fornecimento de aviões de combate é menos evidente, mas se enquadra na mesma regra prática que tem evitado, até hoje, a entrega de mísseis de longo alcance (como os ATACMS, de alcance superior a 300 milhas) pelo risco de seu emprego contra alvos situados no território russo.

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Biden enunciou muito claramente esta regra em artigo importante publicado no The New York Times em maio do ano passado.

Não buscamos uma guerra entre a OTAN e a Rússia. […]. Enquanto os Estados Unidos ou nossos aliados não foram atacados, não estiveram diretamente envolvidos neste conflito, sejam tropas americanas para lutar na Ucrânia ou atacando as forças russas. Não estamos encorajando ou permitindo que a Ucrânia ataque além de suas fronteiras. Não queremos prolongar a guerra apenas para infligir dor à Rússia [4].

Bastante sensata, esta linha de conduta parece não se coadunar com sinais por autoridades americanas em favor do objetivo maximalista verbalizado insistentemente pela liderança ucraniana, de derrotar a Rússia e recuperar o domínio sobre a integralidade do território ucraniano, aí incluído a Crimeia.

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Nem sempre foi assim. Transcorrido um mês de iniciados os combates, no contexto das causas de paz mediadas pela Turquia, Zelensky se declarou disposto a discutir a neutralidade da Ucrânia em um futuro acordo de paz e estabelecer um compromisso sobre o status da região de Dombass, descartando a ideia de assume pela força todos os territórios ocupados pela Rússia, pois isso significaria ter “ uma terceira guerra mundial ”[5].


Ampliação de objetivos

Não caberia especular aqui sobre as razões de tão grande mudança, mas não passou despercebidas para a ninguém as declarações do secretário de Defesa dos Estados Unidos, Lloyd Austin, no mês seguinte, depois de rápida visita a Zelensky, em Kiev, na companhia de seu colega, o secretário de Estado, Antony Blinken:

Queremos ver a Rússia enfraquecida a ponto de não poder fazer o tipo de coisa que fez ao invadir a Ucrânia. 

Portanto, já perdi muita capacidade militar. E muitas de suas tropas, francamente. E queremos que eles não tenham a capacidade de reproduzir essa capacidade muito rapidamente .

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Era uma aparência dos objetivos do governo Biden na guerra, que parecia admitido pelo complemento feito por seu colega de gabinete:

Não sabemos como o resto desta guerra se desenrolará, mas sabemos que uma Ucrânia sóbria e independente existirá por muito mais tempo do que Vladimir Putin está em cena [6].

Retomadas no dia seguinte por ele próprio e pelo então porta-voz do Pentágono, John Kirby, na conferência de imprensa realizada durante o encerramento do encontro do Ukraine Defense Consultive Group, na base aérea de Ramstein, Alemanha, conforme declarações de Austin repercutiram fortemente por sugerindo um reposicionamento significativo do governo Biden diante da guerra[7].

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O artigo publicado por Biden, a convite, no New York Times, pode ser entendido como uma tentativa de pôr ordem na casa, reafirmando a orientação original de seu governo. Mas, nesta hipótese, é duvidoso que tenha sido de todo bem-sucedido. Pois continua gritando a disparidade entre a definição sobre a natureza fundamental do conflito e moderação relativa na provisão de meios para enfrentá-lo. Nesse contexto, a possibilidade de uma paz negociada, como pretendente a diplomacia brasileira, está fora de vista. O que se desenha no horizonte é uma guerra prolongada e desgastante, que pode assumir formas diversas, mas onde o eventual cessar-fogo não será nada mais que um passageiro armistício[8].

Secretários Lloyd Austin (à esq.) e Antony Blinken, com o presidente Zelensky (centro), em Kiev, em 24 abr. de 2022 (Fonte: Departamento da Defesa dos EUA)

Algumas vozes na comunidade de segurança americana passaram a trabalhar com cenários desse tipo, sugerindo políticas para que o bloco Ocidental neles se posicionasse da forma mais vantajosa[9]. Outros vêm alertando para os riscos de escalada implicados em uma situação tal, envolvendo potências energéticas com recursos e interesses tão desiguais no conflito. A mais enfática entre elas talvez seja a de John Mearsheimer, provavelmente o mais representante destacado, hoje, da escola realista de Relações Internacionais.

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As vias que podem ser conduzidas à catástrofe são muitas e variadas (um pequeno acidente, como o choque entre dois aviões caça, desencadeando uma espiral ascendente; um ataque russo a campos de treinamento que acarrete a morte de grande número de instrutores americanos; a decisão russa de bombardear o território de um país-membro da OTAN para interromper o fluxo de material bélico fornecido à Ucrânia, por exemplo), mas é a lógica da situação descrita por Mearsheimer que fundamentalmente interessa ao presente estudo. Em suas palavras,

Desde o início da guerra, Moscou e Washington aumentaram significativamente suas ambições, e ambos agora estão profundamente comprometidos em vencer a guerra e alcançar objetivos políticos formidáveis. […] isso significa que os Estados Unidos podem se juntar à luta se estiverem desesperados para vencer ou para evitar que a Ucrânia perca, enquanto a Rússia pode usar armas nucleares se estiver desesperada para vencer ou enfrentar uma derrota iminente, o que seria provável se os EUA forças foram atraídas para a luta.

 … O pensamento maximalista que agora prevaleceu tanto em Washington quanto em Moscou dá a cada lado ainda mais motivos para vencer no campo de batalha para que possa ditar os termos da paz final. Com efeito, a ausência de uma possível solução diplomática fornece um incentivo adicional para ambos os lados subirem a escada da escalada. O que está mais acima nos degraus pode ser algo realmente catastrófico: um nível de morte e destruição superior ao da Segunda Guerra Mundial [10].

Vias que podem levar, não que levarão à catástrofe. É importante ressaltar a diferença, porque o argumento de Mearsheimer é condicional. A lógica que ele expõe tem como premissa a redefinição maximalista dos objetivos da guerra pelos dois contendores. Mas nada garante que estes permanecerão inalterados ao longo do tempo. Da mesma forma que a situação cambiante no terreno levou à expansão dos referidos, uma série de ocorrências objetivos facilmente imagináveis – uma escalada de tensão no estreito de Taiwan, ou o crescimento da oposição à sua política na guerra, em tempos de eleição presidencial, por exemplo – pode induzir o governo Biden a um reposicionamento.


Desfecho sombrio

Não discutirei a probabilidade, maior ou menor, de tal mudança, nem do desfecho sombrio que se desenha no horizonte na hipótese de continuidade na postura ora adotada pelos protagonistas. Em vez disso, proponho-me, neste artigo, uma reflexão sobre duas questões entrelaçadas: a ambivalência da conduta americana diante do conflito; e o papel atribuído ao embate com a Rússia em torno da Ucrânia no conjunto da estratégia global dos Estados Unidos.

Antes de entrar na análise, porém, devo dizer uma palavra rápida sobre alguns aspectos subentendidos na discussão que se seguirão.

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O primeiro diz respeito à relação da guerra com interesses particulares de empresas e setores médicos. Os ganhos decorrentes da guerra para alguns deles são evidentes. Considere-se, a título de exemplo, a indústria bélica. Os Estados Unidos são os maiores produtores de armas no mundo. Ao transferir para a Ucrânia bilhões de dólares em armamentos antigos acumulados em seus estoques, o governo americano recheia a carteira das empresas do setor com encomendas novas.

Os Estados Unidos são grandes produtores também de petróleo e de gás liquefeito. Desde a revolução do fracking , no começo do século presente, tornaram-se autossuficientes e passaram a gerar saldos exportáveis de gás vultuosos. O problema que dificultava a obtenção de uma fatia maior do mercado era o preço da mercadoria e a infraestrutura necessitava para sua importação. As satisfações aplicadas à Rússia implicaram a ruptura das linhas de abastecimento de petróleo e gás russo à Europa, encarecendo imediatamente os dois produtos e abrindo um mercado imenso que as firmas americanas passaram a ocupar a gostosamente.

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Nada disso está em questão, mas explica a eclosão do conflito e a conduta do governo americano em seu decurso pelo peso dos biológicos favorecidos com ele seria tomado o efeito pela causa. Entre a constatação de que grupos rejeitados ganharam com uma dada política e a proposição de que esta foi aceita com o fim de beneficiar-los à distância é muito grande. O analista que estabelece uma conexão direta entre elas dá um salto mortal no escuro e, como acontece nesses casos, desaba.


Efeitos do conflito

Mais complexos e mais convincentes são os argumentos que apontam para os efeitos geoeconômicos e geopolíticos do conflito. O mais evidente e mais comentado entre eles é a subordinação acrescida da Europa à direção político-ideológica dos Estados Unidos.

O estreito acima referido é ilustrado eloquentemente pelo silêncio da Alemanha face ao ataque terrorista aos gasodutos Nord Stream 1 e 2 construídos, contra a oposição tenaz dos Estados Unidos, com casos russos e germânicos, para atender a demanda de gás da indústria e das famílias alemãs .

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Apesar da condição de vítima de agressão criminosa, traduzida em desastre ecológico e perdas bilionárias, a Alemanha não manifestou interesse nenhuma na proposta pela China e pela Rússia de criação de uma comissão independente para investigar as circunstâncias e a autoria do ato, que recebeu o voto favorável do Brasil no Conselho de Segurança da ONU.

Como lógica e as informações disponíveis apontam para suspeitos “inconvenientes”, o caso continua sob investigação sigilosa – por agências alemãs e de países “amigos”, ainda que confessadamente satisfeitos com os resultados do atentado.

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Esses e outros fatos reforçam o argumento daqueles, como Michel Hudson, que entendem ser a Europa (em particular a Alemanha) o principal alvo da guerra na Ucrânia.

O país que mais sofre “danos efeitos colaterais” nessa fratura globalescreve este autor é a Alemanha. Como a economia industrial mais avançada da Europa, aço, produtos químicos, máquinas, automóveis e outros bens de consumo alemães são os mais altamente dependentes das importações de gás, petróleo e metais russos, de alumínio a alavanca e paládio. No entanto, apesar de dois gasodutos Nord Stream construídos para fornecer energia de baixo preço à Alemanha, a Alemanha foi instruída a desligar o gás russo e desindustrializar. Isso significa o fim de sua preeminência econômica. A chave para o crescimento do PIB na Alemanha, como em outros países, é o consumo de energia por trabalhador.

Essas qualidades anti-russas tornam a Nova Guerra Fria de hoje inerentemente anti-alemã [11].

Aspas no início do parágrafo são marcas de ironia porque, no entender de Hudson, o prejuízo incorrido pela indústria alemã não tem nada de colateral, corresponde antes ao objetivo maior perseguido pelos Estados Unidos na crise.

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Com efeito, reza o argumento, manter a Europa em sua esfera de influência é fundamental para a superpotência. E a Europa ameaça desgarrar-se ao intensificar seus laços biológicos com a China e a Rússia.

A questão é quanto tempo os Estados Unidos podem impedir que seus aliados aproveitem o crescimento econômico da China. A Alemanha, a França e outros países da OTANão buscarão a proteção para si mesmos, em vez de deixar o padrão do dólar americano e os comerciais influenciados desviarem seu superávit econômico? [12]

De novo, podemos admitir que – intencionais ou não – os efeitos dos acertados apontados pelo autor sejam reais e empiricamente comprováveis. E podemos ainda acompanhá-lo em sua análise sobre o objetivo estratégico dos Estados Unidos de manter a Europa na posição de caudatária. Mas nada disso nos permite entender por que ambas as coisas tendo sido buscadas exatamente por este meio: uma guerra que mal completou seu primeiro aniversário e já é a mais destrutiva jamais travada em solo europeu desde o final da Segunda Guerra Mundial.

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O caminho tomado neste artigo é outro. Ele parte do certo de que a chave para entender a conduta do governo Biden na guerra deve ser buscada nas relações construídas historicamente entre os Estados Unidos e a Rússia desde o final da Guerra Fria.

Ao fazer esta afirmação não desconsidero as dimensões nacional e regional do conflito. No entanto, uma intervenção militar russa na Ucrânia surge como o início de uma crise política internacionalizada de forma congênita. Ou melhor, um ciclo de crises que teria outro ocorrido, caso se articulasse de maneira diversa com os interesses e as políticas das grandes potências – em particular como as duas antes mencionadas.

A guerra na Ucrânia envolve um conjunto de determinações complexamente entrelaçadas. Mas o que move a política do governo Biden no conflito é o antagonismo Estados Unidos-Rússia.


Notas

[1] As informações contidas neste breve relato foram extraídas de Baer, Peter & Shear, Michael D., “Biden's Surreal and Secretive Journey Into a War Zone”, The New York Times , 20/2/2023, e SamuelsBrett , “Como aconteceu a viagem secreta do presidente Biden à Ucrânia”, The Hill , 20/2/2023.

[2] Casa Branca, Observações do Presidente Biden e do Presidente Zelenskyy da Ucrânia em Declaração Conjunta , 20/02/2023.

[3] Cordes, Nancy et alli, “Zelensky pede aviões de combate em chamada de Zoom com o Congresso”, CBS News , 5/3/2022.

[4] “Presidente Biden: o que a América fará e não fará na Ucrânia.” The New York Times , 31/5/2022.

[5] “Zelensky diz que a Ucrânia se preparou para discutir a neutralidade nas relações de paz”, BBC NEWS , 28/3/2022; “Ucrânia pronta para discutir a adoção de status neutro no acordo de paz com a Rússia, diz Zelenskiy”, Reuters, 28/3/2022.

[6] “Austin diz que os EUA querem ver as capacidades militares da Rússia enfraquecidas”, CNN, 25/4/2022.

[7] Cfr. Forgey, Quint, “Austin: EUA acreditam que a Ucrânia 'pode vencer' a guerra contra a Rússia”, Politico , 26/4/2022; Borgerin, Julian, As observações do chefe do Pentágono sobre a Rússia mostram uma mudança nos objetivos declarados dos EUA na Ucrânia”, The Guardian , 25/4/2022.

[8] Concluí que este seria o início mais provável do conflito já na primeira vez que refletiu sobre o tema, por razões que expus em minha participação no programa Conflitos Geopolíticos e Geoeconômicos: Que Futuro Esperar? , organizado pelo Instituto AMSUR, YouTube, 21/3/2022.

[9] Cfr. Daalder, Ivo H. & Goldgeier, James, “A longa guerra na Ucrânia. O Ocidente precisa planejar um conflito prolongado com a Rússia”, Relações Exteriores , 01/09/2023.

[10] Mearsheimer, John J. “Brincando com fogo na Ucrânia. Os riscos subestimados de uma escalada catastrófica”, Relações Exteriores , 17/8/2022.

[11] Hudson, Michael, “A posição da Alemanha na Nova Ordem Mundial da América”, Michael Hudson sobre Finanças, Imóveis e o Poder do Neoliberalismo , 11/02/2022.

[12] Hudson, Michael, “os verdadeiros adversários da América são seus aliados europeus e outros”, Ibid, 8/2/2022.

Sebastião Velasco e Cruz | coordenador do INCT-INEU e do OPEU, Professor Titular da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e Professor do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas ( UNESP/UNICAMP/PUC-SP).

** Recebido em 2 jun. 2023. Este texto é a primeira parte do Estudos e Análises de Conjuntura intitulado O Quadrilátero da Crise. A Guerra na Ucrânia e o governo Biden. Seu conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, e/ou do INCT-INEU 


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