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De San Martín a Chávez: dois séculos em busca da Pátria Grande

Revista Diálogos do Sul

Tradução:

San Martin en el cruce de la cordillera
San Martin atravessando a cordilheira dos Andes

Em 1922, quando os Estados Unidos se consolidavam como grande potência imperialista, Manuel Ugarte publicou um livro intitulado “A pátria grande”. Trinta anos antes, em 1891, José Martí escrevera um breve ensaio intitulado “Nossa América”, reafirmando um nós que marcava distância da outra América, a anglo-saxônica.

Para dizer a verdade, tanto Ugarte quanto Martí não faziam mais do que retomar um ideário que já estava presente desde os tempos da guerra de independência. Artigas, San Martín e Bolívar, entre muitos outros patriotas, sonharam e projetaram uma grande nação latino-americana que pudesse fazer frente à dominação estrangeira.

No entanto, o projeto unificador dos revolucionários do começo do século XIX foi derrotado. As diferentes oligarquias locais não estavam dispostas a abrir mão das enormes possibilidades de enriquecimento que lhes proporcionava um vínculo direto com as metrópoles, no contexto de uma divisão internacional do trabalho que antecipava a era do império. Desta forma, os nascentes estados nacionais foram se configurando a partir das fronteiras fixadas pela coroa espanhola desde os tempos coloniais. A divisão da Nossa América em diferentes unidades políticas e territoriais convinha à política imperial.

Para os libertadores da América, a construção de uma Pátria Grande latino-americana constituía uma necessidade. Só a união dos povos hispano-americanos permitiria derrubar o poder colonial e garantir a soberania política em uma época em que poderosas potências, como Inglaterra, França, Portugal e os Estados Unidos, ameaçavam substituir uma dominação por outra.

A ideia de uma Pátria Grande supunha, na época, a unificação territorial, a soberania política e o anti-imperialismo, mas, ao mesmo tempo, ia muito mais além. San Martín, Bolívar e Artigas estavam convencidos de que sua causa dependia do apoio das grandes maiorias populares. A Pátria Grande só seria possível no contexto de um projeto político sustentado pela mobilização popular e oposto aos interesses das elites oligárquicas associadas às potências estrangeiras. Durante as guerras de independência, as milícias de San Martín e Bolívar, compostas por índios, negros e mestiços, transformaram-se em verdadeiros exércitos populares. Assim como Castelli — que, em 1811, nas ruínas de Tiahuanaco, decretou a abolição do tributo indígena, tocando a fibra mais sensível do sistema colonial — os heróis da independência estavam convencidos da necessidade de ampliar as bases sociais da revolução.

A todos estes elementos constitutivos do projeto da Pátria Grande é preciso acrescentar mais um: a decisão consciente e deliberada de colocar as principais molas da economia sob controle estatal. O Estado, cujo objetivo consiste em promover o bem comum e a felicidade do povo, seria uma ferramenta formidável a serviço das grandes maiorias populares. Esta concepção aparece bem cedo no Plano de Operações de Mariano Moreno, mas também nas políticas econômicas postas em prática por San Martín como governador de Cuyo e nas medidas adotadas pelo governo revolucionário de Artigas. Nenhum deles hesitou em transformar o Estado em um “Estado expropriador” para orientar a atividade econômica em função dos interesses da maioria.

Simón Bolivar Simón Bolivar

Falar da “Pátria Grande”, portanto, implica em falar de integração regional, de soberania política, de protagonismo popular e de um programa econômico posto a serviço das grandes maiorias populares.

Em meados do século XX, a Revolução Cubana, impregnada pelo nacionalismo revolucionário de José Martí, voltou a tornar central esta questão, vinculando as lutas pela libertação nacional às lutas pela libertação social, demonstrando que são, afinal de contas, uma única. Nos últimos tempos, depois da longa noite das ditaduras militares e do neoliberalismo, as ideias vinculadas à Pátria Grande voltaram a ocupar um lugar central graças a potentes movimentos populares  e a líderes políticos como Hugo Chávez Frías.

Quem quer que, nos últimos quinze anos, tenha ouvido algum dos discursos de Chávez recordará o fascínio que o líder bolivariano tinha pela história da América Latina. Era muito frequente Chávez apelar à história latino americana para falar de certos processos que ocorriam no presente. Cada discurso seu era, de alguma maneira, uma lição de história e os nomes de San Martín, Bolívar, Artigas, Zamora, Morazán e tantos outros se mesclavam às problemáticas atuais.

A referência ao passado não era casual. Chávez sabia, melhor que ninguém, que não há nenhum projeto emancipador que possa prescindir de uma memória histórica ancorada nas grandes lutas populares. Mas em Chávez, as referências a estas figuras e ao ideário da Pátria Grande não ficavam na mera retórica discursiva, projetando-se em práticas políticas bem concretas. Assim como Cuba foi, durante décadas, uma referência essencial e um ponto de apoio para todos os movimentos revolucionários da América Latina, a Venezuela se transformou, desde o começo da Revolução Bolivariana, em uma alavanca da unidade política e econômica dos países da região.

Se a Pátria Grande implica integração regional, ninguém como Chávez para lançar, uma depois da outra, em apenas quinze anos, iniciativas nesse sentido: desde a ALBA à Unasur; desde o Banco do Sul à Petrocaribe; desde Telesur à CELAC. Com Chávez no comando, as relações econômicas e comerciais entre a Venezuela e os países da América Latina responderam a uma lógica muito diferente da lógica da rentabilidade capitalista: a lógica da solidariedade entre os povos. Cuba e Nicarágua, entre outras nações irmãs, são exemplos evidentes.

Se a Pátria Grande implica soberania política e anti-imperialismo, ninguém como Chávez para postar-se frente às grandes potências e resistir a seus planos de dominação. Se “como amostra vale um botão”, basta recordar o papel decisivo que desempenhou sua liderança no momento de articular uma posição conjunta contra a ALCA durante a cúpula de presidentes reunida em Mar del Plata em 2005 e desarticular assim um dos mais ambiciosos projetos do império.

Se a Pátria Grande implica num projeto emancipador a partir e para as grandes maiorias populares, ninguém como Chávez para implementar incansavelmente formas de organização popular a partir de baixo, como as comunas e os conselhos comunais, convencido de que só uma robusta democracia participativa e protagônica, apoiada na mobilização política das massas, pode garantir a consolidação do processo revolucionário.

Se a Pátria Grande implica independência econômica e controle dos povos sobre os bens comuns e os recursos estratégicos, ninguém como Chávez para colocar a renda do petróleo sob controle estatal, destinando-a à criação de programas sociais e comunitários, ou levar adiante uma grande quantidade de expropriações com o objetivo de garantir a produção de alimentos e a geração de insumos em função das necessidades das classes mais carentes.

Entre seus tantos legados, a experiência chavista nos deixa um insubstituível: a certeza de que não há alternativas frente à barbárie capitalista fora do socialismo. Foi Chávez que levantou a bandeira do socialismo precisamente nos momentos mais difíceis do socialismo, lembrando-nos – como Cuba no fim dos anos cinquenta – que a libertação nacional e a libertação social são dois processos que caminham juntos. “Não há terceira via: ou socialismo ou capitalismo”, não se cansava de repetir Chávez.

Assim, Chávez recupera o ideário de Artigas, de San Martín e de Bolívar,  reúne as contribuições de Martí e de Sandino, toma o legado da Revolução Cubana e atualiza a discussão em torno da Pátria Grande, enquanto projeto que deve ser retomado para alcançar a segunda e definitiva independência dos povos de Nossa América.

Frente Nacional Dario Santillán Corriente Nacional.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
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