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Debate sobre a suspensão da ajuda militar ao Egito

Revista Diálogos do Sul

Tradução:

Paulo Cannabrava Filho*

Paulo Cannabrava Filho. Perfil DiálogosOs Estados Unidos têm mantido ao longo dos últimos dez anos, uma ajuda militar ao Egito de 1.5 bilhão de dólares anuais e outros 500 milhões de ajuda aos programas de segurança. Com a matança massiva de manifestantes depois do golpe contra o governo de Mohamed Morsi, em julho, surgiu quem questionasse essa ajuda por razões éticas, mas não são essas razões as que se impõem e já ultrapassam de mil os mortos amontoados nas improvisadas morgues do Cairo.

Como essa questão da ajuda militar entrou em discussão no congresso, os democratas admitiram suspender uns 300 milhões anuais do destinado para segurança interna. Democratas e republicanos concordaram que nos 1.5 bilhão não se pode tocar pois aumentaria o desemprego na já recessiva economia do país.

Para dar satisfação à opinião publica, o presidente Barack Obama anunciou, em meados de agosto, a suspensão dos exercícios conjuntos Bright Star com as forças armadas egípcias previstos para setembro e aventou a possibilidade de suspender ajuda financeira ao Cairo.

A repressão já matou milhares no Egito.
A repressão já matou milhares no Egito.

Palavras e mais palavras. Nenhum meio de comunicação falou da responsabilidade dos Estados Unidos no massacre que vem sendo perpetrado por um exército que é financiado, alimentado e treinado por eles.

A Europa, diante do caos econômico provocado por esta guerra civil que impuseram ao Egito liberou cinco bilhões de dólares de ajuda econômica alegando razões humanitárias. Ato seguido, a monarquia saudita anunciou a liberação de outros cinco bilhões de dólares para evitar a quebra da economia egípcia.

Pareceria que estão todos loucos tão graves os disparates. Primeiro, incentivam a derrocada de Mubarack e aplaudem a ascensão da Irmandade Muçulmana para depois colocar-se contra ela e promover o retorno do exército ao poder. Enquanto o país e afunda numa guerra civil provocada, os EUA e seus aliados do Golfo e da Europa assumem o controle de Suez, de importância estratégica vital para os planos de ocupação da região.

As forças armadas estadunidenses dependem do Egito para transportar pessoal e equipamentos para o Afeganistão e outras áreas de conflito no Oriente Media e, não é por acaso que depois de Israel é o Egito que recebe o maior volume de ajuda militar dos EUA, e isso desde os acordos de Camp David que selou a paz entre esses dois países.

Diz um telegrama de Prensa Latina que durante 2012, mais de dois mil aviões de guerra estadunidenses voaram através do espaço aérea egípcio, em apoio a missões em território afegano e em toda a região do Oriente Próximo, enquanto cerca de 45 barcos da marinha de guerra atravessam o Canal de Suez anualmente, incluindo grupos de ataque e porta-aviões.

Se um governo egípcio proibisse os Estados Unidos de usar o espaço aérea e o acesso ao Canal de Suez, enfrentariam custos e tempos de espera demasiado altos para transportar suas forças e meios a outros teatros de operações. Os barcos militares teriam que fazer um percurso de duas semanas e mais de seis mil milhas náuticas contornando a África para chegar ao Golfo Pérsico.

Para o público interno, os meios informam que o secretario de Defesa Charles Hagel realizou nas últimas semanas 17 conversações telefônicas com o Abdel Fattah al-Sisi, que comanda a repressão egípcia, a quem advertiu que a repressão contras as manifestações contra o governo coloca em risco as relações entre o Pentágono e as forças armadas egípcias. Não obstante, Fatah al-Sisi reiterou que seu governo manterá a postura firme contra grupos islâmicos que se opõem a derrocada de Morsi.

Manutenção de guerras localizadas interessa para manter em movimento o complexo militar industrial em uma economia em crise e decadente. A eclosão de guerras civis, iniciadas e conduzidas por mercenários, como é o caso da Síria, substitui as dispendiosas mobilizações de tropas que desagrada a opinião pública. Com isso economiza-se em vidas e ganha-se com a venda de armamento e munições, ganha-se com as prestadores de serviço de reconstrução, de inteligência e outros.

Como disse nossa diretora Beatriz Bíssio, quem perde é a humanidade. O custo da destruição de uma civilização milenar, de obras que são patrimônio como os museus saqueados, e o entorpecimento das mentes patrocinado por uma mídia que tudo aprova e justifica.

*Paulo Cannabrava Filho é jornalista e historiador, editor de Diálogos do Sul.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
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