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Dedo-duro da ditadura, mentiroso compulsivo e amoral: Cabo Anselmo é tema de série de TV

A série conta com depoimentos de 50 pessoas ligadas direta ou indiretamente a organizações de esquerda ou que conviveram com o “cabo"
Inácio França
Marco Zero
Recife

Tradução:

O cabo Anselmo, na verdade, nunca foi cabo; fez treinamento de guerrilha em Cuba sem acreditar na luta armadagolpe militar de 1964certidão de nascimento. Por fim, ao morrer no dia 15 de março deste ano, foi enterrado com o nome falso de Alexandre da Silva Montenegro.

É difícil encontrar um fio de verdade na trajetória e nas palavras de José Anselmo dos Santos, um dos mais sombrios personagens da ditadura militar brasileira, iniciada em 31 de março de 1964 e encerrada em 21 de abril de 1985.

Os registros e a memória de quem viveu aquele período informam que, de liderança dos marinheiros que formaram uma inédita Associação de Marinheiros e Fuzileiros Navais e “estrela” dos guerrilheiros treinando em Cuba, ele passou a ser conhecido como dedo-duro que entregou amigos e a namorada grávida para serem torturados e fuzilados.

Odiado pela militância de esquerda e desprezado pelos militares, Anselmo (ou Alexandre, ou Jonâtan, ou Daniel, ou Américo Balduíno, ou companheiro Renato, ou Mário Soria) é tema e protagonista da série documental Em busca de Anselmocom direção e roteiro do jornalista Carlos Alberto Jr. O primeiro dos cinco episódios foi ao ar em 12 de abril, no canal HBO e a partir de hoje, quarta-feira, dia 13, na plataforma de streaming HBO Max.

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A série conta com depoimentos de 50 pessoas ligadas direta ou indiretamente a organizações de esquerda ou que conviveram com o “cabo”, além de imagens de arquivo tão raras quanto históricas que, ao menos nos dois primeiros capítulos disponibilizados pela HBO, se encaixam muito bem à narrativa.

Um dos pontos altos dos primeiros episódios ocorre quando ele é confrontado não por um ex-militante, mas por um parente, no interior de Sergipe.

No entanto, o maior mérito da produção é ter conseguido convencer Anselmo a participar. “Não havia sentido em narrar sua história e suas traições sem ouvi-lo. Assim que ele concordou, decidimos que seus depoimentos seriam a base sobre a qual a série seria assentada”, explica Carlos Alberto.

O diretor tem esperanças que a produção “estimule a retomada das discussões sobre o papel da tortura, a revisão da lei de anistia e a Justiça de transição no Brasil”.

A série conta com depoimentos de 50 pessoas ligadas direta ou indiretamente a organizações de esquerda ou que conviveram com o “cabo"

Captura de Tela – Roda Vida / YouTube
Cabo Anselmo passou a ser conhecido como dedo-duro que entregou amigos e a namorada grávida para serem torturados e fuzilados

Amoral e mentiroso

Carlos Alberto conviveu por semanas com Anselmo para gravar em São Paulo, Rio de Janeiro, Sergipe e Pernambuco. As impressões do diretor e roteiristas confirmam o que se vê na tela:

“Ele era um mitômano [quando uma pessoa mente compulsivamente, entrando num ciclo em que as falsas histórias acabam se tornando um estilo de vida], não dava para acreditar numa só palavra do que ele dizia, porém quando se referia a alguma pessoa viva, que podia desmenti-lo, ele mencionava fatos que poderiam ser comprovados. Quando se referia a pessoas que tinham morrido, aí mentia sem pudor”.

Para Carlos Alberto, havia método nessa aparente loucura, pois a desinformação e a confusão interessam aos torturadores e agentes da repressão.

E o “cabo” Anselmo tinha muito a esconder, tanto que passou a usar a identidade falsa de Alexandre Montenegro fornecida pela equipe do delegado Sérgio Paranhos Fleury. Tudo indica que sua última tarefa como informante da repressão tenha sido a que resultou no episódio conhecido como “O Massacre da Chácara São Bento”, em Paulista, território do atual município de Abreu e Lima.

Vanguarda Popular Revolucionária

Durante meses, ele atraiu militantes para formar uma suposta nova célula guerrilheira da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) na periferia do Recife. Apesar da sequência de mortes que levou a organização ao colapso, aos poucos Anselmo formou o novo grupo. As desconfianças de que ele era traidor já existiam, mas demoraram meses para se espalhar no ambiente de clandestinidade.

Anselmo aglutinou seis jovens apenas para entregá-los aos policiais, que os prenderam ilegalmente, torturaram e mataram. E aqui há um detalhe cruel: uma das jovens assassinadas era a paraguaia Soledad Barret Viedma, sua própria namorada, grávida de um filho seu.

Onde estão as crianças sequestradas pela ditadura civil militar brasileira?

Nos dois primeiros episódios da série, provavelmente o mais completo retrato já produzido sobre esse personagem, o “cabo” se revela amoral, tratando com frivolidade o destino trágico das pessoas que cruzaram seu caminho nos anos 1960 e 1970. Em vez de um militante convicto, Anselmo se mostra um homem que aproveitou o momento e “satisfez o ego”, como ele mesmo admite, junto a líderes autênticos como Carlos Marighella ou Leonel Brizola, porém sem vínculos ou apego às pessoas e àquilo que, ao menos aparentemente, fazia parte.

Em vários momentos, o dedo-duro comete atos falhos, cai em contradições e parece estar próximo de confessar seus crimes, um dos objetivos da série.

Inácio França, Jornalista e escritor. Foi repórter do extinto Diário Popular (SP) e da sucursal paulista de O Globo. No Diário de Pernambuco recebeu, entre outros, os prêmios Cristina Tavares de Jornalismo e Vladimir Herzog de Jornalismo e Direitos Humanos. 


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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