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Dengue, fungos, intoxicações: a vida dos que têm como única opção os lixões na Guatemala

Mãos e pés enchem de cicatrizes enquanto buscam material para vender; os dias mais difíceis são quando chove, pois a água não deixa perceber os cacos
Ilka Oliva Corado
Diálogos do Sul
Território Estadunidense

Tradução:

São as 11 de noite, são 16 horas entre o lixo, montanhas e montanhas de lixo, buscando cobre, vidro, papelão e plástico. Quando têm sorte encontram bolacha e guloseimas empacotadas, as comem de um bocado, embora muitas vezes se intoxicaram, mas a necessidade pode mais, é a vida dos catadores de lixo, pensa Catalino Sixto que também ouviu dizer o mesmo por seus pais e os vizinhos da comunidade onde vivem. Tem as mãos e os pés cheios de cicatrizes de cortes que fez com pedaços de vidros quando busca material para vender.

Os dias mais difíceis são quando chove porque a água acumulada no lixo não deixa ver os cacos, além disso, enche os pés de fungos e fica doente com gripe porque a água acumulada lhe chega até os tornozelos. 

A dengue é o que abunda em sua comunidade nos dias de inverno e morrem muitos recém-nascidos. Impregna o cheiro do lixão na pele, embora tome banho a toda hora não pode tirá-lo, é o que melhor conhece melhor, toda a sua vida passou metido aí. Viu como os deslizamentos levam na corrente famílias inteiras. 

Seus pais são migrantes na capital, embora ele e seus oito irmãos tenham nascido aí com a ajuda de vizinhas que foram parteiras em seus povoados e agora são catadores como eles, na comunidade Anexo Manuel Colom Argueta.  A maioria das pessoas que vive aí recolhe como eles, embora também haja muitos que trabalham em jardinagem e na manutenção de casas e centros comerciais. 

Mãos e pés enchem de cicatrizes enquanto buscam material para vender; os dias mais difíceis são quando chove, pois a água não deixa perceber os cacos

Flickr
Muitas famílias brasileiras sobrevivem do que podem recolher nos lixos

Há muitos indígenas que como seus pais são migrantes na capital. Seu pai é de Todos os Santos Cuchumatán, fala mam, sua mãe é de Chisec, Alta Verapaz, fala poqomchi, ambos aprenderam a falar espanhol na capital. Seu pai chegou aos 16 anos para trabalhar como guarda-noturno, cuidado de uma oficina mecânica de noite e sua mãe chegou com 12, a contrataram com outras meninas de sua aldeia para arrumar tortilhas em um restaurante no Centro Histórico. 

Foi a primeira a chegar na comunidade, aí alugavam um quarto com outras meninas. Sua mãe depois trabalhou como empregada doméstica em uma das casas na estrada a El Salvador, até que a despediram por ficar grávida, tinha 14 anos e se havia enamorado de um dos jardineiros que trabalhavam na zona, o mesmo que ao ficar sabendo da gravidez despareceu e não deu as caras. Seu pai não é seu pai biológico, Catalino Sixto é o mais velho dos 9 irmãos.

Sua mãe ficou na comunidade e foi trabalhar como coletora no lixão, por pouco teve ele aí, pois andava buscando plástico quando lhe deram as dores e as outras catadoras conseguiram tirá-la e levá-la para sua casa, aí nasceu ele a poucos metros do lixão, isso o marcou a vida toda, como a outras crianças que nasceram também ali.

Seu pai chegou quando ele tinha dois anos, já não trabalhava como guar-noturno, nessa época limpava cebolas no mercado La Terminal e era ajudante em uma das vendedoras de grãos, seu trabalho era descarregar os caminhões que chegavam com milho e feijão. Aí conheceu vários que chegavam do lixão com papelão e rolos de cobre que tiravam dos fios de luz. 

Eles lhe contaram de negócio de coletar e que seria seu próprio chefe, assim foi a dar na comunidade onde alugou um quarto onde viviam outros 11 coletores que haviam chegado de diferentes partes da Guatemala, migrantes como ele. Que como ele haviam terminado como coletores mas que chegaram por outros trabalhos similares.

Nem sua mãe nem seu pai nunca foram à escola, também não os mais velhos de seus irmãos e começaram a trabalhar desde muito novos para ajudar com os gastos de casa, assim enviaram dinheiro durante anos para a criação de seu irmãos. Ele teve que repetir a história, com 8 irmãos teve que deixar de estudar no terceiro ano primário, embora tenha começado a trabalhar desde os 5 procurando papelão e plástico com seus pais. Tem 16 agora, a mesma idade que tinha seu pai quando emigrou e como seu pai também ele pensa em emigrar, mas para muito mais longe, está cansado da fome, das longas horas de trabalho, durante o dia trabalha como coletor de lixo em um caminhão, gritou durante anos: Lixo! Lixo! Até perder a voz, que se sente um lixo também. Que sonhos pode ter, se pergunta sempre, se onde quer que vá o excluem, por seu cheiro a rejeitos, por seu aspecto de indígena, pelas tatuagens que tem nos braços, por sua forma de falar, por sua roupa limpa, mas velha, remendada, por seus sapatos rotos, que pode ansiar na Guatemala um coletor de lixo, se perguntam ele e seus amigos quando se desbarrancam entre as montanhas de lixo buscando cobre, o que pagam melhor. 

O vendem no marcado La Terminal, a 30 quetzais a libra, mas para tirar uma libra se leva até 4 dias, porque têm que buscar os fios que o tenham, buscá-los entre as montanhas de lixo onde na maior parte do tempo se cortam com os pedaços de garrafas e latas abertas e enquanto vão encontrando o cobre, recolhem papelão, garrafas de vidro e plástico que também vendem, mas a menor preço e ocupam mais espaço para o transporte.  É que essa é outra coisa, têm que pagar um frete para que os leve e nisso se vai um pouco de ganho. Não puderam construir sua casa, a tem feita de pedaços de zinco que encontraram no lixo, como a maioria em sua comunidade.

Muitos de seus amigos foram mortos, outros se mataram eles mesmos jogando roleta russa, porque que vida pode desejar alguém que vive do lixo, que cheira a lixo e que se sente lixo, o melhor que lhes podia acontecer, sempre pensaram, era dar-se eles mesmo um tiro na cabeça e morrer de repente. As pistolas sempre estiveram na ordem do dia, também a venda de droga, trabalhar como repartidores, a outros lhes ofereceram trabalho cuidando de grupo de crianças que pedem dinheiro e mantê-los tranquilos, outros tantos perderam a noção do tempo, da realidade e a memória, cheirando cola o dia todo, foi essa sua própria forma de desaparecer, tampouco existiam antes.

Não é só a fome, a angústia, o desvelo, o cansaço, também é o desamor de seu pai que cada vez que consegue vender cobre gasta o dinheiro bebendo e chega bêbado em casa e bate na mamãe e nos irmãos, nele também batia mas não o faz mais desde um dia que lhe deu umas pancadas, não queria fazer isso, mas enlouqueceu e sem pensar respondeu, porque lhe batia mais forte que a todos, com a fivela da cinta porque não era seu filho, por isso batia assim, porque não era seu filho de sangue e porque era tudo o contrário dele.  

É a vida de Catalino Sixto e outros três mil pessoas no lixão da zona 3, sem contar as crianças que abundam como formigas entre o lixo. Das famílias que passaram pelo Anexo Manuel Colom Argueta, são poucas as que estão completas; a uns lhe tragou o lixão no inverno, a outros os mataram, a outros os desapareceram, alguns deram um tiro na cabeça e outros que emigraram. E é isso o que quer fazer Catalino Sixto, ir embora desse país que só o descriminou e humilhou. 

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Quer viver em um lugar onde não lhe digam que cheira a merda, onde não o discriminem por seus traços indígenas, por isso irá junto com outros amigos, nenhum pensa em dizer nada a seus pais, só pegar o caminho e quando cheguem e comecem a trabalhar começar a enviar dólares para que suas famílias deixem de recolher lixo. Sonham em construir suas casas com blocos, que sejam bonitas e resistentes com colunas de cimento e se a vida os ajuda construir um terraço para pendurar a roupa lá em cima. Comprar-lhes um recipiente enorme para que guardem a água que só chega ocasionalmente, algumas horas por dia, dois dias por semana. Querem suas casas com uma janela e um pequeno balcão para que suas mães pendurem aí os vasos de flores que as pessoas atiram nos caminhões de lixo. Só seria dar-lhe amor para que floresçam.

São as 11 da noite, será a última na qual recolhe lixo, de madrugada se irão para Tapachula e cruzarão pelo rio Suchiate, subiram no lombo da Besta e chegarão até Sonora, daí arranjarão um modo de cruzar para os Estados Unidos. Lá os espera um amigo do bairro que foi em anos anteriores, já lhes conseguiu trabalho na fábrica onde trabalha armando contendores de metal. Escutaram falar dos bandos delitivos e tudo o que fazem com os migrantes indocumentados no México, mas para eles não há maior perigo que o de morrer soterrado no lixão onde passaram a vida, tudo o que tem que fazer é tentar, não há nada a perder, sonhos não têm, sentem-se lixo, cheiram à merda e foram discriminados desde que nasceram, que diferença faz morrer na tentativa.

Conseguem chegar a Tapachula, em Tenosique, Tabasco, sobem no lombo da Besta, jamais haviam visto um trem e jamais haviam visto tantos migrantes que como eles fugiam da pobreza e da fome, não o surpreendeu ver os punhos dos policiais mexicanos que os perseguiam e os tratavam como criminosos, ele viveu perseguida toda a sua vida, pela violência, a pobreza e a miséria, não se ia deixar vencer por uns policiais, que não o venceu seu pai, quanto mais uns fardados que não conheciam nada de sua vida e nada de suas lutas. 

Tampouco se assustou quando saíram os homens com armas de grosso calibre a persegui-los no lombo do trem, a morte a haviam vivido desde crianças, ver mortos nesses circunstâncias o tomou como parte do trajeto, doer não lhe doía, o que doeu foi ver seus amigos morrerem com a roleta russa, as famílias do bairro desaparecerem no alude de cada ano no inverno no lixão, ver como as pessoas tapavam o nariz quando chegavam em caminhão a recolher o lixo, ver seu pai batendo na sua mãe e seus irmãos todas as noite quando chegava ébrio, isso lhe doeu e lhe doeu tanto que lhe curtiu a alma , que não voltou a sentir dor, nem tristeza, nem amor.

Depois de uma semana no lombo do trem conseguiram chegar a Sonora e de imediato entraram no deserto, grande conhecedores do lixão da zona 3, da capital guatemalteca, onde passavam dias e noites recolhendo plástico, papelão, vidro e cobre, sobreviventes de derrubadas de montanhas de lixo. 

Catalino Sixto e seus amigos não puderam sobreviver às altas temperaturas do deserto, não tinham mais que um galão de água para os três e o anseio compartilhado de chegar aos Estados Unidos, que lhes haviam contado que era um lugar onde os sonhos se tornavam realidade. Foi o último a morrer, enquanto agonizava, debaixo da sombra de um cacto, Catalino Sixto, em um ato desesperado de resistência, cheirou sua roupa, não cheirava a merda e isso, isso era o mais importante havia vencido o cheiro do lixão, ninguém tornaria a chamá-lo de lixeiro pelo cheiro de sua roupa e de sua pele. Morrer, pensou, era igual lá que aqui e isso era o de menos, havia tido a coragem de enfrentá-lo. 

Ilka Oliva Corado é colaboradora de Diálogos do Sul de território estadunidense.
Tradução: Beatriz Cannabrava


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Ilka Oliva Corado Nasceu em Comapa, Jutiapa, Guatemala. É imigrante indocumentada em Chicago com mestrado em discriminação e racismo, é escritora e poetisa

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