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Desmemoriados: uma peça boliviana de teatro que resvala na memória interessada

Revista Diálogos do Sul

Tradução:

 

Alfonso Gumucio*

Tenho a certeza de ter escrito isso antes: fazer teatro na Bolívia é coisa de loucos. Talvez não tenha dito com essas mesmas palavras, mas acho que ensaiar uma obra 30 vezes para representá-la só cinco ou seis vezes, não é sensato.

Nessa equação se confrontam duas atitudes contrapostas: por um lado, o desejo (heróico) que os autores, diretores e atores de teatro têm de se expressar, e por outro, a indiferença lastimosa e cruel de um público boliviano que vai sempre ver a última porcaria produzida em Hollywood, mas não tem pelo menos a curiosidade de se aproximar de uma obra de teatro (ou de um filme nacional, já que falamos nisso).

Ninguém pretende que em um país onde o paladar das pessoas se empobrece a cada dia e onde reina cada vez mais o péssimo gosto na arquitetura e nas artes em geral, as obras de teatro alcancem cifras astronômicas de espectadores. Não quero sequer comparar nossas pobretonas cidades com capitais de luxo como Buenos Aires que conta com 186 salas de teatro, ou a Cidade do México, que oferece 170 museus e 43 galerias. Comparemos com outras cidades de “nosso tamanho” e veremos como estamos mal, apesar do esforço de artistas e criadores, e graças à política “cultural” do “processo de câmbio” que privilegia o futebol e o Dakar por cima dos demais.

Outra coisa que escrevi em outra ocasião é que admiro a persistência de Marcos Loayza, criador compulsivo que se não está fazendo cinema está fazendo teatro e, no meio dessas atividades, desenha compulsivamente em cadernos que são exemplares únicos de arte-objeto, maravilhoso reservatório de expressões que transborda de invenção, humor e beleza.

Não faz muito tempo que Loayza estreou Averno, seu recente longa-metragem de ficção e já nos provoca novamente com Desmemoriados, uma obra de teatro escrita por ele, com as atuações de Antonio Eguino, Raúl Pitín Gómez, Antonio Peredo e Mariana Vargas. Não foi por acaso que no primeiro parágrafo mencionei que na Bolívia as obras de teatro se ensaiam 30 vezes e se representam cinco ou seis vezes, porque é exatamente o que acontece com a obra de Loayza.

 

O ponto de partida de Desmemoriados é simples: Héctor, um octogenário interpretado por Antonio Eguino, visita Manuel (Gómez), amigo ao qual não viu durante meio século, desde as agitadas décadas de 1960 e 1970. Recebido por um filho desconfiado (Peredo), Héctor não consegue explicar o motivo de sua visita depois de tanto tempo. Um uísque faz com que sua língua se solte um pouco para alegar que passou muito anos tratando de encontrar seu amigo de juventude e que quer vê-lo para dar-lhe um abraço a falar de coisas que viveram juntos.

Mas Manuel, em cadeira de rodas, amargado pela vida e irritado, não tem nenhum interesse: “Quem é esse velho, mande ele embora”, ordena a seu filho, enquanto Héctor o mira com paciência e de vez em quando trata de abrir um resquício na memória de seu amigo, recordando os “nomes de guerra”  que usavam quando militavam na guerrilha, os nomes de companheiros e companheiras e as ações violentas que executavam convencidos de que a luta armada era o único caminho.

O filho de Manuel vai tomando conhecimento de coisas que seu pai nunca tinha lhe contado, não porque as tivesse esquecido, mas porque queria esquecê-las. A memória de Manuel construiu uma parede, a de Héctor construiu uma janela. Essa janela que Héctor quer abrir na parede de Manuel parece motivada por nobres sentimentos: a amizade entranhável e a memória partilhada. Talvez também pela solidão: a pessoa fica velha e vai perdendo amigos de alma até que olha ao seu redor e percebe que não sobrou nenhum, ou talvez sobre algum que valha a pena procurar para sentir que o mundo não desapareceu completamente. Referendar a própria memória na memória de outros é uma tábua de salvação.

Esses sentimentos parecem animar o reencontro de Héctor com Manuel, e em alguns momentos percebemos que a teimosia de Manuel poderia ceder, que sua memória poderia se abrir para — no meio de tantos ressentimentos e amargura —, restabelecer uma ponte caída, recuperar com a memória um horizonte de vida antes que seja demasiado tarde.

No entanto, há um súbito esgotamento na exploração que faz a obra sobre os andaimes que podiam construir uma história sólida: a amizade e a memória. Os dois eixos teriam permitido a Loayza desenvolver uma narração interessante, mas talvez com o ânimo de dar-lhe um fim (embora seja uma obra de apenas uma hora), Marcos introduz um elemento que derruba os valores humanos para reduzir-se aos monetários; Héctor confessa que sua aproximação a Manuel tem um objetivo interessado: que Manuel recorde o que aconteceu com uma maleta cheia de dólares, produto de uma ação guerrilheira.

Isto, embora ajude a concluir a obra, faz desmoronar os andaimes. Quando o diálogo parecia ficar interessante e quando Manuel dava sinais de recordar e um brilho de memória parecia reanimá-lo, a obra conclui de maneira abrupta com o assunto da maleta: a memória de Héctor era uma memória interessada, não uma memória generosa.

Em conversações que sustentei com Marcos a propósito do final de seu filme Averno, ela admitiu que lhe custa em suas obras definir como terminam. Isto se aplica também a Desmemoriados, onde ele perde a oportunidade de fazer um ensaio sobre a memória e também sobre a amizade.

Desde a primeira parte vemos que o diretor busca um caminho sem encontrá-lo plenamente. Os diálogos nas visitas de Héctor são repetitivos e deixam a impressão que a construção dramática não progride. Cada personagem se aferra ao mesmo discurso: Héctor sem explicar o motivo real de sua visita, Manuel mandando sair de sua casa o seu amigo e o filho de Manuel buscando compreender o que é que une a ambos. Os diálogos giram em círculo, não avançam.

Em minha própria reconstrução da obra como espectador, eu teria esperado que as palavras de Héctor abrissem pequenas janelas no muro fechado de Manuel, e que essas janelas terminassem se multiplicando até que ambos os amigos recuperassem algo mais valioso que uma maleta cheia de dólares: a memória de uma cumplicidade política e de uma amizade que sobrevive à passagem do tempo.

As atuações são boas, embora a direção de atores imponha a Pitín Gómez, esse personagem que não cede um milímetro de sua posição inicial e repete até o cansaço as mesmas frases. Antonio Eguino interpreta a Antonio Eguino, o que flui com muita naturalidade até em sua maneira de pedir um uísque. Afinal, o personagem secundário de Antonio Peredo é o que mostra maior versatilidade, mais evolução e uma certa espessura sociológica.

 

“Cada um tem o máximo de memória

para a que lhe interessa

e o mínimo para o que não lhe interessa”.

Arthur Schopenhauer

*Alfonso Gumucio colabora com Diálogos do Sul desde La Paz, Bolívia.

 

*Colaborador de Diálogos do Sul, de La Paz, Bolívia


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
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