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Desprezando os mais vulneráveis, G20 fracassou e mercado não resolveu desafios globais

Na “Carta ao G20”, assinada por líderes mundiais para dar uma resposta global à crise, propõem-se as mesmas medidas que foram adotadas frente à crise financeira de 2008
Roberto Sávio
IPS
Roma

Tradução:

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Está claro que o G20, criado em 2008 para reduzir o escândalo autárquico do G6, G7 e G8, fracassou estrepitosamente, ampliando a brecha social e deixando de atender os mais vulneráveis.  Estamos em uma nova era, frente a processos potencialmente irreversíveis como a mudança climática, e é necessário agora inventar com sabedoria e firmeza novas medidas em escala global.  

A pandemia pelo coronavírus voltou a explicitar as deficiências e falta de meios que poderiam, se não evitar, pelo menos fazer com que as consequências causassem menos impacto e não só menos danos materiais como, sobretudo, menos perdas humanas…

Diante da atual crise do coronavírus que estamos vivendo, não se pode tolerar por mais tempo uma economia baseada na especulação, deslocamento produtivo e guerra, e sim uma economia baseada no conhecimento para um desenvolvimento global sustentável, que permita uma vida digna a toda a humanidade e não exclua, como sucede agora, 80% dela.

Quando nos damos conta da dramática diferença entre os meios dedicados a potenciais enfrentamentos e os disponíveis para fazer frente a recorrentes catástrofes naturais (incêndios, inundações, terremotos, tsunamis…) ou sanitárias, como a atual pandemia, constatamos, com espanto, que o conceito de “segurança” que os grandes produtores de armamento continuam promovendo é não só anacrônico como altamente prejudicial para a humanidade em seu conjunto, e que é preciso, sem demora, adotar um novo conceito de “segurança”, sob a vigilância atenta e envolvimento direto das Nações Unidas.

Na “Carta ao G20”, assinada por líderes mundiais para dar uma resposta global à crise, propõem-se as mesmas medidas que foram adotadas frente à crise financeira de 2008

G20
Diante da atual crise do coronavírus que estamos vivendo, não se pode tolerar por mais tempo uma economia baseada na especulação.

A saúde é o mais importante, e deve ser tratada sempre, em seus aspectos curativos e preventivos, com absoluto profissionalismo, deixando de lado qualquer outra consideração. Porque a saúde é um direito de todos. Houve grandes avanços na medicina, mas pouco foi compartilhado. O grande desafio é compartilhar e estender.

Progressivamente, as epidemias, que sempre existiram e existirão, passarão a ser graves pandemias porque o “trânsito humano” não deixará de aumentar.  Há algumas décadas a difusão era muito escassa porque a grande maioria da humanidade estava confinada em espaços reduzidos e a possibilidade de transmissão para o exterior era pequena.

Mostram-nos diariamente imagens das ações admiráveis que está levando a cabo o pessoal da saúde para atender com grande profissionalismo e humanidade a todos os enfermos do coronavírus, apesar dos minguados recursos com que contam pelo afã desmedido dos últimos anos de debilitar o Estado (assim “morrem” as democracias atuais…). Ponderamos e aplaudimos o trabalho impagável que continuam realizando todos aqueles que colaboram nos setores essenciais (nutrição, transporte, distribuição, regulação da conduta cidadã, limpeza, desinfecção…), assim como a atividade dos efetivos militares e das forças de segurança em situações de emergência.  É nestas circunstâncias que se evidenciam -e não se deve esquecer, uma vez mais-  os efeitos dos recordes na capacidade de investigação, a redução  do tecido industrial e dos distintos e tão relevantes setores do saneamento público que, de agora em diante, deverão estar sempre preparados para contingências desta natureza e gravidade. 

Na “Carta ao G20”, que acaba de ser assinada por “líderes mundiais para dar uma resposta global à crise do coronavírus”, propõem-se as mesmas medidas que foram adotadas frente à crise financeira de 2008, e que levaram à situação presente, tendo demonstrado que os mercados não resolvem os desafios globais. Frente a ameaças de âmbito mundial exige-se uma reação proporcional de “Nós, os povos”. Não é a plutocracia -que representa na realidade a força de um só país- e sim o multilateralismo democrático que pode estar à altura das circunstâncias. Por que 20 países devem segurar as rédeas do destino comum quando neste momento há no mundo 196 países? Não é o “grande domínio” (financeiro, militar, energético, midiático) que vai solucionar os problemas e sim a voz e as mãos unidas de todos os povos. A Carta deveria ser dirigida às Nações Unidas, para dar um renovado vigor ao multilateralismo e não a seu principal oponente.

Chegou o  momento –que a  irreversibilidade potencial torna urgente- de reduzir as sombrias tendências atuais próprias da deriva neoliberal, que não ouviu os apelos da comunidade científica para a oportuna adoção de medidas contra a mudança climática e a implementação sem mais adiamento dos ODS  (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, Agenda 2030) adotados pela Assembleia Geral das Nações Unidas em novembro de 2015 “para transformar o mundo”.

A ciência deve ajudar o cidadão para que não fique à mercê de alguns grandes consórcios internacionais e de uns poucos governos. É preciso verificar bem as informações tão rapidamente acessíveis na atualidade, para que, em breve prazo, sejam os conhecimentos, e não os interesses, que orientem a bússola do amanhã.

A sabedoria está hoje em favorecer a evolução da governança de tal modo que não seja necessária a revolução. Voltar a soluções periclitantes e parciais seria dar razão à excelente vinheta publicada por El Roto no jornal “El País” em 5 de abril: “Quando tudo isso passe nada voltará a ser igual… menos o de sempre, claro!”.

O progresso que a medicina alcançou nos últimos anos –vacinas, antibióticos, práticas cirúrgicas, conhecimento profundo da fisiopatologia, dos reguladores moleculares, dos mecanismos de expressão genética e dos condicionamentos epigenéticos, da sinalização celular, do diagnóstico enzimático e da introspecção física…– conseguiu melhorar a qualidade de vida e a longevidade da população. Realizaram-se grandes avanços, mas não se soube levar os meios de sua aplicação a todos os seres humanos, iguais em dignidade.

O grande desafio agora é compartilhar e estender o progresso. Há algumas décadas, não sabíamos como vivia a maioria dos moradores do planeta. Agora sabemos e, portanto, se não contribuirmos para facilitar o acesso de todos a níveis razoáveis de bens e serviços seremos cúmplices.

A atenção deve ser integral e dirigida a toda a população. O tempo da passividade e do temor acabou, e é preciso dizer alto e em bom som que a sociedade não transigirá em questões das que depende, com frequência, a própria existência.

O futuro ainda está por fazer-se. E a democracia está em perigo. O futuro que desejamos emergirá da consciência global, da cidadania mundial, com uma equidade progressiva, capaz por fim de expressar-se e deixar de ser invisível, silenciosa, submissa. Por fim, a cidadania poderá, presencialmente e no ciberespaço, manifestar-se sem restrições. Por fim, a força da razão em lugar da razão da força. Por fim, todos e não uns quantos. Por fim, o envolvimento cidadão. Por fim, a palavra esclarecendo os hoje sombrios caminhos do amanhã.

10 de abril de 2020.

Signatários

Federico Mayor Zaragoza, Presidente da Associação Espanhola de Avanço da Ciência
Roberto Sávio, Presidente de Outras Notícias
Rosa María Artal
Emilio Muñoz, Parceiro Promotor da AEAC
María Novo, Professora de Desenvolvimento Sustentável UNESCO / UNED
Vicente Larraga, sócio fundador da AEAC
Enrique Santiago, especialista jurista em Direitos Humanos e Direito Internacional

IPS, especial para Diálogos do Sul — Direitos reservados

Tradução: Beatriz Cannabrava


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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Roberto Sávio

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